Pré-publicação do editorial do n.º 40 da revista "Aldraba":
Hoje, o editorial da nossa Aldraba tem um título: NÃO!
Nós, os da Aldraba, sentimos e fazemos um grande esforço em
contribuir para o esclarecimento e defesa do nosso património (material e
imaterial). Somos gente que valoriza as pequenas coisas, mas também por isso
não deixamos de levantar a voz, de soltar um grito de protesto perante tanta
agressão que vai acontecendo, mas tão silenciada pelos poderes que, por vezes
quando damos conta, estamos perante um aterro a céu aberto, uma perfuração num
penedo da serra ou qualquer outra malfeitoria que nos amargura e entristece!
Assim sendo, e como estou entre amigos, permitam-me este momento
de reflexão e também de revolta face a acontecimentos tão feios e que, para
muitos, infelizmente, serão “virtuais”!...
E começo com um exemplo/consequência das intempéries que
aconteceram no início do ano. A devastação havida nas áreas florestais (como no
Pinhal de Leiria), com milhares de árvores derrubadas e que por isso deixaram
de fazer barreira ao vento, ali ficaram, caídas, transformadas num volume
enorme de perfeito combustível para incêndios. Nada foi feito para prevenir uma
tragédia e ela aconteceu! Vieram os incêndios que trouxeram destruição e morte!
Outra razão para a zanga que sinto é a situação que vivemos numa
área importante do Parque Natural da Arrábida, mas com silêncios tão cúmplices
que nos indignam! Existe da parte dos proprietários da Herdade da Comenda a
tentativa de se apropriarem dos estreitos caminhos para as praias que
atravessam os empreendimentos e terrenos privados, impedindo assim o cidadão
anónimo de desfrutar do areal! O acesso às praias e caminhos públicos desde
sempre foi democraticamente utilizado por todos, constitui um direito colectivo!
Outro exemplo da minha revolta e contestação é o projecto “Royal
China Clay”, na Serra d’El Rei. É uma proposta para a criação de uma exploração
mineira, a céu aberto, para extracção de caulino e argilas, numa área de mais
de cinquenta hectares! Em consulta pública, mereceu pareceres desfavoráveis das
Câmaras de Peniche e Óbidos e forte contestação das populações.
Outro exemplo: no Entroncamento, a população contesta a instalação
de uma unidade industrial de biometano, próximo de áreas residenciais!
Infelizmente, poderia falar-vos de muitas outras situações, mas
estes casos concretos já nos dão uma ideia de quão grave é o atentado ao
ambiente, à qualidade de vida de todos nós!
Grupos económicos apresentam dezenas de projectos que visam a
construção de centrais de energia renovável ou de exploração mineral, muitos em
terrenos agrícolas ou até em áreas protegidas.
Pretende-se a simplificação dos licenciamentos ambientais, da
agricultura e do mar. Nessa reestruturação, serão os negócios a determinar a
política de ordenamento do território!
E nós, cheios de razão, dizemos, gritamos: NÃO!
Tenho presente, com muita tristeza, a recordação da minha recente
viagem ao Alentejo! Campos e campos, terra imensa, cheia de amendoeiras e
oliveiras, tudo alinhado, direitinho, eram riscas no horizonte! Culturas intensivas,
lucros para o capital, maioritariamente estrangeiro.
E pensava: para onde foram as velhas oliveiras, os campos de
cereais, as papoilas vermelhas, tão vermelhas, cor de sangue, cor de esperança!
Onde estão?
E peço ajuda ao poeta e canto:
“Levanta-te, meu povo, não é tarde/ Agora é que o mar canta e o
sol arde/ Pois quando o povo acorda é sempre cedo.”
Maria Odete Roque
