terça-feira, 22 de agosto de 2023

"Nossa Senhora do Ó" - De onde virá este nome?













No já distante ano de 2009, escrevia na edição do “Público” de 16 de agosto o cronista Miguel Esteves Cardoso:

“Começa o meio de Agosto e são as festas em toda a parte. De Senhoras nossas. Da Agonia, da Assunção, do Desespero, da Angústia, da Depressão, das Dores, de todos os castigos imagináveis que possam ajudar a disfarçar o prazer que dão.”

14 anos depois, mantém-se plenamente e de forma alargada esta tradição das festas populares em honra da “Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo”, a qual é referida – consoante os locais e regiões do país onde se realiza cada festa – como “Nossa Senhora d. …”, ou seja, através de uma “invocação”.

Recentemente, alguém me manifestou a sua estranheza pelo significado da invocação “Nossa Senhora do Ó”, por não alcançar o sentido da expressão.

Neste mesmo nosso blogue, num post de 24.8.2009, a saudosa Maria Eugénia Gomes referiu-se à comemoração da Senhora do Ó, realizada na sua terra, o Sobral da Adiça (concelho de Moura, distrito de Beja), comentando ser um culto espalhado um pouco por todo o país e que em todos os locais está associado à gravidez e à boa hora de parto. No tempo em que a maior parte das crianças nasciam em casa, era costume no Sobral da Adiça que a sua primeira saída fosse visitar a Nossa Senhora do Ó, na intenção de que ela lhe garantisse proteção, saúde e sorte…

Em Portugal, o culto à Senhora do Ó ter-se-á iniciado em Torres Novas a partir de 1212, existem imagens suas em dezenas de igrejas e capelas, e ela é mesmo a padroeira de dezasseis freguesias portuguesas: Aguim (Aveiro), Ançã, Barcouço, Cadima, Paião e Reveles (Coimbra), Alcanadas (Leiria), Carvoeira e Vilar (Lisboa), Águas Santas, Covelo, Duas Igrejas, Gulpilhares e Vilar (Porto), Olaia (Santarém) e Lordelo (Viana do Castelo).

A configuração das imagens com que o nosso povo representa a Senhora do Ó dá à imagem uma incontornável forma rotunda de mulher grávida, daí o “Ó”…

Os teólogos católicos, pressurosos em menorizar estas concretizações, supostamente menos “dignas”, dão outras explicações para o “Ó”, ligadas a um ritual, as “antífonas”, sete orações em que a mãe de Jesus Cristo, na oração da tarde, contempla em cada dia um aspeto do Senhor que vem, nas suas prefigurações no Antigo Testamento, como um longo e profundo caminho para a chegada do profeta. As antífonas do Magnificat são um grito que começa sempre com um “Ó”, que será respondido pelo Senhor. Estas antífonas teriam dado origem à “devoção à Nossa Senhora do Ó, ou a Virgem da expectação, Maria grávida que prepara o nascimento do Verbo, seu filho”.

Em minha opinião, são secundárias estas especulações doutrinárias.

O que interessa, do ponto de vista cultural, são as atitudes com que o povo enfrenta as adversidades, os sofrimentos, e procura exorcizá-los com a evocação, e a representação gráfica ou plástica, de uma “Senhora” que chamaria a si todos esses elementos negativos, para os eliminar ou, pelo menos, para os suavizar…

Sabedoria secular para protestar – embora de forma impotente…– contra a opressão!

JAF (apoiado num post de 8.9.2009)

 

Em anexo, uma pequena lista, necessariamente incompleta, de invocações de Nossa Senhora, veneradas em alguns pontos do mundo de expressão portuguesa:

Nossa Senhora da AbundânciaNossa Senhora das AngústiasNossa Senhora dos AnjosNossa Senhora AparecidaNossa Senhora da Apresentação; Nossa Senhora da Assunção; Nossa Senhora AuxiliadoraNossa Senhora da Boa MorteNossa Senhora da Boa ViagemNossa Senhora do Bom Conselho; Nossa Senhora de Brotas; Nossa Senhora do Carmo; Nossa Senhora da ConceiçãoNossa Senhora Desatadora dos NósNossa Senhora Divina PastoraNossa Senhora das DoresNossa Senhora da EncarnaçãoNossa Senhora de FátimaNossa Senhora de GuadalupeNossa Senhora da GuiaImaculado Coração de MariaNossa Senhora das LágrimasNossa Senhora da LapaNossa Senhora da LuzNossa Senhora da Medalha MilagrosaNossa Senhora MedianeiraNossa Senhora dos NavegantesNossa Senhora de Nazaré; Nossa Senhora das Necessidades; Nossa Senhora das NevesNossa Senhora do ÓNossa Senhora da OliveiraNossa Senhora da PenaNossa Senhora da Penha de FrançaNossa Senhora do Perpétuo SocorroNossa Senhora da PiedadeNossa Senhora do PrantoNossa Senhora da PurificaçãoNossa Senhora RainhaNossa Senhora do RosárioNossa Senhora da SaúdeNossa Senhora das Sete DoresNossa Senhora da SoledadeNossa Senhora da Vitória.


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

A Aldraba interveio no PAN de Vilarelhos - Alfândega da Fé, 31.7.2023















No PAN de Vilarelhos (edição portuguesa de 2023 do PAN - Encontro e Festival Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural), houve um painel de apresentações de associações. A Aldraba exibiu um power point intitulado "O Impacto das Actividades da Aldraba na Comunidade", com imagens recolhidas por Marta Barata e apresentação minha.

Na primeira fotografia, Luís Filipe Maçarico, ladeado de Manuel Ambrosio Sánchez e António Sá Gué, da organização do Encontro.

LFM (fotos de Cristina Pombinho)




 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

O acervo documental da Aldraba (27): Pesca

 










Textos publicados sobre este tema na revista ALDRABA que, como acontece com os temas tratados nos 26 post’s anteriores desta série, estão disponíveis por cópia a quem o solicitar através do endereço aldraba@gmail.com:

  

PESCA

Cristina Borges, “O mar como património”, nº 4 (Dez.2007), p.7

Fernando Chagas Duarte, “Bacalhau, património português”, nº 3 (Jun.2007), p.15

Fernando Chagas Duarte, “Sem sardinha não há conserva – contributo histórico para a compreensão da indústria de conservas de peixe em Portugal”, nº 27 (Abr.2020), p.2

Glória Montes, “A lota de Lagos”, nº 9 (Out.2010), p.5

José do Carmo Francisco, “A cultura dos avieiros candidata a património nacional”, nº 8 (Dez.2009), p.16

Luís Filipe Maçarico, “Arte xávega: um património secular”, n.º 28 (Out.2020), p.22


JAF

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Humana falência


 

Na edição de hoje do "Expresso", a cronista Clara Ferreira Alves refere-se de modo expressivo à devastação de muitas realidades nacionais que tem visitado, designadamente no domínio patrimonial, fruto da desestruturação das respetivas sociedades.

Saibamos nós, em Portugal, resistir a este processo transversal.

Humana falência

Por vezes, visitamos um país em apuros e somos levados por uns locais cheios de nostalgia a ver as glórias do passado, projetos de arquitetura com a monumentalidade incompleta, do tempo em que havia dinheiro e ambição. Uma certa independência que viria a ser mal administrada, descambando numa sujeição ao estrangeiro que atrai o nacionalismo destrambelhado.

Aconteceu-me na Venezuela, no Egito, na Argentina, no Iraque, noutros lugares, antes dos golpes e das crises, das bancarrotas e das intervenções financeiras, antes das guerras e das invasões, dos feridos e dos mortos, antes das disputas religiosas e tribais, antes dos fundamentalismos e dos desvios extremistas da geoestratégia e da política local que conduziram a uma mentalidade de barricada com corrupção desenfreada e à construção de plutocracias ou de oligarquias civis e militares.

Que oscilam entre esquerdas e direitas com a velocidade de uma porta giratória sem travão. Países arruinados no período pós-colonial, com a cumplicidade própria e a ganância epicurista dos que sabem que não são donos do seu destino e podem ser comprados. Naipaul escreveu sobre este mundo.

Uma universidade que não chegou a ser ou ainda é, mas onde as paredes perderam a cor e se desfazem ao tato, um bairro social inacabado rodeado de barracas, um centro comercial deserto, um monumento meio reabilitado, um templo que sugou o dinheiro e faz justiça ao mau gosto, um museu com nichos vazios e obras-primas empilhadas e cobertas de poeira, sem vigilância nem inventário, uma estátua coberta de graffiti numa praça que assistiu a cenas de violência, murais gigantescos com heróis desbotados e esburacados pelas balas.

É um espetáculo de humana falência, e pensamos que tudo aquilo se passou num tempo curto, umas décadas de maus governos e de maus atores. Uma vez instalada a decadência torna-se quase impossível invertê-la. Os candidatos da mudança começam a ser piores que os anteriores, criados num ninho de falsas equivalências e pelejas territoriais que geram os homens sem qualidades.

Clara Ferreira Alves, in “Expresso”, 7/7/2023

  

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Luís Maçarico apresenta o n.º 33 da revista "Aldraba" na Casa do Alentejo


 






Na próxima 5.ª feira, dia 29.6.2023, pelas 18 horas, o poeta e antropólogo Luís Filipe Maçarico (que é também dirigente da associação Aldraba) vai apresentar na biblioteca da Casa do Alentejo, na Rua das Portas de Santo Antão, 58, em Lisboa, o n.º 33 da nossa revista, que está já impressa e disponível há várias semanas.

Desafiamos todos os associados e amigos da Aldraba a aparecerem e a participarem na discussão dos diversificados temas patrimoniais tratados neste número da revista.

E tragam outros amigos também!

JAF

domingo, 18 de junho de 2023

Nomes de localidades em azulejos (cont. 40)





Já há um ano e meio que não se encontravam novos exemplares dos icónicos azulejos identificativos das localidades que o Automóvel Clube de Portugal instalou nos inícios da década de 1920 pelo país fora.

A nossa amiga Susana Rodrigues, a quem agradecemos calorosamente, acaba de encontrar dois exemplares na localidade de Dagorda, do concelho de Peniche, distrito de Leiria.

Com esta publicação, chegámos às 173 placas de azulejos divulgadas, dos 18 distritos de Portugal continental!

JAF

sábado, 10 de junho de 2023

Parabéns à Casa do Alentejo no dia do seu 100.º aniversário









A Casa do Alentejo em Lisboa, verdadeira embaixada dos alentejanos na capital, e "casa da fraternidade" - como tem sido justamente apelidada, comemora hoje 100 anos da sua fundação em 10 de junho de 1923.

Recordamos o post "Início das comemorações do centenário da Casa do Alentejo" que aqui publicámos em 27 de janeiro último, e que fez um registo desenvolvido da importância desta grande coletividade regionalista.

A ALDRABA, que tanto deve à cooperação com a Casa do Alentejo, quer deixar aqui um abraço fraterno de felicitações e os nossos melhores votos de um futuro profícuo para o seu trabalho.

Viva a Casa do Alentejo!

JAF