A Aldraba levou a cabo, no dia 17 de Junho de 2006, mais uma iniciativa que agregou os princípios culturais e de lazer e que permitiu a um conjunto de cerca de 30 associados e amigos desfrutarem de um espaço único: a visita guiada à Quinta da Regaleira.
A Quinta da Regaleira é um espaço indescritível, com uma carga imensa de misticismo e esoterismo, que nos transporta em sonhos para a aventura e resolução de enigmas que povoam o nosso imaginário. Está presentemente, e após várias vicissitudes, sob propriedade da Câmara Municipal de Sintra.
Passemos a conhecer melhor este local, situado no coração de um espaço que é, ele mesmo, património mundial.
MemóriaA história da Quinta da Regaleira, tal como ela se apresenta nos nossos dias, começa em 1892, altura em que é adquirida por António Augusto Carvalho Monteiro. O “Monteiro dos Milhões”, epíteto que o acompanhou durante toda a sua vida, nasceu no Rio de Janeiro em 1848, filho de pais portugueses, herdeiro de uma grande fortuna familiar, multiplicada no Brasil com o monopólio do comércio dos cafés e pedras preciosas, ficou conhecido pelo seu carácter altruísta e excêntrico. Licenciado em Leis pela Universidade de Coimbra, Carvalho Monteiro tinha como grandes interesses os livros (financiou uma brochura de bolso de “Os Lusíadas”), a ópera, os instrumentos musicais, os relógios, as conchas, as borboletas e as antiguidades. Mas o seu maior desejo era a construção de um espaço grandioso, em que vivesse rodeado dos símbolos que espelhassem os seus interesses e ideologias. Assim, decidiu comprar a Quinta da Regaleira, propriedade original da família Allen, à data, pela astronómica quantia de 25 contos de réis. Monteiro considerava Sintra um local de encantamento e de inspiração (tal como Byron), sentindo que representava a essência de Portugal, uma espécie de bastião da alma lusitana.

Arte e Cultura
António Monteiro, das suas idas à ópera, conheceu o arquitecto, pintor e cenógrafo italiano Luigi Manini, que veio para Portugal para trabalhar no Real Teatro de São Carlos, e igualmente conhecido por ter participado na construção do Palácio-Hotel do Buçaco. Não eram somente as questões estéticas que uniam Monteiro a Manini. Ambos partilhavam as mesmas filosofias, o que levou inquestionavelmente ao desenvolvimento do projecto da Quinta da Regaleira.

O grande mentor da Regaleira era um homem conservador, monárquico e cristão gnóstico. Da conjugação dos seus sonhos, com as artes de Manini e a dos artesãos da pedra, nasceu um edifício rico em estilos e repleto de originalidade. A predominância do estilo manuelino, ou neo-manuelino, demonstra uma nostalgia dos tempos gloriosos dos Descobrimentos, imortalizada na obra épica de Camões, recorrendo a a um percurso carreado nos elementos do sobrenatural e do sagrado. Surgem ainda, proficuamente, uma série de novos elementos, tais como animais e espécies antropomórficas, mas também muitos símbolos esotéricos, relacionados com a alquimia e com a maçonaria.
Os Jardins e o Poço IniciáticoOs Jardins da Regaleira, foram concebidos com o recurso a fantasias herdadas do ideal greco-latino, com os jardins a encherem-se de estátuas, de grutas, de torres, de fontes, de jogos de água e muitos outros elementos simbólicos, em percursos pré-definidos e místicos.O momento alto da visita, foi sem sombra de dúvida, a descida ao poço iniciático, espécie de torre invertida que mergulha nas profundezas da terra.

Como num útero, da terra-mãe, se iniciará a viagem da descoberta e da procura da verdade. E lá bem no fundo, gravada em embutidos de mármore, sobressai uma cruz com motivos que remetem para os templários, aliada a uma estrela de oito pontas, e que é também o emblema heráldico de Carvalho Monteiro.



Continuando pelos subterrâneos, num túnel escuro que sugere a procura da “luz”, evitando os “caminhos errados” e escolhendo o caminho da direita, descobre-se a passagem aberta para o mundo, através do caminho que se faz por um trilho unidireccional sobre as pedras, como que flutuando à superfície das águas.

Capela da Santíssima TrindadeO passeio continuou até se chegar a esta capela, inspirada no revivalismo da arte gótica e manuelina. E podem descobrir-se os antónimos complementares: homem-mulher, anjo-demónio, direita-esquerda, mau-bom. A capela revela muitas surpresas, dos vitrais ao altar, do chão trabalhado, ao púlpito com entrada apenas pelo exterior.


Outras surpresas, escondidas de olhares menos treinados, estão também lá: o caracol, símbolo maçónico, está presente em dois discretos locais, assim como o “olho sobre a pirâmide” acolhe os visitantes, desde logo, ao passarem sob o tecto baixo da entrada.
PalácioO monograma de António Carvalho Monteiro destaca-se da fachada do edifício, todo ele ligado por cordas, nós, laçadas e frisos, numa manifesta anuição ao estilo manuelino. É ainda brilhante a representação do pelicano (símbolo dos mutualistas) a flagelar-se, em virtude de o número de crias ser superior ao que é possível criar. Presentemente, no interior do palácio, é possível visitar 4 salas (Sala da Música, Sala dos Reis, Sala da Caça e Sala da Renascença) realçando-se os riquíssimos e originais ornamentos, bem como os espectaculares pavimentos, tectos, frisos pictóricos e até batentes cabeça-de-leão em portas duplas. Realça-se que, a partir de Julho, estarão abertas outras divisões e salas do Palácio da Regaleira, disponibilizando ao público mais ainda, deste espólio inigualável da arte e da sociedade portuguesa. O grupo saiu desta visita satisfeito e maravilhado com esta emocionante e enriquecedora visita, para tal tendo contribuído a explanação brilhante, didáctica e sabedora, do guia da CulturSintra, o Sr. António Silvestre.

O momento mágico culminou, obviamente, com um almoço convívio, onde se deu continuidade à confraternização, com a “discussão” da descodificação dos enigmas sugeridos e encontrados. Porque nunca é demais repetir estas visitas, pois, nestes locais repletos de magia, com certeza poderemos descobrir e redescobrir um mundo de conhecimento e pormenores escondidos.

(Texto de Cristina Borges / Fotos de João Frade)
De “ALDRABA DIGITAL”