Com a devida vénia, voltamos a divulgar um belo texto de memórias da nossa amiga Natércia Duarte, de Castro Verde, neste caso publicitado ontem na sua página de facebook:
A lua cheia traz-me sempre a lembrança do céu estrelado das noites de férias em casa da minha avó.
Não havia céu mais belo do que aquele. Assim que o sol desaparecia, as ruas da aldeia pintavam-se de negro e as pessoas sacudiam as trevas das casas com candeeiros a petróleo que criavam fantasmas bamboleantes em todas as paredes de cal - pequenas luzes, que não ofuscavam o impacto das estrelas e da lua no lago profundo da noite.
Depois do jantar íamos para a rua e ficávamos a apanhar o fresco, como sempre dizia a avó. Eu deitava-me na terra ainda morna, pousava a cabeça no travesseiro de xisto negro da soleira da porta de entrada e olhava, fascinada, aquele céu negro enfeitado de inúmeras estrelas.
- Há uma coisa escura no meio da lua. O que é, avó?
- É um velho carregado com um feixe de lenha às costas. Estás a ver? – perguntava ela, de dedo esticado em direção à lua. - Vai curvado com o peso da lenha. Diz-lhe adeus.
Acenei-lhe, tentando desvendar o seu rosto, descobrir os braços voltados para trás para abraçar a lenha, a curvatura das suas costas, o desenho deixado na lua pelo arrastar dos seus pés cansados... Não consegui, mas acreditei.
A avó conhecia todas as ervas e flores do campo, todas as pessoas dos montes vizinhos, todos os caminhos de terra, mesmo aqueles quase apagados pelo nascer das estevas. Também conhecia todas as mezinhas para as dores e febres, para as tosses e catarros, as benzeduras para o mau-olhado, para o golpe de sol e para o nervo torcido…
A avó sabia tudo, até sabia de cor o segredo da terra e do pão. Por isso, no meu entender, não era de admirar que também conhecesse aquele habitante lunar.
E então, com esta certeza, transformada em gato enamorado, comecei a esperar as primeiras sombras da noite para acenar à lua. Era tão bom imaginar que o velho, ao ver-me olhar para ele, soltava o feixe de lenha por um instante, endireitava as costas, sorria e levantava uma das mãos para me dizer adeus.
Natércia Duarte, 17/2/2026

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