quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Não!


Pré-publicação do editorial do n.º 40 da revista "Aldraba":

Hoje, o editorial da nossa Aldraba tem um título: NÃO!

Nós, os da Aldraba, sentimos e fazemos um grande esforço em contribuir para o esclarecimento e defesa do nosso património (material e imaterial). Somos gente que valoriza as pequenas coisas, mas também por isso não deixamos de levantar a voz, de soltar um grito de protesto perante tanta agressão que vai acontecendo, mas tão silenciada pelos poderes que, por vezes quando damos conta, estamos perante um aterro a céu aberto, uma perfuração num penedo da serra ou qualquer outra malfeitoria que nos amargura e entristece!

Assim sendo, e como estou entre amigos, permitam-me este momento de reflexão e também de revolta face a acontecimentos tão feios e que, para muitos, infelizmente, serão “virtuais”!...

E começo com um exemplo/consequência das intempéries que aconteceram no início do ano. A devastação havida nas áreas florestais (como no Pinhal de Leiria), com milhares de árvores derrubadas e que por isso deixaram de fazer barreira ao vento, ali ficaram, caídas, transformadas num volume enorme de perfeito combustível para incêndios. Nada foi feito para prevenir uma tragédia e ela aconteceu! Vieram os incêndios que trouxeram destruição e morte!

Outra razão para a zanga que sinto é a situação que vivemos numa área importante do Parque Natural da Arrábida, mas com silêncios tão cúmplices que nos indignam! Existe da parte dos proprietários da Herdade da Comenda a tentativa de se apropriarem dos estreitos caminhos para as praias que atravessam os empreendimentos e terrenos privados, impedindo assim o cidadão anónimo de desfrutar do areal! O acesso às praias e caminhos públicos desde sempre foi democraticamente utilizado por todos, constitui um direito colectivo!

Outro exemplo da minha revolta e contestação é o projecto “Royal China Clay”, na Serra d’El Rei. É uma proposta para a criação de uma exploração mineira, a céu aberto, para extracção de caulino e argilas, numa área de mais de cinquenta hectares! Em consulta pública, mereceu pareceres desfavoráveis das Câmaras de Peniche e Óbidos e forte contestação das populações.

Outro exemplo: no Entroncamento, a população contesta a instalação de uma unidade industrial de biometano, próximo de áreas residenciais!

Infelizmente, poderia falar-vos de muitas outras situações, mas estes casos concretos já nos dão uma ideia de quão grave é o atentado ao ambiente, à qualidade de vida de todos nós!

Grupos económicos apresentam dezenas de projectos que visam a construção de centrais de energia renovável ou de exploração mineral, muitos em terrenos agrícolas ou até em áreas protegidas.

Pretende-se a simplificação dos licenciamentos ambientais, da agricultura e do mar. Nessa reestruturação, serão os negócios a determinar a política de ordenamento do território!

E nós, cheios de razão, dizemos, gritamos: NÃO!

Tenho presente, com muita tristeza, a recordação da minha recente viagem ao Alentejo! Campos e campos, terra imensa, cheia de amendoeiras e oliveiras, tudo alinhado, direitinho, eram riscas no horizonte! Culturas intensivas, lucros para o capital, maioritariamente estrangeiro.

E pensava: para onde foram as velhas oliveiras, os campos de cereais, as papoilas vermelhas, tão vermelhas, cor de sangue, cor de esperança! Onde estão?

E peço ajuda ao poeta e canto:

“Levanta-te, meu povo, não é tarde/ Agora é que o mar canta e o sol arde/ Pois quando o povo acorda é sempre cedo.”

Maria Odete Roque