segunda-feira, 6 de julho de 2026

O acervo documental da Aldraba (29) - Trás-os-Montes

Retomamos a divulgação (e disponibilização) dos trabalhos publicados na revista Aldraba, relativos aos temas patrimoniais de que a nossa associação se vem ocupando ao longo dos seus 21 anos de existência.

Desta vez, debruçamo-nos sobre a região de Trás-os-Montes, que é um território do Nordeste de Portugal de enorme riqueza humana e social.

O descritor temático "Trás-os-Montes", para a Aldraba, inclui as sub-regiões estatísticas NUTS III Terras de Trás-os-Montes, Alto Tâmega e Lindoso, e Douro, e abrange os seguintes 34 municípios: Alfândega da Fé, Bragança, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mirandela, Mogadouro, Vila Flor, Vimioso e Vinhais - nas Terras de Trás-os Montes; Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar - no Alto Tâmega e Lindoso; e Alijó, Armamar, Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Lamego, Mesão Frio, Moimenta da Beira, Murça, Penedono, Peso da Régua, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa e Vila Real, no Douro.

Na nossa revista, publicámos sobre Trás-os-Montes os seguintes artigos:

Augusto Fernandes, “Viagem à terra do vinho dos mortos”, n.º 19 (Abr.2016), p.13

Francisco José Lopes, “Vilarelhos – terra de poesia e arte de vanguarda em meio rural”, n.º 32 (Out.2022), p.23

Luís Filipe Maçarico, “A história de um encontro do património transfronteiriço”, n.º 24 (Out.2018), p.11

Luís Filipe Maçarico, “Couto Misto, uma república entre dois reinos”, n.º 33 (Abr.2023), p.2

Maria Hercília Agarez, “Amadeu Ferreira, um cibo de Trás-os-Montes”, n.º 17 (Abr.2015), p.22

Ondina Albino, “O linho”, n.º 28 (Out.2020), p.24

Rodrigo Dias, “Sobre a luz e o escuro: Valdanta – Chaves [1]”, n.º 28 (Out.2020), verso da contracapa

Rodrigo Dias, “Sobre a luz e o escuro: Valdanta – Chaves [2]”, n.º 30 (Out.2021), verso da contracapa

Rodrigo Dias, “Valdanta – Chaves – Trás-os-Montes [3]”, n.º 32 (Out.2022), verso da contracapa

Rodrigo Dias, “Amoras silvestres - Valdanta – Chaves [4]”, n.º 33 (Abr.2023), verso da contracapa

Rodrigo Dias, “Como se a noite fosse uma evaporação escura da terra - Valdanta – Chaves [5]”, n.º 34 (Out.2023), verso da contracapa

Rodrigo Dias, “O Tio Moreno – Valdanta - Chaves [6]”, n.º 39 (Abr.2026), verso da contracapa

Shawn Parkhurst, “A constelação chamada Douro chama”, n.º 21 (Abr.2017), p.8

Qualquer associado ou amigo que deseje aceder a algum ou alguns destes artigos pode solicitá-lo por um simples mail para aldrabassociacao@blogspot.com, e teremos todo o gosto em o(s) reproduzir e enviar.


JAF  

domingo, 28 de junho de 2026

A Aldraba confraternizou no arraial de Os Combatentes


 













Alguns associados e amigos da Aldraba aceitaram o desafio para vir confraternizar em mais um arraial popular na coletividade nossa amiga de Campo de Ourique, o Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", que este ano comemora o seu 120.º aniversário.

Na noite de 26 de junho de 2026, a mesa que reservámos foi muito bem servida de caldos verdes, caracóis, bifanas, chouriço assado e sardinhas, tudo regado a cerveja, vinho e sangria...

Entre as atrações da época que partilhámos, destacou-se o animado desfile da Marcha Infantil de Alcântara, em que nos encantaram dezenas de miúdas e miúdos muito bem vestidos, bem ensaiados e com muita convicção!

JAF (foto AIVeiga) 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Aldraba vai ao arraial dos Combatentes - 6.ª feira, 26jun2026, a partir das 20 h


Assinalando os Santos Populares de 2026, a Aldraba organiza uma ida ao Arraial da nossa coletividade amiga GDEC - Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes, na próxima 6.ª feira, dia 26 de junho, no amplo espaço em que estas festividades vêm decorrendo - entrada pela Rua Possidónio da Silva, n.º 206, Campo de Ourique, em Lisboa.

Temos reservada uma mesa em que poderão participar quaisquer associados e amigos da Aldraba (sem necessidade de inscrição prévia) que apareçam para petiscar e conviver, com garantia de serviço à mesa, bastando dirigir-se à zona que está assinalada em nosso nome.

Poderemos encomendar e consumir sardinhas assadas, bifanas, moelas, chouriço assado, morcela, entremeada, caracóis ou outros petiscos, e beber cerveja, vinho, sangria ou sidra. O pagamento será feito individualmente, em função dos consumos concretos.

Música ao vivo, marchas populares e dança abrilhantarão a noite.

Esta atividade é considerada como o 43.º jantar-tertúlia da Aldraba.

Apareçam e tragam familiares e amigos!

JAF

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Mamíferos selvagens em Portugal (5) - Doninhas

O nome científico da doninha comum é mustela nivalis

As doninhas possuem corpo alongado e esguio, com comprimento variando entre 17 e 55 cm, dependendo da espécie, e cauda proporcionalmente curta ou longa, podendo chegar a 20 cm em algumas espécies.

São predadores noturnos e solitários, caçando principalmente pequenos roedores, como ratos, mas também aves, ovos, insetos, répteis e, ocasionalmente, peixes. A sua habilidade de entrar em buracos e túneis estreitos permite capturar presas escondidas, tornando-os eficazes no controle de populações de roedores, o que beneficia ecossistemas e atividades humanas.

Segundo o investigador Francisco Álvares, especializado em mamíferos carnívoros, a doninha é “o carnívoro de menores dimensões da fauna portuguesa”.

Aparecem “numa grande variedade de ambientes, desde florestas mediterrâneas até prados alpinos, selecionando os habitats pela sua abundância de micromamíferos”, segundo o Atlas de Mamíferos de Portugal.

Em Portugal, os cientistas acreditam que as doninhas estão distribuídas por todo o território continental, “embora com grandes descontinuidades”, e também em algumas ilhas dos Açores. No entanto, como se trata de “uma espécie de difícil deteção”, havendo hoje um baixo número de registos, são necessários mais estudos sobre a presença deste mamífero, indica o Atlas.

JAF (foto e informações recolhidas da Internet)



sábado, 13 de junho de 2026

Ainda acerca do lenço dos namorados do Minho














Depois do post que aqui publicámos em 29 de maio último, com informação sobre a realidade etnográfica dos lenços de namorados do Minho, temos a notícia animadora de que esta preciosidade popular portuguesa acaba de ser registada no quadro jurídico da União Europeia para produtos artesanais e industriais, passando a ser protegida e reconhecida com Indicação Geográfica na UE (sistema que começou a ser aplicado em 1 de dezembro de 2025).

Segundo comunicado do Instituto da Propriedade Inteletual da União Europeia (EUIPO), divulgado no jornal Público, "Portugal é o país mais ativo no âmbito do novo sistema de proteção do património artesanal e industrial a nível europeu"...

Surpresa muito agradável, que saudamos calorosamente, e que contrasta com tanta indiferença e incúria que se tem observado sobre estes temas na nossa terra!

O diretor executivo do EUIPO, João Negrão, afirma que esta inscrição dos lenços de namorados do Minho evidencia "a riqueza e a diversidade cultural que o novo sistema europeu de indicações geográficas para produtos artesanais e industriais procura proteger".

E afirma ainda que se trata de "um símbolo importante da identidade portuguesa e da sua história, mas também de um exemplo de como as indicações geográficas podem ajudar a preservar o saber-fazer local, apoiar os artesãos e reforçar as economias em toda a Europa".

Os lenços de namorados do Minho fazem parte do primeiro grupo de produtos registados na União Europeia, a par com outros produtos solicitados pela Eslováquia, pela República Checa, pela Suécia, pela Eslovénia e pela França.

Na lista de produtos portugueses com processos de reconhecimento em curso estão bordados de Guimarães e das Caldas da Rainha, o fio de seda de Freixo de Espada à Cinta, a tecelagem de ponto alto da ilha de S. Jorge, os bonecos de Estremoz, a viola amarantina e a camisola poveira.

Informa o EUIPO que, durante os primeiros 6 meses de aplicação do novo regime, recebeu 74 pedidos de registo, o que reflete "o interesse contínuo e a crescente sensibilização dos produtores locais para a importância de combater a contrafação e a imitação".

JAF  

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Lenço dos namorados do Minho



O lenço dos namorados, também conhecido por lenço de pedido, lenço de conversados, lenço de comprometimento ou lenço de amor, é um lenço cuja origem é atribuída ao Minho, feito a partir de um pano de linho fino ou de lenço de algodão, bordado com motivos variados. É no entanto uma peça de artesanato e vestuário típica do Minho, com uma tradição local bastante marcada nas localidades de Vila Verde, Viana do Castelo, Guimarães e Amares, sendo tradicionalmente usado por mulheres vistas como tendo idade de casar.

Pensa-se que a origem dos lenços esteja ligada à nobreza portuguesa dos séculos XVII e XVIII, que se adornava de rendas e motivos bordados, que terão sido imitados pelas mulheres do povo, que criaram estes lenços. Os primeiros lenços deste tipo de que há testemunho datam de finais do século XIX.

Era hábito as raparigas bordarem lenços para entregar aos seus amados quando este se fosse ausentar - e que por vezes os rapazes mandavam bordar para oferecer às namoradas. O lenço servia tanto como prova de amor e compromisso, como instrumento de proteção. No entanto, existem também lenços em que a autora revela a disponibilidade do seu coração, e lenços de amor não correspondido. Nos lenços poderiam ter bordados versos, para além de vários desenhos, alguns padronizados, tendo simbologias próprias.

Era usado como ritual de conquista. Depois de confecionado, o lenço acabaria por chegar à posse do homem amado, que o passaria a usar em público - normalmente dobrado ao pescoço - como modo de mostrar que tinha dado início a uma relação. Se o namorado (também chamado de conversado) não usasse o lenço publicamente e o devolvesse, era sinal que tinha decidido não dar início a ligação amorosa.

Os lenços são habitualmente quadrados e bordados em linho ou algodão brancos, e variam em tamanho entre quinze e cinquenta centímetros de lado. São normalmente bordados de forma simétrica do centro para as pontas, e contêm inscrições (que incluem nomes, datas, frases e quadras), e elementos gráficos. Inicialmente usavam ponto-cruz, mas mais tarde outros tipos de ponto foram adicionados, como o ponto-espinha, o ponto cheio, o ponto pé-de-flor, o ponto nó, o ponto canutilho, o ponto em cadeia, o ponto de areia, o crivo, o ponto de recorte, ilhós. Os lenços mais antigos apresentam também um bordado mono ou bicromático, com a policromia atual desenvolvida mais tarde. Podem ainda apresentar bainhas abertas e picot.

Os motivos gráficos dos lenços estão normalmente ligados ao amor: casal de namorados, silva, chave, corações; à fidelidade: pombas, cães; ao casamento, através do uso de símbolos religiosos: cruzes, vasos, cibórios, custódias, candelabros. Para além destes, usam-se também motivos relacionados com a vida agrícola, com principal destaque para as vindimas: cestas, escadas, cântaros, barris, e também motivos alusivos à emigração: navios, pombas com cartas.

(Extraído da Wikipédia).

domingo, 24 de maio de 2026

Apresentação do n.º 39 da revista "Aldraba"


 








Na belíssima Sala Bento Martins, da Junta de Freguesia de Carnide, teve lugar em 22 de maio de 2026 a sessão de apresentação e lançamento do n.º 39 da revista "Aldraba".

A autarca Maria Vilar, com a também carnidense e nossa amiga Teresa Bispo, fizeram a apresentação calorosa do conteúdo da revista, acompanhada de forma interessada pelos 20 associados e amigos presentes.

JAF (fotos LFM)  



terça-feira, 19 de maio de 2026

Nomes de localidades em azulejos (cont.47)

 











Gota a gota, a intervalos de tempo cada vez mais dilatados, vão sendo descobertos novos exemplares das placas toponímicas que o Automóvel Club de Portugal colocou há cerca de 100 anos à entrada das localidades...

Desta vez, duas novas placas, velhinhas, ambas na sub-região Oeste, distrito de Lisboa, que foram fotografadas e enviadas à Aldraba (bem como uma terceira, que já reproduzimos no passado) pela nossa amiga Susana Rodrigues, incansável militante deste património, e que, ao longo dos 16 anos que levamos de post's alusivos, já nos forneceu 30 placas que publicámos, para além das muitas outras que ela forneceu ao blogue "Diário de Bordo" que também reproduzimos. Muito obrigado, querida Susana!

As duas placas de hoje são de:
- Cachimbos, localidade da freguesia de S. Quintino, concelho do Sobral de Monte Agraço; e
- Calçada, localidade da freguesia de Carnota, concelho de Alenquer.

Atingimos assim um total de 207 placas de azulejos divulgadas no nosso blogue, afetas a 181 diferentes localidades, situadas em 93 concelhos de todos os 18 distritos do continente português.

JAF

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Maria Vilar vai apresentar o n.º 39 da revista "Aldraba", dia 22.5.2026, 18h, em Carnide























A nossa amiga Maria Vilar, ilustre cidadã da freguesia de Carnide, em Lisboa, vai dar-nos o gosto de fazer a apresentação pública do número 39 da nossa revista "Aldraba" na próxima 6.ª feira, dia 22.5.2026, a partir das 18 horas, na sala Bento Martins da Junta de Freguesia de Carnide, em Lisboa.

A Maria Vilar é uma mulher incontornável daquela zona de Lisboa, que foi presidente da Junta de Freguesia de Carnide desde os anos 1980's, em sucessivos mandatos, ultimamente presidente da Assembleia de Freguesia, que se define a si própria como mulher dos afetos, incansável lutadora de todos os combates cívicos e sociais da população da freguesia, seja no centro histórico, sejam os bairros novos, sejam as zonas populares da Horta Nova e do Bairro Padre Cruz.

A sede da Junta de Freguesia fica no Largo da Luz, frente à Igreja, e é servida pelos transportes públicos da Carris das linhas de autocarro 703 (Charneca-BºStªCruz), 726 (Sapadores-Pontinha), 764 (Cid.Universitária-Damaia), 767 (Cpº Mártires da Pátria-Reboleira e 55B (Carnide-circ.). As estações de Metro mais próximas são a do Colégio Militar e de Carnide (linha azul).

O sumário do n.º 39 da "Aldraba", já divulgado, é o seguinte:

EDITORIAL

As alterações climáticas

José Alberto Franco

OPINIÃO

Entre memória, território e experiência

Sandra Oliveira

60 000 anos a sobrevoar o imaginário humano

Miguel de Lemos Peixoto

Um olhar sobre as migrações humanas (I Parte)

Myriam Jubilot de Carvalho

PATRIMÓNIO IMATERIAL

O legado de Albino Moura

Luís Filipe Maçarico

ASSOCIATIVISMO E PATRIMÓNIO

Associação Do Fundo à Superfície

Manuel Camacho

50 anos da Constituição da República Portuguesa

Laurinda Figueiras

SABORES COM HISTÓRIA

Licor Beirão: biografia de um sabor português

Maria de Lurdes Pereira

Gastronomia alentejana: tradição identitária com alguma instabilidade

Luís Filipe Maçarico

DESABAFOS

Foi a 25 de abril que tudo finalmente mudou!

Rosário Narciso

CRÍTICA DE LIVROS

Mais do que um livro, “é uma poética da paisagem”

Ana Isabel Veiga

ALDRABA EM MOVIMENTO

O impacto da Aldraba na comunidade

Luís Filipe Maçarico e José Alberto Franco

Novembro de 2025 a abril de 2026

José Alberto Franco

 

O tio Moreno – Valdanta - Chaves (6)

Rodrigo Dias     (Verso da contracapa)

Amor de Maio

Jorge Serra de Almeida   (Contracapa)


JAF


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A fisga











A fisga foi um objeto familiar para muitos jovens rapazes portugueses, há umas décadas atrás, em especial para os que viviam em áreas não-urbanas do país.

Era confecionada com materiais simples e sem custos pelos rapazes desembaraçados da nossa terra.

Como base um tronco de árvore bifurcado (escolhido com jeito e cortado entre os ramos de uma qualquer árvore), duas tiras de borracha para os elásticos laterais (obtidas, por exemplo, a partir de uma câmara de ar, já furada, de uma roda de bicicleta), e um pequeno pedaço de cabedal para servir de suporte às “munições” (pequenas pedras ou seixos).  

Horas e dias animados para a rapaziada pobre, que se divertia em provas de pontaria a objetos fixos, na caça às aves ligeiras, ou em outras malandrices mais ou menos censuráveis…

Uma calorosa recordação que nos foi trazida nos anos 1990’s por um grupo musical de duração efémera, que já evocámos aqui em agosto de 2025 num post relativo aos bilhetes postais dos CTT.

Trata-se do grupo que adotou o nome de Rio Grande, que reuniu seis notáveis artistas - o Rui Veloso, o Tim (dos Xutos e Pontapés), o João Gil (dos Trovante), o Jorge Palma, o Vitorino e o João Monge. Editaram em 1996 um álbum com o mesmo nome do grupo, e um segundo em 1998 com o nome de "Dia de Concerto".

Consta do primeiro desses álbuns uma bela peça, com letra do João Monge e música do João Gil, que hoje aqui reproduzimos:

A fisga

Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes

O meu pai diz que o sol é que nos faz
Minha mãe manda-me ler a lição
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
Faz-me falta ouvir outra opinião

Eu até nem sequer sou mau rapaz
Com maneiras até sou bem mandado
Mestre escola diga lá se for capaz
P’ra que lado é que me viro, p’ra que lado

“Rio Grande”, 1996

JAF


domingo, 3 de maio de 2026

Memória, território e experiência nas Linhas de Torres Vedras

 








Texto da técnica Sandra Oliveira, da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, publicado no número 39 da revista "Aldraba":

ENTRE MEMÓRIA, TERRITÓRIO E EXPERIÊNCIA

Centro de Interpretação das Linhas de Torres e Circuito do Alqueidão

No contexto da valorização do património histórico em Portugal, as Linhas de Torres têm vindo a afirmar-se como um exemplo relevante de articulação entre cultura, turismo e desenvolvimento territorial. Há territórios onde a história não se limita a ser evocada — é vivida, percorrida e reinterpretada. Em Sobral de Monte Agraço, essa relação entre passado e presente materializa-se de forma particularmente expressiva através do Centro de Interpretação das Linhas de Torres e do Circuito do Alqueidão, pela forma como têm contribuído para a dinamização cultural e turística do concelho.

As Linhas de Torres Vedras são, hoje, um dos mais notáveis exemplos de como o património histórico pode ser motor de cultura, turismo e desenvolvimento local. O maior sistema defensivo da Europa foi construído entre 1809 e 1810 no contexto das Invasões Francesas. Mais do que uma infraestrutura militar, representam um exercício de planeamento estratégico, engenharia e mobilização de recursos humanos sem precedentes em território nacional.

A sua eficácia ficou demonstrada ao travar o avanço das tropas napoleónicas, sem nunca serem testadas em combate direto: a sua “simples” existência, assente no conhecimento do território, foi suficiente para a dissuasão militar.

Mas a relevância das Linhas de Torres não se esgota na sua dimensão histórica. Elas constituem também um testemunho da vivência das populações locais, marcadas pela aplicação da política de “terra queimada”, que implicou o abandono de bens e territórios em nome de uma estratégia coletiva de resistência. É neste cruzamento entre história militar e história social que se constrói grande parte do seu significado contemporâneo.

É, contudo, na sua projeção contemporânea que este património adquire uma nova centralidade. As Linhas de Torres integram, hoje, um conjunto de redes e itinerários que se inscrevem nas políticas culturais europeias de valorização do património como fator de coesão, identidade e desenvolvimento. Inserem-se nos Itinerários Napoleónicos em Portugal e nas Rotas Napoleónicas por Espanha e Portugal, mas é sobretudo através do Itinerário Cultural Europeu Destination Napoleon que ganham enquadramento estratégico no contexto europeu.

Reconhecidos pelo Conselho da Europa, os Itinerários Culturais Europeus constituem instrumentos de política cultural que promovem uma leitura transnacional do património, valorizando temas comuns à história europeia e incentivando a cooperação entre territórios. Neste quadro, o património deixa de ser entendido apenas numa lógica local ou nacional, passando a integrar narrativas mais amplas, que cruzam fronteiras e promovem o diálogo intercultural.

Através da Rota Histórica das Linhas de Torres, este território integra ainda a Federação Europeia das Cidades Napoleónicas, que reúne cerca de 50 cidades europeias associadas à herança napoleónica. Esta integração não é apenas simbólica, traduz-se na participação em projetos de cooperação, na partilha de boas práticas e na construção de uma identidade europeia assente na memória comum. Ao mesmo tempo, contribui para posicionar territórios de menor escala, como o Sobral de Monte Agraço, em redes internacionais de relevância cultural e turística.

Neste contexto, o Centro de Interpretação das Linhas de Torres (CILT), localizado na Praça Dr. Eugénio Dias — cenário do combate ocorrido a 12 de outubro de 1810 —, assume-se como um espaço privilegiado para a leitura desse território multiescalar. Mais do que um equipamento expositivo, o CILT funciona como uma plataforma de mediação cultural, onde o visitante é convidado a compreender o território na sua complexidade histórica, social e paisagística, mas também na sua inserção em dinâmicas europeias.

É também uma porta de entrada para compreender o território como um todo.

Aqui, a história ganha vida através de recursos interativos, maquetes e conteúdos envolventes que ligam o passado ao presente. Mais do que conhecer factos, o visitante é convidado a descobrir histórias:

·        Porque não foi ocupada pelos franceses a Casa dos Condes de Sobral durante a sua permanência na vila?

·      O que está por detrás do nome “Rua das Casas Queimadas”, que ainda hoje é recordado pelos sobralenses?

·        O que aconteceu ao arquivo municipal anterior a 1810?

·        E, afinal, o que têm os scones a ver com o Sobral?

São estas pequenas curiosidades que tornam a experiência única e próxima, transformando o conhecimento em descoberta.

O CILT distingue-se ainda pela sua forte dimensão de mediação cultural. É um espaço pensado para todos — desde visitantes ocasionais a investigadores, passando por famílias e escolas —, promovendo uma relação ativa com o património e incentivando a sua apropriação pelas comunidades, contribuindo para a construção de uma relação contemporânea com o património, assente na participação, na reflexão e na partilha de conhecimento.

Esta experiência prolonga-se para além do espaço museológico, encontrando no território a sua expressão mais plena. Por isso, para compreender verdadeiramente a dimensão das Linhas e o papel do Sobral na Terceira Invasão Francesa, é preciso sair do edifício e entrar no território.

O Circuito do Alqueidão constitui, neste sentido, um exemplo paradigmático de como o património pode ser ativado através da fruição direta.

Localizado na serra do Olmeiro, o circuito integra quatro dos cinco fortes que compunham o Grande Reduto do Sobral, incluindo o Forte do Alqueidão, uma das estruturas mais relevantes de todo o sistema. Este forte desempenhou funções de comando tático, sob a liderança de Arthur Wellesley, figura central na estratégia militar aliada.

A cerca de 439 metros de altitude, o local oferece uma leitura privilegiada da paisagem e da lógica defensiva das Linhas. A amplitude visual — que abrange o rio Tejo, o Oceano Atlântico, as serras envolventes, a própria cidade de Lisboa e, em dias sem neblina, as Berlengas e o Palácio de Sintra — permite compreender, de forma quase intuitiva, a racionalidade territorial que sustentou este sistema.

O percurso pedestre que estrutura o circuito recupera, em parte, os antigos caminhos militares utilizados para o transporte de recursos e tropas. Ao longo do trajeto, o visitante cruza-se com vestígios materiais das fortificações, dispositivos interpretativos e elementos naturais que contribuem para uma experiência imersiva. Esta articulação entre património cultural e paisagem natural configura um modelo de fruição integrada, cada vez mais valorizado no contexto do turismo contemporâneo.

Para além da dimensão física, o Circuito do Alqueidão possui uma forte carga simbólica. A experiência de percorrer estes espaços implica um exercício de imaginação histórica, no qual se evocam os quotidianos dos soldados e das populações, as estratégias militares e as vivências associadas ao conflito.

E há detalhes que surpreendem: entre os aspetos mais curiosos associados às Linhas de Torres, destaca-se o elevado grau de secretismo que envolveu a sua construção, apesar de milhares de trabalhadores  e militares para aí terem sido mobilizados durante vários meses. A utilização de técnicas de camuflagem natural e a integração das estruturas na paisagem reforçavam essa invisibilidade estratégica. No caso do Forte do Alqueidão, a sua capacidade — cerca de 1600 homens e 27 peças de artilharia — evidencia a escala e a importância deste ponto no dispositivo defensivo.

São pormenores como estes que revelam a dimensão humana e estratégica deste património.

Na atualidade, o Centro de Interpretação e o Circuito do Alqueidão assumem um papel determinante na valorização e divulgação deste património, integrando uma estratégia mais ampla de desenvolvimento territorial promovida pela Rota Histórica das Linhas de Torres. Para além da função turística, estes equipamentos desempenham uma relevante missão educativa e cultural, alinhada com princípios contemporâneos de cidadania e sustentabilidade.

Mais do que visitar, trata-se de participar.

O CILT desenvolve um programa educativo dirigido às escolas que, a partir da história da guerra, promove valores de paz, pensamento crítico e reflexão sobre os desafios contemporâneos, em ligação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Para o público em geral, o programa Expor(A)lqueidão, entre maio e outubro, convida à descoberta mensal do território através de múltiplas perspetivas — ambiental, astronómica, desportiva ou de bem-estar.

Já o Dia Nacional das Linhas de Torres, assinalado a 20 de outubro, traz consigo um mês inteiro de celebração, incluindo a mostra gastronómica À Mesa dos Generais e diversas atividades para todos os públicos. E, em dezembro, o aniversário do CILT reforça a ligação entre comunidade e património, e quem nos visita pode ficar a par de todos os eventos subscrevendo a newsletter no site www.cilt.pt

Num tempo em que se procura valorizar o património como recurso para o desenvolvimento sustentável, estes exemplos mostram como é possível transformar memória em experiência, território em narrativa e história em futuro.

Porque, no Sobral, o passado não ficou para trás — continua a ser vivido, partilhado e reinventado.

Sandra Oliveira

quinta-feira, 30 de abril de 2026

21.º aniversário muito animado


 


O salão da Casa do Concelho de Alvaiázere ficou repleto com os 26 associados e alguns amigos da Aldraba, que acorreram em 29.4.2026 ao convívio, com o caráter de jantar informal, que assinalou os nossos 21 anos (que se completaram no passado dia da liberdade).

A confraternização de mais de 3 horas foi particularmente animada, com o reencontro de muitos companheiros de longa data, e com o conhecimento inicial de quem estava pela primeira vez... Partilharam-se experiências, sensibilidades e conhecimentos, tudo isto no enquadramento de amizade que a Aldraba proporciona há longos anos.

O jantar propriamente dito foi bastante agradável, com o inevitável chícharo - leguminosa seca que é símbolo de Alvaiázere - como entrada, numa bela salada com atum, a que se seguiu boa sopa de legumes, o prato principal de lombo assado com arroz, acompanhado de migas de chícharo, pudim e café.

No final do repasto, proferiram breves palavras o presidente da direção da Aldraba, José Alberto Franco, o amigo Madrugo da direção da Casa de Alvaiázere, o presidente da Assembleia Geral da Aldraba, Jorge Branco, o antigo presidente da Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa, Pedro Franco (que se fez associado da Aldraba), o presidente da Associação das Casas Regionais de Lisboa, Elísio Chaves. e a amiga Isabel Barata, da Catering dos Sabores, cuja equipa confecionou o saboroso jantar.

Longa vida à ALDRABA - Associação do Espaço e Património Popular!

JAF (fotos LPereira)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Alterações climáticas

 

Pré-publicação do editorial do n.º 39 da revista "Aldraba":

Alterações climáticas

Nos passados meses de janeiro e fevereiro, tempestades brutais varreram largas zonas do Centro de Portugal, deixando atrás de si um cortejo de devastação, desolação, sofrimento humano, algumas vítimas e muita destruição de casas, de infraestruturas e, até, de algum património cultural – como no edificado religioso (que obrigarão a um gigantesco esforço de reconstrução).

É inevitável que todos associemos estes factos, e outros que se vêm sucedendo pelo mundo fora, às chamadas alterações climáticas, entendidas como as variações dos padrões meteorológicos de longo prazo na Terra, como a temperatura, os níveis do mar e a precipitação de chuva, com causas (ou, pelo menos, fatores de aceleração) na atividade humana.

A associação Aldraba e a sua revista, atentas a tudo quanto afeta e preocupa as nossas populações, não podem deixar de dar aqui um pequeno contributo para a obrigatória reflexão coletiva a este respeito.

Alguns negacionistas continuam a tentar semear dúvidas e minorar os problemas. Absurdo! Como muito bem escreveu, recentemente, Adolfo Mesquita Nunes, “o consenso científico é robusto: as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e têm causas humanas identificáveis. Negar isto é negar décadas de dados empíricos, recolhidos e analisados por milhares de investigadores de todo o mundo, sujeitos a revisão por pares e a replicação independente”.

O aumento da temperatura média da Terra é um exemplo de alteração climática. A temperatura na Terra é regulada pelo chamado efeito de estufa: parte da radiação que o planeta recebe do Sol é refletida de volta para a atmosfera e, aí, é absorvida pelos “gases com efeito de estufa”, aquecendo a Terra. Isto veio intensificar mudanças nos padrões meteorológicos, como a precipitação, e a frequência e intensidade de fenómenos extremos, como secas, ondas de calor, inundações, cheias e furacões.

A queima de combustíveis fósseis como o petróleo, o carvão e o gás natural, junto com a agricultura, a pecuária e a desflorestação, emitem crescentemente para a atmosfera gases com efeito de estufa (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) e diminuem a extensão dos processos de remoção do carbono.

Em face desta constatação, todos os cidadãos conscientes e solidários que, como a Aldraba tem vindo a modestamente preconizar, se preocupam com o futuro, com a sustentabilidade das suas terras e com a felicidade das novas gerações, têm de adotar nas suas práticas individuais e coletivas comportamentos adequados.

Não é possível inverter as alterações climáticas, mas podemos, cada um de nós, contribuir para atenuar os seus efeitos, diminuindo a quantidade de emissões de dióxido de carbono libertadas para a atmosfera, com mudanças drásticas em setores como os transportes, a energia, a indústria, a habitação, a gestão dos resíduos e a agricultura, tornando a nossa sociedade mais resiliente, designadamente na utilização mais eficiente dos recursos hídricos escassos, na adaptação das práticas agrícolas e florestais e na garantia de que os edifícios e as infraestruturas serão capazes de resistir às condições climáticas e aos eventos extremos do futuro. 

Somos todos desafiados a mudar as nossas atitudes no dia-a-dia, como seja na redução da produção de resíduos, no evitar das deslocações em veículos motorizados, no dar prioridade às viagens em grupo em lugar das individuais, no uso dos transportes coletivos em vez do automóvel pessoal, etc..

No que se refere aos transportes coletivos, o economista Lino Fernandes alertava-nos há dias nas redes sociais, num tom otimista, que o efeito na substituição dos combustíveis fósseis pode ser mais rápido no caso português, porque os meios coletivos, no essencial, já estão eletrificados. A rede de comboios tem uma elevada taxa de eletrificação nas zonas metropolitanas e não só, e o transporte fluvial urbano também deu um grande salto na eletrificação, podendo ambos aumentar, rapidamente, o número de passageiros transportados.

É certo que os autocarros de passageiros têm, entre nós, uma taxa de eletrificação menor, mas temos produção nacional de veículos elétricos que pode ser aumentada.

Assim, que a nossa ação cívica, como seja, junto das autarquias e de outras entidades locais, se oriente pela reivindicação de investimentos que carecem de ser feitos na correção de infraestruturas e na maior produção de veículos limpos, e numa decidida transformação da oferta de serviços de transportes, satisfazendo, em termos de frequência e de cobertura dos dias da semana, as reais necessidades das populações.

No que se refere ao transporte de mercadorias, em que as viaturas rodoviárias pesadas queimam quase metade dos combustíveis líquidos consumidos, a aposta tem de ser decididamente na ferrovia para os percursos médios e longos, combinada com as viaturas elétricas ligeiras para a distribuição fina.

Como se vê, coloca-se à nossa frente um largo e exigente campo de intervenção, para todos os cidadãos que queiram efetivamente ser atores nas transformações obrigatórias a introduzir nas nossas sociedades doentes.

José Alberto Franco


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Jantar comemorativo dos 21 anos da associação Aldraba










No próximo dia 25 de abril de 2026, sábado, completam-se 21 anos sobre a Assembleia Geral constituinte que fundou a nossa Associação.

Nesse dia, além do grande desfile popular do 25 de abril pela Avenida da Liberdade, realizam-se muitas outras atividades comemorativas que tornariam difícil promovermos uma celebração autónoma da Aldraba.

Assim, optou-se por organizar um jantar comemorativo do nosso 21.º aniversário na quarta-feira seguinte, dia 29 de abril de 2026, a partir das 19 h, na Casa do Concelho de Alvaiázere (sita na rua Eça de Queirós, 13, em Lisboa, numa transversal da av. Duque de Loulé, próximo do Marquês do Pombal).

O menu do jantar incluirá entradas de azeitonas, queijo e pão, prato de lombo assado com migas de chícharo, vinho/água, sobremesa e café, ao preço único de 20€, com outras bebidas pagas à parte. 

Os interessados em participar neste jantar de aniversário devem manifestar-se até 3.ª feira, 28 de abril, junto de aldrabaassociacao@gmail.com, ou junto do Albano Ginja (albanoginja@gmail.com ou T.914773956) ou ainda do José Alberto Franco (jaffranco@gmail.com ou T.963708481).

JAF


domingo, 19 de abril de 2026

Para breve o n.º 39 da revista "Aldraba"











O número 39 da revista "Aldraba" está em composição na gráfica, e estima-se para breve a sua publicação e divulgação. 

Desde já se dá a conhecer o plano desta edição:


EDITORIAL

As alterações climáticas

José Alberto Franco

OPINIÃO

Entre memória, território e experiência

Sandra Oliveira

60 000 anos a sobrevoar o imaginário humano

Miguel de Lemos Peixoto

Um olhar sobre as migrações humanas (I Parte)

Myriam Jubilot de Carvalho

PATRIMÓNIO IMATERIAL

O legado de Albino Moura

Luís Filipe Maçarico

ASSOCIATIVISMO E PATRIMÓNIO

Associação Do Fundo à Superfície

Manuel Camacho

50 anos da Constituição da República Portuguesa

Laurinda Figueiras

SABORES COM HISTÓRIA

Licor Beirão: biografia de um sabor português

Maria de Lurdes Pereira

Gastronomia alentejana: tradição identitária com alguma instabilidade

Luís Filipe Maçarico

DESABAFOS

Foi a 25 de abril que tudo finalmente mudou!

Rosário Narciso

CRÍTICA DE LIVROS

Mais do que um livro, “é uma poética da paisagem”

Ana Isabel Veiga

ALDRABA EM MOVIMENTO

O impacto da Aldraba na comunidade

Luís Filipe Maçarico e José Alberto Franco

Novembro de 2025 a abril de 2026

José Alberto Franco

 

O tio Moreno – Valdanta - Chaves (6)

Rodrigo Dias     (Verso da contracapa)

Amor de Maio

Jorge Serra de Almeida   (Contracapa)


JAF