Pré-publicação do editorial do n.º 39 da revista "Aldraba":
Alterações climáticas
Nos passados meses de janeiro e fevereiro, tempestades brutais varreram largas zonas do Centro de Portugal, deixando atrás de si um cortejo de devastação, desolação, sofrimento humano, algumas vítimas e muita destruição de casas, de infraestruturas e, até, de algum património cultural – como no edificado religioso (que obrigarão a um gigantesco esforço de reconstrução).
É inevitável que todos associemos estes factos, e outros que se vêm sucedendo pelo mundo fora, às chamadas alterações climáticas, entendidas como as variações dos padrões meteorológicos de longo prazo na Terra, como a temperatura, os níveis do mar e a precipitação de chuva, com causas (ou, pelo menos, fatores de aceleração) na atividade humana.
A associação Aldraba e a sua
revista, atentas a tudo quanto afeta e preocupa as nossas populações, não podem
deixar de dar aqui um pequeno contributo para a obrigatória reflexão coletiva a
este respeito.
Alguns negacionistas continuam
a tentar semear dúvidas e minorar os problemas. Absurdo! Como muito bem
escreveu, recentemente, Adolfo Mesquita Nunes, “o consenso científico é
robusto: as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e têm causas
humanas identificáveis. Negar isto é negar décadas de dados empíricos,
recolhidos e analisados por milhares de investigadores de todo o mundo,
sujeitos a revisão por pares e a replicação independente”.
O aumento da temperatura média
da Terra é um exemplo de alteração climática. A temperatura na Terra é regulada
pelo chamado efeito de estufa: parte da radiação que o planeta recebe do Sol é
refletida de volta para a atmosfera e, aí, é absorvida pelos “gases com efeito
de estufa”, aquecendo a Terra. Isto veio intensificar mudanças nos padrões
meteorológicos, como a precipitação, e a frequência e intensidade de fenómenos
extremos, como secas, ondas de calor, inundações, cheias e furacões.
A queima de combustíveis
fósseis como o petróleo, o carvão e o gás natural, junto com a agricultura, a
pecuária e a desflorestação, emitem crescentemente para a atmosfera gases com
efeito de estufa (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) e diminuem a
extensão dos processos de remoção do carbono.
Em face desta constatação,
todos os cidadãos conscientes e solidários que, como a Aldraba tem vindo a
modestamente preconizar, se preocupam com o futuro, com a sustentabilidade das
suas terras e com a felicidade das novas gerações, têm de adotar nas suas
práticas individuais e coletivas comportamentos adequados.
Não é possível inverter as
alterações climáticas, mas podemos, cada um de nós, contribuir para atenuar os
seus efeitos, diminuindo a quantidade de emissões de dióxido de carbono libertadas
para a atmosfera, com mudanças drásticas em setores como os transportes, a
energia, a indústria, a habitação, a gestão dos resíduos e a agricultura, tornando
a nossa sociedade mais resiliente, designadamente na utilização mais eficiente
dos recursos hídricos escassos, na adaptação das práticas agrícolas e
florestais e na garantia de que os edifícios e as infraestruturas serão capazes
de resistir às condições climáticas e aos eventos extremos do futuro.
Somos todos desafiados a mudar
as nossas atitudes no dia-a-dia, como seja na redução da produção de resíduos,
no evitar das deslocações em veículos motorizados, no dar prioridade às viagens
em grupo em lugar das individuais, no uso dos transportes coletivos em vez do
automóvel pessoal, etc..
No que se refere aos
transportes coletivos, o economista Lino Fernandes alertava-nos há dias nas
redes sociais, num tom otimista, que o efeito na substituição dos combustíveis
fósseis pode ser mais rápido no caso português, porque os meios coletivos, no
essencial, já estão eletrificados. A rede de comboios tem uma elevada taxa de
eletrificação nas zonas metropolitanas e não só, e o transporte fluvial urbano também
deu um grande salto na eletrificação, podendo ambos aumentar, rapidamente, o
número de passageiros transportados.
É certo que os autocarros de
passageiros têm, entre nós, uma taxa de eletrificação menor, mas temos produção
nacional de veículos elétricos que pode ser aumentada.
Assim, que a nossa ação cívica,
como seja, junto das autarquias e de outras entidades locais, se oriente pela
reivindicação de investimentos que carecem de ser feitos na correção de
infraestruturas e na maior produção de veículos limpos, e numa decidida
transformação da oferta de serviços de transportes, satisfazendo, em termos de
frequência e de cobertura dos dias da semana, as reais necessidades das
populações.
No que se refere ao transporte
de mercadorias, em que as viaturas rodoviárias pesadas queimam quase metade dos
combustíveis líquidos consumidos, a aposta tem de ser decididamente na ferrovia
para os percursos médios e longos, combinada com as viaturas elétricas ligeiras
para a distribuição fina.
Como se vê, coloca-se à nossa
frente um largo e exigente campo de intervenção, para todos os cidadãos que
queiram efetivamente ser atores nas transformações obrigatórias a introduzir
nas nossas sociedades doentes.
José Alberto Franco

















