quinta-feira, 20 de setembro de 2018

25º Jantar-Tertúlia, na Padaria do Povo (Campo de Ourique), 5ª feira, dia 27.9.2018, pelas 20h













Na 5ª feira da próxima semana, dia 27 de setembro, vamos realizar na esplanada da Padaria do Povo, em Lisboa, o nosso 25º jantar-tertúlia.

A “Padaria do Povo” fica na rua Luís Derouet, 20-A, 1º andar, Campo de Ourique, próximo da rua Ferreira Borges. Trata-se de uma cooperativa centenária, criada em 1904 para fabricar pão mais barato para os habitantes da zona. É, desde 2013, uma grande sala de convívio de Campo de Ourique, com xadrez, matraquilhos, dardos e bebidas a preços convidativos, e com um simpático terraço nas traseiras onde se podem organizar jantares de grupo.

Tal como aconteceu em dezembro de 2017, quando ali fizémos o lançamento do nº 22 da nossa revista, vamos ser acolhidos pelo presidente da direção da Padaria do Povo, o amigo José Zaluar, que participará no jantar e no debate-convívio que se seguirá.

O jantar vai incluir entradas quentes e frias, pratos de peixe e de carne, bebidas, sobremesa e café, pelo preço de 15 euros por pessoa. Os interessados em participar devem manifestar-se, até 3ª feira, 25 de setembro, pelo e-mail aldraba@gmail.com, ou pelos telefones 917037007 (Odete Roque) ou 914773956 (Albano Ginja).

Associados, familiares e amigos são convidados a aderir e a participar nesta iniciativa num sítio emblemático da cidade de Lisboa.

JAF

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Nomes de localidades em azulejos (cont. 35)















Há mais de um ano atrás (30/12/2016), publicámos três novas placas de azulejos, duas de Gaia (distrito do Porto) e uma de Mondim de Basto (distrito de Vila Real), todas elas enviadas pela nossa amiga Graça Regueiras, em mensagem que nos enviou, que terminava com o voto de "continuação de um bom trabalho para a vossa Associação”.

Na altura, comentámos que tínhamos divulgado 165 placas de 16 distritos do Continente, só faltando dos distritos de Aveiro e de Braga.

Uns tempos depois, a mesma amiga voltou a escrever: "Junto então uma do Luso, concelho da Mealhada, distrito de Aveiro e uma de Lordelo, concelho de Guimarães, distrito de Braga e estão todos os distritos representados". Por razões técnicas ligadas ao formato das duas gravuras, demorámos muito a publicá-las, o que só hoje acontece.

Um novo grande abraço à Graça Regueiras pela sua preciosa colaboração.

Atingimos hoje um total de 167 placas publicitadas, dos 18 distritos do Continente.

JAF (fotos de Graça Regueiras)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O acervo documental da ALDRABA (16) - Cante












Retomando a publicação da lista dos textos que constam do nosso acervo, divulgamos hoje os trabalhos que saíram na revista "Aldraba" relativos ao descritor CANTE, integrado no grupo temático “Práticas do património”: 


CANTE
Ana Isabel Veiga e Luís Filipe Maçarico, “A natureza no cante alentejano”, nº 22 (Out.2017), p.18
Ana Machado, “O cante alentejano na Margem Sul”, nº 2 (Nov.2006), p.7
Luís Afonso, “A ópera e o cante alentejano”, nº 20 (Out.2016), verso da capa
Luís Afonso, “O problema é a corrupção”, nº 17 (Abr.2015), verso da capa
Luís Ferreira, “Ao cante alentejano”, nº 17 (Abr.2015), verso da contracapa
Paulo Lima, “Património cultural imaterial: conceitos e formas desadequadas de olhar a paisagem…”, nº 16 (Out.2014), p.7
Rosa Dias, “O cante alentejano no Porto”, nº 4 (Dez.2007), p.13


Os leitores e amigos que pretendam aceder a alguns destes textos e que se manifestem em comentário ao presente post, ou por e-mail para aldraba@gmail.com, receberão uma cópia digitalizada do ou dos artigos que indicarem.


JAF  (foto: http://arronchesemnoticias.blogspot.com)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

XXXVII Encontro: "A Comenda e o Património", Gavião, 1-2/9/2018













Iremos realizar no 1º fim de semana de setembro, nos dias 1 e 2, o nosso XXXVII Encontro temático, no concelho alto-alentejano do Gavião.

O Encontro vai estar centrado na localidade da Comenda, onde será feita a apresentação de um livro etnográfico do nosso associado Jorge Branco e onde também decorre nesses dias uma tradicional e rica festa religiosa.

Iremos igualmente visitar vários locais de grande interesse ao longo do concelho do Gavião, e teremos um momento associativo com o orfeão da Comenda.

Programa do Encontro (ainda sujeito a afinações):

Sábado, 1/9
10h00m: Ponto de encontro em Belver, em frente da Fábrica das Tapeçarias (para quem fizer a viagem de automóvel pela A23, aconselha-se a saída da autoestrada nas Mouriscas, https://goo.gl/maps/NBKQSj5P6Vo);
10h15m : Visita às Fábricas dos Tapetes e dos Sabões;
12h30m: Deslocação para a Comenda, onde se almoça no “Centro de Dia” –sabores da gastronomia local (preço de 10€ por pessoa);
14h30m: Apresentação do livro “Comenda com Gente”, de Jorge Branco, no Salão Paroquial e Comunitário da Comenda;
17h30m: Encontro com o orfeão local “Estrela da Planície”;
A partir das 19h00m, jantar livre no espaço das festas da Comenda;
Dormida no Gavião, na Residencial (preço de 15€ por pessoa).

Domingo, 2/9
9h30m: Visita ao Castelo de Belver;
11h30m: “Como se faz o carvão” – Visita aos fornos de carvão e conversa com um carvoeiro;
13h00m: Almoço na Comenda, no mesmo local da véspera (ementa típica alentejana, preço de 8€ por pessoa);
Tarde: Assistir às animadas festas religiosas de Castelo Cernado, em honra de Nossa Senhora das Necessidades.

Desafiam-se todos os associados a integrarem esta deslocação ao Alto Alentejo nos vossos calendários, e a divulgarem o convite a familiares e amigos.

Venham assinalar connosco o fim de férias e o recomeço das nossas atividades.

Manifestem com antecedência a intenção de participar, escrevendo para o endereço aldraba@gmail.com, ou por telefone/sms para o Nuno Silveira (TM: 96 291 60 05) ou para a Mª Eugénia Gomes (TM: 96 444 52 70). Se possível, comuniquem até ao domingo 26 de agosto.


Como sempre, é possível e vantajoso combinar idas em conjunto, por razões de economia e de convívio.

JAF

sábado, 11 de agosto de 2018

"Guardar de Conrado o prudente silêncio"



















Entre muitas outras iniciativas ligadas à realidade do nosso  património, a Aldraba tem~se dedicado a descodificar expressões, frases e ditos que entraram nos usos populares, e cuja origem interessa conhecer. 

O povo apropria-se das manifestações culturais dos estratos sociais mais favorecidos, adapta-os e faz deles ferramentas de comunicação populares, com toda a legitimidade.

A nós, que há 13 anos nos decidimos entrar neste combate, cabe-nos colaborar, discreta mas persistentemente, num processo estimulante e interminável.

A frase que dá título ao post de hoje tem um grande sabor erudito, mas temos que esclarecer de onde provém.

Segundo Maria Regina Rocha (Ciberdúvidas,  expressão deve ser uma variante da célebre frase «J´imite de Conrart le silence prudent», escrita por Boileau, referindo-se a Valentin Conrart.
Valentin Conrart foi um escritor francês de pouca nomeada, que nasceu e morreu em Paris (1603-1675). 
O pai quis destiná-lo ao comércio, mas, tendo aquele falecido cedo, o jovem Conrart, rico e ambicioso, dedicou-se exclusivamente às letras, reunindo em sua casa excelentes escritores, que vieram a constituir a Academia Francesa (1634), da qual Conrart foi secretário. 
Foi também conselheiro e secretário particular do rei. Era um homem muito culto que escreveu muito, mas poucas obras publicou, dedicando-se, sim, à publicação de obras de outros escritores.
Foi vítima do sarcasmo de alguns escritores, entre os quais Boileau. Tornou-se célebre a sátira de Boileau dirigida a Conrart, que começa: «J´imite de Conrart le silence prudent.» Referia-se Boileau à decisão de Conrart de não falar de determinado assunto, ou por o desconhecer ou por não lhe convir referir-se a ele.

Em 20.5.2006, Miguel Sousa Tavares fez, no "Público", o elogio do silêncio de Sócrates. Era decerto um elogio justo quando se refere à capacidade demonstrada pelo novo primeiro-ministro para gerir o silêncio e demarcar-se da loquacidade errática do seu antecessor Santana Lopes. 
Pode guardar-se "de Conrado o prudente silêncio", mas também constatar, como no Hamlet, que "o resto é silêncio". Em política só se deve falar quando se tem uma coisa importante para dizer. Mas quando não se dizem as coisas importantes a tempo e horas, ou apenas depois de toda a gente ter percebido o que já devia ter sido dito e não o foi, o silêncio revela-se um mero estratagema para adiar a verdade. 
A comparação do silêncio de uns com o papaguear caótico de outros não chega, por si mesma, para tornar esse silêncio virtuoso. Os pecados de uns não são penhor da santidade dos outros. E a cacofonia comprova que silêncios há muitos e nem todos são propriamente de ouro.
Mais tarde, em 1.9.2008, o "Comendador Marques de Correia" (heterónimo de Henrique Monteiro), dirige-se ao diretor do "Expresso" nos seguintes termos:

"Escrevo-te esta carta para veres se acertas um editorial. O que os comentadores dizem sobre política é totalmente absurdo, porque ninguém - nem o José Pacheco Pereira, esse preclaro tradutor das pitonisas modernas - percebeu o que se passa. Ao contrário de todos eles, eu entendi perfeitamente e não só tenho uma leitura sobre o assunto, como vários conselhos a distribuir pelos intervenientes do processo político.
A conclusão é simples. Basta pensar no que diz o povo sobre os políticos - que falam muito e não fazem nada!
Foi quando José Sócrates descobriu que Manuela Ferreira Leite não descia nas sondagens que decidiu adoptar o mesmo método que a líder do PSD: não falar. Por isso esteve caladinho durante toda a história da insegurança.
Pois Manuela Ferreira Leite foi a primeira, a precursora de um estilo que responde por inteiro às preocupações populares e sem perder a face. Como os outros políticos, também ela não faz nada, mas ao contrário dos outros, também não diz nada.
Deste modo simples, se soluciona a contradição. De facto, não faz sentido alguém apontar para Manuela Ferreira Leite e dizer: "Olha, lá vai aquela! É mesmo política - não fala nada e depois não faz nada!"
Claro que Sócrates, intuitivo como é - não nos esqueçamos que foi ele a postular "Só sei que nada sei" -, apanhou muito bem a ideia. E assim decidiu dizer o menos possível.
O povo clama por insegurança, o ministro Rui Pereira sua as estopinhas face a uma Judite de Sousa inquiridora, e ele - ao contrário precisamente do que acusam os políticos - guarda de Conrado o prudente silêncio (não sei por que raio Conrado passa a vida a entregar o seu prudente silêncio à guarda dos outros, mas também não vou investigar esse pormenor neste momento).
Assim, guardando Manuela e guardando José Sócrates, o prudente silêncio vai-se paulatinamente instalando na política portuguesa. O meu objectivo para o ano 2009 seria alargá-lo até ao futebol. Aí, sim, seria um grande alívio.
Mas, para já, tratemos da política. O que devem agora fazer os dois mais importantes líderes? Estar calados. O epítome desta política inteiramente nova é um debate em que ambos se olhem fixamente - tipo jogo do "sério" - e que perca, não o primeiro a esboçar um sorriso, mas o primeiro a dizer uma palavra, a emitir um som. Nem que seja o som de um bocejo.
Nesse dia, chegaremos à elevação máxima do debate. Àquele que, no dizer dos filósofos, é indizível, razão pela qual nada mais há senão o silêncio. O absoluto silêncio.
Não sei se, depois disto, ainda haverá pessoas como o prof. Marcelo - que nada mais vêem do que o imediato - a preocupar-se com o silêncio dos líderes.
Na verdade, é aí que está o futuro. Porque, de qualquer maneira, por mais que falem, já quase ninguém os ouve.
Vê lá, caro Director, se depois disso fazem por aí análises políticas mais decentes".

JAF

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Portugal no penico















Pelo seu indiscutível interesse, reproduz-se o artigo da jornalista Joana Amaral Cardoso, hoje editado no jornal "Público":

O penico perdeu terreno para o saneamento das casas, deixou o interior das mesas-de-cabeceira e tornou-se uma brincadeira de crianças. Mas a sua força na cultura é maior do que um objecto – é uma palavra e uma piada para todo o serviço, de Bordallo Pinheiro a Ricardo Araújo Pereira. Na segunda série Objectos (quase) obsoletos olhamos para o que foi substituído, eliminado ou transformado nas casas portuguesas nas últimas décadas.

O que têm em comum Ricardo Araújo Pereira, Raphael Bordallo Pinheiro, a cidade de Braga, a banda punk Garotos Podres e os portugueses que não usam fraldas? Um objecto tão importante que já motivou a intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação, serviu de reacção ao Ultimato de 1890 de Inglaterra a Portugal e educou muitas gerações de portugueses na arte de controlar as suas necessidades fisiológicas. O penico é dos céus quando falamos de Braga e de outras localidades onde muito chove, e é dos diabos quando leva o advogado Marinho e Pinto a queixar-se de uma rábula de um humorista. Já dormiu debaixo de nós ou à nossa cabeceira, agora é uma brincadeira de crianças.

Há um tempo antes e um tempo depois do penico. Ou do bacio, se se preferir. Há uma era do penico no mobiliário, em que as mesas-de-cabeceira tinham uma tipologia própria, paralelepípedos com uma porta na base para se guardar o bacio para as urgências nocturnas. Há uma era do penico no urbanismo português, quando o saneamento básico ainda era uma história de água vai, bem medieval, janela fora, e um pós-penico quando, há pouquíssimas décadas, a existência de uma casa de banho e de uma sanita em cada vez mais casas o remeteu para a actual vida de um bacio - ser um marco no crescimento do ser humano quando se abandona as fraldas e se passa ao penico, para depois se graduar na reluzente sanita. 

Hoje, o penico não é tanto obsoleto quanto o é predilecto dos miúdos para as jovens escatologias. Houve um tempo em que estava por toda a casa, porque a casa era “muito engraçada/ não tinha tecto /não tinha nada” e quando “ninguém podia fazer pipi/ [era] porque penico não tinha ali” - a música A casa, com letra de Vinicius de Moraes, manifesta bem a sua importância, ao lado de tectos e paredes. Era essencial em qualquer casa.

A sua história remonta ao século VI a.C. e aos gregos que o inventaram, tendo o seu uso sido popularizado na Idade Média mas sobretudo do século XIV em diante. O seu formato e materiais variavam, do metal ao barro e à loiça, passando pelo estanho. A certa altura ganhava uma estrutura adjacente, uma cadeira em sua volta, sobretudo para os ricos burgueses e nobres. A arte manteve-o na imagem. Pieter Bruegel, o Velho, pintou no seu Caritas? (1559) um penico bem detalhado, mais uma vez junto de um acamado. Frédéric Bazille pinta em 1865L'ambulance  improvisée (Monet blessé à l'hôtel  du  Lion  d'Or à Chailly-en-Bière), que está exposto no Musée d'Orsay, em Paris. Nele, o seu amigo e pintor Claude Monet está de cama, ferido, e com um penico bem perto de si. E naUtopia (1516) de Thomas More os penicos eram satiricamente feitos de ouro. Há meros 15 anos nascia em Portugal a banda Penicos de Prata, que musica a sátira de grandes poetas portugueses, de Pessoa a Adília Lopes.

Depois de décadas debaixo das camas ou dentro das mesas-de-cabeceira, Portugal guarda os seus penicos nos sítios mais inesperados.

N’Uma Aventura no Palácio da Pena (2012), Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada escrevem como as gémeas Teresa e Luísa, escondidas no palácio em Sintra, se deparam com um “penico de loiça antiga, muito fora do vulgar pois tinha tampa”. Era o penico da rainha D. Amélia, um de vários que os museus portugueses guardam.

Estão também na habitual montra que prova a passagem de um objecto para o ramo do passado, nas lojas de antiguidades, nos sites coleccionadores, mas também, no seu formato mais comum de há 70, 60, 50 ou 40 anos - uma bacia de estanho, porcelana ou plástico, com uma indispensável pega - à venda em sites como o OLX com o inevitável epíteto “vintage”. Há uma nostalgia do penico, como comprova a olaria Oficina da Formiga, em Ílhavo, que continua a fazer penicos em cerâmica tradicional e “transmitindo os sentimentos de saudade e tradição nas peças” que produz.

Do penico ao telemóvel

Há 80 anos, nem o penico era usual no campo português, como mostram os resultados do Inquérito à habitação rural dos anos 1940, citado no terceiro volume da História da Vida Privada em Portugal de José Mattoso. “As dejecções são feitas em pleno campo, numa estrumeira do exterior da casa ou mesmo na corte do gado.” 

Três décadas depois, o Censo de 1970 dizia-nos que só 29% das casas portuguesas tinham em simultâneo o que a historiadora Sandra Marques Pereira considera os “quatro requisitos mínimos de modernidade”: “água, luz, banho e retrete”. A concentração de modernidade era maior nas cidades do litoral e menor no interior.

O cenário torna-se mais confortável nos estudos populacionais seguintes, porque entre 1981 e 2001, escreve-se na mesma obra, a percentagem de habitações sem instalação de banho desce dos quase 40% para pouco mais de 5% e a percentagem de casas que não dispunham de retrete dos 20% para os 6%. É paralelamente a este avanço de saneamento que o penico recua. 

“Lembro-me de utilizar quando era pequena e numa altura em que não havia casas de banho. Hoje não tenho bacio e penso que é um objecto que está em desuso. Só as crianças e os idosos é que ainda o usam”, dizia em 2005 Teodora Maria, de 64 anos e natural de Vila Viçosa, ao Correio da Manhã. O jornal inquiria os visitantes de uma exposição de 170 penicos em miniatura, um “enorme sucesso”. Outra visitante, de 13 anos, confirmava a actual vida do bacio - “Na minha casa só a minha irmã, que tem agora dois anos, é que usa o bacio. O meu avô também tem um debaixo da cama ou dentro da mesa-de-cabeceira e usa-o no quarto para não ter que descer as escadas”, contava Cátia Rebocho.

Actualmente, só há um modelo de mesa-de-cabeceira com portinhola e o espaço que há décadas era reservado para o penico à venda no prolífero Ikea. A imagem de catálogo mostra que agora atrás dessa porta moram idealmente alguns papéis e um telemóvel. A Conforama também vende mesinhas de cabeceira com um texto tranquilizador: “Por fim, é chegado o momento de descansar. E nada melhor do que estar deitado na sua cama e saber que tem tudo aquilo de que necessita ao alcance da sua mão. Coloque sobre a mesinha de cabeceira uma lâmpada prática, um objecto decorativo ou deixe o telemóvel enquanto ele se carrega”. Nada de penicos, só telemóveis, objecto associado a outro tipo de chamadas nocturnas.

A palavra penico foi então substituída, ainda que simbolicamente, pela palavra telemóvel. Mas se objecto penico reduziu o seu raio de acção, a sua presença na cultura mantém-se forte precisamente no verbo.

“Penico” significa um ”recipiente próprio para se urinar e defecar; bacio; pote; bispote”. Diz a Infopédia que a palavra penico é “de origem obscura”. Já o bacio tem nome mais fácil de recuperar, vem “do latim popular baccinu, ‘vaso de madeira’”. É uma palavra e um objecto que carrega consigo outros sentidos.

À cabeça vem o humor, relacionado com a vergonha que a cultura ocidental associa a actos tão naturais e essenciais como respirar e comer - defecar e urinar. O dramaturgo George Bernard Shaw dizia, sobre a invenção da irmã mais velha do penico, a retrete ou sanita, que “só uma sociedade muito refinada é capaz de pensar nestas coisas e, ao mesmo tempo, ruborizar-se ao falar delas”. É também sua a acepção algo depreciativa. A um objecto destinado a recolher dejectos e odores nada refinados fazem-se associações negativas, como na caricatura de Alonso, no final do século XIX, em que o penico diz “política” e está cheio de homens de casaca.

Mijar fora do penico

“Como se costuma dizer em linguagem popular, eu mijo fora do penico”, clamava o jornalista e escritor Manuel António Pina numa das suas últimas entrevistas, em 2012. Falava de não ser militante de qualquer partido e de ser desalinhado. É uma expressão que, anos mais tarde, traria uma camada extra de humor ao próprio humor feito sobre as eleições legislativas de 2015.

O candidato António Marinho e Pinto, ex-bastonário dos advogados, deu uma entrevista em que dizia aos jovens portugueses para “mijarem fora dos penicos”. Durante a pré-campanha, o humorista Ricardo Araújo Pereira, na rubrica Isso é tudo muito bonito, mas… da TVI, pegou nas declarações para concluir: “Até que enfim que alguém expressa os grandes valores políticos do séc. XXI: liberdade, igualdade e… chichi. Os partidos são penicos e o voto é chichi. Urinar é um direito e um dever cívico.”

Num sketch, alguém faz que urina em penicos com símbolos dos partidos no fundo. Um deles tem a imagem de Marinho e Pinto. “Um ataque torpe e cobarde”, para Marinho e Pinto, que fez queixa à ERC. Que não lhe deu razão - a rábula “parece fazer literalmente jus ao desafio lançado pelo próprio queixoso aos jovens: ‘Mijem fora dos penicos que vos põem à frente’”. O caso ficou por aí, mas o uso do penico como arma de arremesso não. 

Em Coimbra, em 2001, numa manifestação em que os trabalhadores dos transportes municipais se queixaram de não ter casas de banho nem sítio onde se fardar no centro da cidade, lá estavam os penicos. Eram cor-de-rosa e foram notícia porque o então presidente da autarquia, Manuel Machado, os mandou retirar por estarem “achincalhar a dignidade” da reunião semanal do executivo camarário. A questão da dignidade do penico acompanha-o sempre.

Havia penicos nas praxes académicas, como os que o PÚBLICO via nas cabeças dos caloiros na Cidade Universitária de Lisboa em 2008. Era avisado que quem não comprasse um penico para enfiar na cabeça era “um caloiro abaixo de verme”, para risota geral dos recém-chegados à universidade. Há penicos nas reportagens e crónicas sobre Braga, cidade cuja pluviosidade profusa lhe merece a alcunha de “penico dos céus” (outras cidades, como a beirã Viseu, também recebem a mesma honra). Um capacete aberto para andar de mota, especialmente dos que se usavam com uma pequena pala e abas de pele em cima de uma Famel ou de uma Zundapp é, naturalmente, um penico.

O penico é um objecto ingrato, tão útil quanto rejeitado. Se no século XVI eram os escravos que carregavam com os penicos dos nobres e burgueses portugueses, nem quando se inventou finalmente um sistema de escoamento com o que evoluiria para ser um autoclismo, havia quem preferisse continuar a contar com o bom e velho penico – nas mãos de outros, claro. Foi o caso dos britânicos Tudors, no século XVI, que preferiam “ter um criado que trouxesse um penico até ao quarto” ao invés de ter de caminhar até ao quarto de banho, como recorda a curadora dos Palácios Reais Históricos, Lucy Worsley, na BBC. Anos mais tarde, é a vez de a relação de Inglaterra com o penico ser revista em Portugal.

Foi pela mão de Raphael Bordallo Pinheiro, ceramista e caricaturista, que reagiu ao Ultimato de 1890, quando Inglaterra exigiu a Portugal que se retirasse de certos territórios em África, como melhor sabia. Momento grave na relação dos países aliados, gera a letra do actual hino nacional, A Portuguesa, e a queda de um governo. E, numa oficina nas Caldas da Rainha, dá origem a uma nova versão de John Bull, a conhecida representação de um inglês rico e amigo da comida e da bebida criada no século XVIII. Bordallo Pinheiro acocora-o, faz de um braço uma asa e do seu corpo o interior de um colorido penico – hoje peça de museu, até invoca a figura de Donald Trump e é um dos penicos mais famosos do país.


O penico John Bull é também a prova de que associar alguém ao penico raramente é coisa boa. No Portugal dos anos 1990 resumia-se a febre do surf e daqueles que a cavalgavam só por pose com a expressão “surfistas de banheira”. Mas os Garotos Podres, banda do punk brasileiro, diziam tudo com um penico - era a música do Surfista de Pinico (1993 ). “Pego a minha prancha/E mostro a elas que existo/Eu sou/Um Surfista de penico/Mas eu preciso/É aprender a nadar/Senão no meu penico/Eu sei que eu vou me afogar”. Nem todos podem ter a leveza e humor da actriz portuguesa Daniela Ruah, estrela na televisão americana, e que em 2017, quando fez 34 anos, publicou no Instagram, para o seu quase milhão de seguidores, uma foto de infância bem disposta. “Sim, tenho milho na mão. Sim, estou na casa de banho. Sim, tenho um penico na cabeça.”

Joana Amaral Cardoso

sábado, 14 de julho de 2018

Exposição "Albino Moura - Olhar Íntimo (1948-2018)"














Na nossa 8ª iniciativa em espaços de interesse para o património, vamos levar a efeito, na manhã do próximo sábado 21 de julho, a partir das 10 horas e 30 minutos, uma visita guiada à exposição "Olhar Íntimo de Albino Moura”, no Museu da Cidade de Almada, na Cova da Piedade.

Todos os associados e amigos são convidados a comparecerem, e a trazerem outros amigos também nesta visita.

O artista plástico Albino Moura nasceu em Lisboa em 28.5.1932. Começando como decorador de publicidade, desenhador gráfico e ilustrador, passou, sob a orientação de Fred Kradolfer, a colaborar em trabalhos de decoração, pintura e cerâmica, e tem um brilhante percurso de criador.

Esta exposição assinala os 70 (!) anos de labor deste nosso concidadão que, recentemente, se abeirou da associação ALDRABA e em que, após ter participado em várias atividades, mostrou interesse em se inscrever. É agora o associado n.º 100...

Escreveu o Albino que "em 1961, visitei Paris pela primeira vez, o que foi muito importante pela oportunidade que tive de ver pintura. Visitei museus, galerias, tudo o que me foi possível ver, os pintores que admirava através dos livros tinha-os ali na minha frente. Picasso, Bracque, Dali e tantos outros (...)".

"Continuei o meu trabalho, mas nunca pondo de lado os quadros. Por outro lado, a leitura de escritores importantes teve um grande peso na minha pintura, porque muitos quadros desse período foram motivados pela leitura de obras de Redol, Aquilino, Soeiro Pereira Gomes, Tolstoi, Gorki, etc."

O mestre Albino Moura vai receber-nos e acompanhar-nos nesta interessantíssima exposição biográfica.

No próximo sábado 21.7.2018, todos os interessados em participar na visita são estimulados a aparecerem às 10h30 no Museu da Cidade, na Praça João Raimundo – Cova da Piedade (Tel. 21 273 40 30).

Depois da visita, para os que puderem, teremos um agradável almoço de convívio próximo do Museu, tal como fizemos numa outra atividade da ALDRABA que decorreu no mesmo local.


JAF