terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Nomes de localidades em azulejos (cont. 22)



 

Mais 7 novas placas toponímicas de azulejos, instaladas pelo ACP à entrada de localidades portuguesas, já lá vão quase cem anos.

Fomos encontrar mais uma placa da cidade de Évora, situada nas muralhas, e que se acrescenta às outras duas diferentes que em tempos aqui divulgámos.

O blogue “Diário de Bordo” publicou recentemente, e aqui as reproduzimos, placas de Abuxarda, Aldeia do Juzo e Carcavelos, todas do concelho de Cascais, e de Almoçageme, no concelho de Sintra (distrito de Lisboa), e ainda de Arraiolos e Estremoz (concelhos do mesmo nome, e ambas do distrito de Évora). Todas estas 6 placas foram fotografadas por Pedro Figueira, sendo que as de Almoçageme, Arraiolos e Estremoz correspondem a novas localizações de outras tantas que a Aldraba recolheu e publicou no passado.

Com estas placas que hoje publicamos, a nossa coleção atinge um total de 137 placas diferentes, de 121 localidades, em 13 distritos.

JAF (texto e foto de Évora)



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Imagens do jantar-tertúlia na Casa de Angola


Os convivas registados nas fotografias, mais o Luís Maçarico, que recolheu as fotos, mais o associado Augusto Teixeira e o dirigente local Zeferino Boal, que chegaram um pouco mais tarde, tiveram todos um animado convívio, degustaram a moamba e outras iguarias angolanas, e partilharam informações e experiências sobre a Casa de Angola.

A ALDRABA foi convidada a voltar e a realizar atividades naquele espaço, o que certamente não deixará de acontecer!

sábado, 13 de dezembro de 2014

18º Jantar-tertúlia na Casa de Angola, no próximo dia 19.12.2014, 6ª feira

Continuando a prática dos últimos 6 anos, de promover no período das festas natalícias um jantar de convívio entre os nossos associados e amigos, vamos neste ano de 2014 – no dia 19 de dezembro, 6ª feira, pelas 20 horas – realizar um jantar-tertúlia na Casa de Angola em Lisboa.

O nosso conceito de regiões portuguesas e lusófonas compreende as várias regiões do Continente português, as duas regiões insulares autónomas, as regiões da Galiza, de Goa e de Macau integradas noutros países, e os demais sete países independentes de língua oficial portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste).

Depois de a ALDRABA ter já promovido atividades em muitas casas regionais do Continente, e nas casas de Goa e da Galiza, iniciamos agora a interação com as representações em Lisboa dos países lusófonos, com este jantar-tertúlia na Casa de Angola.

Seremos acolhidos e acompanhados pelo seu Vice-Presidente da Direção Zeferino Bual, o qual, numa estimulante mensagem, nos agradeceu o convite para partilhar connosco o momento de confraternização, e comentou ter lido com atenção o nosso manifesto, o qual contém “uma ideia muito relevante”.
A Casa de Angola fica situada na Travessa da Fábrica da Seda, 7, próximo do Largo do Rato e da Rua de Artilharia Um.
O jantar-tertúlia terá um menu completo, ao preço único de 15 euros, constituído por entradas, prato principal de moamba de galinha (complementado por outros pratos angolanos, à escolha), vinhos e refrigerantes, sobremesa e café.
Todos os associados e amigos da ALDRABA são desafiados a inscrever-se, pelo telefone 963708481, ou pelo e-mail jaffranco@gmail.com, até ao próximo dia 18 de dezembro, 5ª feira.

JAF


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Lançamento do nº16 da ALDRABA no próximo sábado

Como vínhamos anunciando, é no próximo sábado, 29.11.2014, que terá lugar o lançamento público do nº 16 da revista ALDRABA.

A sessão vai ter lugar na sede da Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa, a partir das 18 horas. A ACCL fica na Rua Saraiva de Carvalho, 8/2º Esqº, junto à Igreja de Sta. Isabel. A apresentação da revista será feita pelo antropólogo Augusto Flor, presidente da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto.

Todos os associados e amigos da Aldraba são convidados a comparecer de forma interessada e crítica. Os que puderem, são também desafiados a participar num jantar de confraternização em restaurante das redondezas.

JAF



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Salvé o dia 20.11.2004!

Em 20 de novembro de 2004, um punhado de cidadãos e cidadãs reuniu-se em Montemor-o-Novo para começar a dar corpo ao projeto cívico e cultural, generoso e inovador, de que nasceu a Associação ALDRABA.

No dia em que se perfazem exatamente 10 anos sobre esse impulso fundador, não podemos deixar de o assinalar aqui, e de recordar com afeto os companheiros e amigos presentes.

Bem hajam, e longa vida à ALDRABA!

JAF

sábado, 15 de novembro de 2014

Toponímia de Lisboa, essa nossa familiar















Pré-publicação do artigo do nosso amigo Appio Sottomayor, que vai sair no nº 16 da revista ALDRABA, cuja apresentação pública terá lugar no próximo dia 29 de novembro:

Comecemos por uma verdade que La Palisse não desdenharia: todos os dias lidamos com a toponímia, sem nos preocuparmos muito com o seu conteúdo e o seu significado. Na verdade, a situação mais vulgar é que cada um de nós viva numa casa que ostenta um número dito “de polícia” e se situa num arruamento com um determinado nome. No entanto, sejamos francos, não serão muitas as vezes em que paramos para pensar sobre as razões pelas quais aquela rua se chama assim e a outra aonde nos dirigimos tem outra designação. E afinal, sobretudo quem habite numa grande cidade viverá rodeado de indicações toponímicas.

Sendo pois uma realidade que nos cerca, não é fácil, contudo, caracterizá-la através de uma concepção rígida de origens. Modernamente, a prática mais habitual é consagrar nas ruas nomes de pessoas, em jeito de homenagem. Mas os critérios têm sido os mais variados, ao longo dos tempos. Não é possível também fixar uma época, apontando-a como sendo a dos primórdios da toponímia. Desde a mais remota antiguidade, o ser humano terá tido necessidade de se referir a determinados locais e de os qualificar, para deles poder dar testemunho a outras pessoas e para se orientar.

Reportemo-nos a Lisboa. Uma das primeiras tendências terá sido a de fixar nomes através de quaisquer características geográficas. E o certo é que muitas dessas designações primitivas acabaram por se perpetuar. Por exemplo: continuamos a chamar “Lapa” a um bairro que foi assim baptizado por causa de uma enorme pedra que dominava os terrenos em roda.

Como falamos da Penha ou da Achada, sem cuidar muito de pensar que nos referimos a uma elevação ou a uma pequena planície a meia encosta... Ou como, lembrando cursos de água ou nascentes, continuamos a usar topónimos como Águas Boas, Rego, Ribeira, Arroios, Rio Seco, Sete Rios, Poço do Chão, Poço do Bispo, Poço da Cidade...
Também a existência predominante de certo tipo de plantas ou de culturas serviu longamente para identificar lugares. Onde predominava a giesta nasceu o Giestal, onde havia um campo de juncos a Junqueira... Os olivais e oliveiras cobriam boa parte do que é hoje a cidade, pelo que os seus nomes aparecem na populosa freguesia na parte oriental da cidade, mas também nos Prazeres, na Graça, em Carnide, ou até num larguinho que fica a meio da Calçada da Glória. Mesmo os terrenos onde a vegetação não seria muito abundante deram azo a topónimos, como a Charneca ou a Horta Seca.

Até a existência de certas particularidades do terreno podia servir de causa de topónimos – as Pedras Negras, as Furnas, a Boa Vista, a Bela Vista... O mesmo se diga da existência de um mineral – o Salitre... Ou de locais de trabalho que iam aparecendo e dando brado – os Moinhos, o Forno, os Lagares, as Olarias...

O facto de algumas personalidades consideradas de maior destaque irem residir em determinado local foi também causa do aparecimento de alguns topónimos, sem que fosse então necessário especificar a quem se referiam. Temos, por exemplo, a Calçada do Duque, a Rua do Prior ou a Rua do Cura. No primeiro caso, foi relativamente fácil concluir que se tratava do Duque de Cadaval, cujo palácio ficava junto do Rossio e cujas terras se estendiam pela encosta. Mas, quanto ao cura e ao prior, seriam por certo eclesiásticos muito importantes em certa época – tanto que nem houve necessidade de se dizer de quem se tratava.

A existência de múltiplas igrejas, capelas e conventos serviu também de óbvia razão para criar topónimos. Hoje, para explicar muitos deles, tem de se recorrer à História. Só assim se perceberá porque há uma rua de S. Pedro ou um largo de S. Rafael em Alfama: lembram ambos antigas igrejas que entretanto desapareceram. O mesmo se diga dos Brunos, dos Barbadinhos, das Francesinhas, das Trinas e de mais alguns, que lembram antigos conventos que existiam naqueles locais.

ATÉ AS ALCUNHAS E OS CONSTRUTORES

A imaginação ou o sentido prático não tinham limites apertados. Daí que até algumas alcunhas ou mesmo defeitos físicos de moradores em certo arruamento acabarem por lhe dar o nome. Assim, existiu há muito na Ajuda uma loja de ferro-velho. O povo chamava-lhe o ferrugento. Como o proprietário morresse e ficasse a viúva a gerir, a Ferrugenta ganhou foros de personalidade e ainda hoje lá existem a travessa e o beco da Ferrugenta. Quanto a defeitos físicos, lembremos apenas o Pé de Ferro ou o Braço de Prata, casos em que as próteses usadas deram origem a topónimos.

Em tempos da reconstrução de Lisboa após o terramoto, surgiu também a consagração de algumas actividades e profissões em ruas da cidade, geralmente naquelas onde eles se agrupavam. O hábito ficou e chegou até à Primeira República. O próprio Marquês de Pombal fez o seu agradecimento aos comerciantes, chamando Praça do Comércio ao velho Terreiro do Paço. Mas lá foram surgindo, nas esquinas das ruas, placas que consagravam os Sapateiros, os Fanqueiros, os Douradores, os Bacalhoeiros, os Correeiros...

Não deixa de ser curiosa e digna de realce uma forma de toponímia com que talvez quase ninguém contasse – a não ser os próprios interessados. Foi o caso de alguns construtores civis que, tendo edificado bairros maiores ou menores, fizeram questão de ficar perpetuados nas ruas onde tinham trabalhado. E conseguiram. O mais conhecido será o Senhor Andrade.

Encarregou-se ele de dirigir a construção de boa parte do bairro dos Anjos. E não hesitou em dar a algumas ruas os nomes de familiares e o dele próprio. Temos assim a Rua Andrade, a Rua Maria Andrade, a Rua Palmira... Outro, o senhor Lopes, que andou azafamado na zona do Alto de S. João, lá tem a sua Rua Lopes e o pequeno Bairro Lopes. Também o senhor Santos, construtor de prédios no Rego, teve a habilidade de fazer com que se passasse a chamar ao local o Bairro Santos – o que, diga-se num parêntese, dá por vezes lugar a confusões, já que alguns lhe chamam “bairro de Santos”, o que poderá levar a pensar na Madragoa...

O PODER MARCA POSIÇÃO

No entanto, este uso, essencialmente popular e espontâneo, de dar nomes às ruas de Lisboa começou a sofrer alterações logo após o terramoto de 1755. A autoridade decidiu intervir na toponímia e, embora mantendo e respeitando muitas designações tradicionais, não se dispensou de publicar um decreto em 5 de Novembro de 1760, que veio dar nome a 14 ruas da Baixa, recém-reconstruída.

Parece que o Poder tomou o gosto à prática de regular os nomes das artérias da cidade. A seguir ao referido decreto, não se registaram alterações notáveis. Mas logo no início do século XIX apareceram as primeiras normas, tentando regularizar nomes e locais, sobretudo para uso dos ainda incipientes Correios. Em 1836, o Governo Civil de Lisboa publicou diplomas sobre a atribuição de topónimos, que lhe ficava reservada. Em 1859, o mesmo Governo Civil reafirmou a sua autoridade na matéria, dando-se como única entidade competente para dar nomes às ruas ou modificá-los.

Com a entrada em vigor do Código Administrativo, em 1878, as coisas mudaram. A competência da atribuição de topónimos passou a ser da Câmara Municipal, prática que se mantém até hoje. Tal não impede que, às vezes (raras, diga-se) sejam outras entidades a “baptizar” as ruas, sem darem prévio conhecimento à edilidade. O exemplo mais evidente será o da Expo-98, durante a qual se deram nomes a arruamentos onde se registaram desde duplicações (caso de Fernando Pessoa) até designações um tanto insólitas (Sandokan e outros).

MUDANÇAS

A prática de dar às ruas nomes de pessoas generalizou-se entretanto, sobretudo desde a I República. As razões são fáceis de perceber: tudo quanto evocasse ou fizesse lembrar a Monarquia seria prontamente substituído. E, por arrastamento, as designações de carácter religioso seguiriam o mesmo caminho. A Rua do Príncipe passou a Primeiro de Dezembro, a Avenida D. Amélia foi crismada de Almirante Reis, a Ressano Garcia mudou para República – e por aí fora. Da mesma forma, S. José dava lugar ao jornalista Alves Correia, S. Lázaro ficou a chamar-se 20 de Abril – tudo mudado.

Veio o Estado Novo e algumas designações tradicionais voltaram aos seus antigos lugares, sem que, em boa verdade, se registassem grandes apagamentos, já que os nomes substituídos, na maior parte dos casos, se limitaram a mudar de sítio. O Rato, por exemplo, voltou às placas, acabando a Praça do Brasil, já que este país passou a ter avenida. O Presidente Wilson mudou de bairro e a avenida onde estava voltou a chamar-se de D. Carlos.

Chegado o 25 de Abril, não se registaram mudanças de topo. Obviamente, a Avenida 28 de Maio mudou de nome e passou a ser das Forças Armadas. E pouco mais! Foi maior a preocupação de apor nomes a ruas novas.

Chegamos à actualidade. Surgiram, durante alguns anos, muitas ruas novas. Mas não as suficientes para a verdadeira febre que muitas vezes se apossa de muitos cidadãos. Na Comissão Municipal de Toponímia, foi utilizada a expressão “síndrome de funeral”, para caracterizar alguma prática que é seguida: morre determinada pessoa e os seus familiares ou amigos logo pensam em homenageá-lo através da atribuição do seu nome a uma rua.

Fervilham por isso na Comissão, na Assembleia Municipal e na Câmara catadupas de nomes propostos para passarem a figurar nas esquinas. Ora não há ruas que cheguem! Parece que terá de haver novas formas de homenagem.

A Comissão acima referida foi criada em 1942 como órgão consultivo, pronunciando-se sobre a criação ou alteração de topónimos. A sua composição tem sofrido alterações ao longo dos tempos e ainda recentemente foi alvo de nova remodelação. Entretanto, foram aprovadas normas que constituem como que um regulamento. Na sua essência, trata-se de consagrar princípios que a Comissão há muito vinha defendendo. É o caso, por exemplo, da não concordar com mudanças de topónimos. Na verdade, a toponímia poder considerada como uma espécie de compêndio de História – e nesta não devem ser riscados capítulos. E, para além deste argumento de ordem histórica, acresce um motivo mais material: quando muda o nome de uma rua, os respectivos moradores têm de, à sua custa, alterar a sua documentação!

Outra norma que já vinha sendo seguida e agora ficou consagrada foi a da necessidade de deixar passar um prazo razoável entre a morte de alguém e a atribuição do topónimo.

É preciso que, passados anos, a figura destacada continue a ser lembrada e a serem reconhecidos os seus feitos. Acabar-se-á assim com o tal “síndrome de funeral” atrás referido.

Com todos estes cuidados, vai sendo possível manter algumas relíquias nos letreiros da cidade, para que verifiquem os actuais cidadãos e os vindouros a extraordinária imaginação de quem deu nomes às nossas artérias. A começar pelos designativos. Poucas cidades poderão gabar-se de ter avenidas, ruas, travessas, azinhagas, becos, alamedas, boqueirões, calçadas, calçadinhas, campos, escadinhas, jardins, largos, pátios, praças, regueirões, telheiros, vilas – e não se pretende aqui esgotar o tema. Mas, achando pouco, Lisboa ainda arranjou forma de criar uns tantos sítios que não têm designativo nenhum: as Escolas Gerais (há rua e há sítio), o Poço do Borratém, a Costa do Castelo, o Caracol da Graça, a Triste Feia... “Ruas que o não são” – lhes chamei, em publicação que a Câmara editou.

A toponímia lisboeta dá, de facto, para tudo. Até para consagrar virtudes (Fé, Esperança, Caridade...), lembrar as flores (o Jasmim, as Violetas, a Rosa, os Cravos...) e arranjar uma fórmula poética e química para dar nome a uma travessa: a Água de Flor!

APPIO SOTTOMAYOR

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A propósito do cante alentejano

Pré-publicação do artigo “PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL: CONCEITOS E FORMAS DESADEQUADAS DE OLHAR A PAISAGEM…”, do nosso amigo Paulo Lima (diretor da Casa do Cante de Serpa), inserido no nº 16 da revista ALDRABA, atualmente no prelo:

Academizar, institucionalizar, a nada leva.
É necessário estar com as comunidades

No dia em que escrevo estas palavras saiu um artigo no jornal Público sobre património cultural imaterial (vulgo PCI), as direções regionais de cultura, inventários e manifestações…

E fala-se em preservar. Preservar numa política de proximidade.

Importa, por vezes, ter memória.

Em 2007, deu-se início oficialmente a um projeto de salvaguarda do PCI no Alentejo que tinha começado em 2005.

Um projeto que se iniciou na Câmara Municipal de Portel, sob a designação de Jardim do Mundo, e que depois transitou para a recém-criada Direção Regional de Cultura do Alentejo, onde se veio a chamar Programa IDENTIDADES.

Quando este projeto abortou bruscamente na Direção Regional de Cultura do Alentejo, em 2010, ação que se revestiu de um cheiro de aparente santidade, procurando inventar ilegalidades (nunca provadas) como meio de justificar o fim do projeto perante a Região e os vários parceiros envolvidos, e os mais de 150 mil euros de indemnização pagas pelo Estado (que poderiam ter significado antes investimento no Alentejo!), encerrou-se um tempo em que no Sul fomos pioneiros de olhar esta «coisa», agora tão em moda, do imaterial. À altura, ficou lá uma verba de um milhão e tal de euros para se investir em salvaguarda (e não em preservação!)…

Durante três anos, conseguiu-se que cerca de uma dezena de municípios resolvessem investir na coisa. Muitos deles com obras avultadas.

A Casa do Cante em Serpa foi um projeto sobrevivente, feito pela teimosia de uma câmara e de um presidente. A candidatura do Cante Alentejano, tantas vezes adiada, é também desses tempos. Hoje são dois projetos que vingaram, mesmo em tempos tão difíceis.

Mas importa também saber que no Alentejo éramos o modelo. Para o então Ministério da Cultura e para a Comissão Nacional da UNESCO.

Mas esta memória deve ser vista em confronto com o presente, de forma crítica. Sem a nostalgia do passado.

É fácil estar numa cadeira numa qualquer instituição e olhar para o PCI, palavra horrível, na distância patrimonial e fazer um trabalho de inventariação, ou, melhor, catalogação, e apostar na sensibilização.

A minha experiência nestas coisas do imaterial já me diz o contrário. Academizar, institucionalizar, a nada leva. É necessário estar com as comunidades. Antropologizámos a coisa em demasia, quer para o bem quer para o mal.

Pouco importa para os últimos fabricantes de chocalhos, para os cantadores, para os bugios e mourisqueiros, as origens ou se aquilo é imaterial ou material… importa é se volta a acontecer e se os seus filhos e netos o farão.

Ou se têm um transporte…

Pensar antes de mais na dignificação e na sustentabilidade

Um dos meus mestres de vida, Manuel Viegas Guerreiro, costumava perguntar nos júris de doutoramento o que é que o Povo ganhava com aquilo…

Ora esta é que é a questão.

Portugal é um território em vias de ermamento, com uma agricultura que expulsa as pessoas dos seus locais, onde os municípios não conseguem construir processos de fixação e de aumento demográfico… O que fazemos? Inventariamos para memória futura e levamos para museus… É esta a solução? É para melhor conhecimento? Bom, a minha experiência mostra apenas duas coisas: mais de um século de trabalho na investigação não pode ser esquecido e importa olhar com pragmatismo para o presente.

E esse pragmatismo passa por várias coisas Pensar antes de mais na dignificação e na sustentabilidade. Estes são os aspectos nucleares. Não é a transmissão, que agora anda confundida com a institucionalização do ensino. Porque quando institucionalizamos o que agora chamamos de património imaterial é apenas porque ele já está morto, ou estamos a matá-lo.

Ler o presente, significa criar estratégias

Este pragmatismo passa também por ler o presente.

Ler o presente, significa criar estratégias Significa estar.

O património imaterial destes territórios só existirá se for contemporâneo e se houver pessoas que o sintam enquanto vida e não enquanto representação.

Ora é aqui que está todo o problema. Sem ordenamento de território, sem comunidades, sem pessoas como poderá haver património imaterial? Como poderá haver paisagem?

Na Barrada, Reguengos de Monsaraz, são pessoas que já lá não vivem que levantam a Festa da Santa Cruz. Há uns anos o cabelo comprido veio da cabeleira do Senhor dos Passos de Monsaraz.

Em Alcáçovas sobrevivem os últimos chocalheiros… Em Estremoz será vivo o último cantador de Almas que o fazia recorrendo a uma técnica de apertar o peito?

As palavras sábias de Viegas Guerreiro

Num país em que as leis são construídas cada vez mais numa higienização e onde as pessoas pouco contam, importa recordar as palavras sábias de Viegas Guerreiro.

Há pouco tempo, em Aldeia do Rouquenho, recolhi esta declaração. Importa atentar nela…

Grupo Coral Desfrutar Destinos

Declaração

Eu Mateus Maia fundador, responsável e ensaiador, e também cantador – baixo - declaro em nome do Grupo Coral o apoio à candidatura do cante alentejano a património cultural imaterial da Humanidade.

Embora tenhamos uma excelente sede, ela era o Jardim de Infância da Aldeia do Rouquenho o que quer dizer que não temos jovens por esta razão espera o grupo coral que esta candidatura possa ajudar a que os jovens possam amar esta nossa tradição.

É nossa intenção participar neste processo de forma crítica

Aldeia do Rouquenho

9-1-2014

(Assinatura legível)

 
Em finais de Novembro deste ano vai-se decidir se o Cante irá ser ou não património do mundo… talvez este ano se candidate o fabrico de chocalhos… Mas, para lá da festa e dos foguetes, importa saber como fixar as pessoas… dar-lhe futuro. E o futuro passa pela Identidade. Sem antropologias, é claro!


PAULO LIMA





quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O burel

















Pré-publicação do artigo que vai sair no n° 16 da revista ALDRABA, atualmente no prelo:

Trata-se dum tecido grosso de cor acastanhada, de origens remotas e fabrico artesanal, implantado na região onde se arreigou, se perpetuou por força das exigências climatéricas da zona, com abundância de matéria-prima e mão-de-obra barata. Feito de lã 100% natural (virgem), o burel foi fazendo história na Serra da Estrela através das capas, peça de vestuário adequado à tarefa dos pastores que ajudavam a suportar as temperaturas adversas, ajustando-se também à rusticidade da paisagem serrana. Contrastando, no entanto, com a brancura da neve em tempos de invernia. É a peça que mais simboliza o burel pelo seu estilo prático e aspeto sóbrio.
De desenho simples e retilíneo, as chamadas capas de burel tornaram-se célebres no corpo dos pastores, servindo para tudo, inclusivamente para manta de agasalho. Mais tarde, passaram a ser peças de vestuário de outra classe social, pela sua sobriedade e exuberância raras. Deixam uma nota de indumentária de luxo e opulência, com o estatuto de gente bem colocada na vida, quando exibidas pelos grandes lavradores do Ribatejo e Alentejo. Lavrador que se prezasse, teria de se apresentar de capa de burel, razão pela qual ganhou a designação de capa alentejana.
Contudo, pelo custo da matéria-prima, passou a perder mercado quando teve de enfrentar tecidos de matérias sintéticas mais leves e de preços altamente competitivos. Quedou-se, por isso, num tempo de completo esquecimento, para depois surgir novamente com ar arrogante no campo da moda. Trata-se, na verdade, de uma peça de vestuário raro, cujo preço fala por si.
A Manufactura do Burel
O Ciclo da Lã
A lã é extraída das ovelhas (velo) através da tosquia que é executada durante os meses de Maio e Junho. Depois da tosquia, a lã é muito bem lavada com água quente e posta a secar, sendo de seguida cardada, passando depois à fase de fiação (operação artesanal com auxilio do fuso e da roca para a transformar em fio). À lã, já fiada, dá-se o nome de maçaroca a qual depois é dobada em novelos, pronta a ser urdida.
A urdidura que consiste em preparar os fios, de alto-a-baixo, paralelos entre si e de igual comprimento. Feita esta, monta-se no tear e procede-se à tarefa de tecelagem. Urdir com lã branca e tecer com lã preta ou castanha é um processo usual que dá outro colorido ao tecido. Todavia, o burel tem apenas uma cor: castanho acinzentado.
Tarefa Seguinte
A lã, depois de tecida, apresenta uma textura pouco consistente, de certo modo rala, razão pela qual passa à pisoagem para garantir maior firmeza e durabilidade ao tecido.
A pisoagem é feita no pisão (engenho artesanal pesado, movido a água, semelhante ao moinho), onde o tecido é batido em água quente, durante algum tempo, por dois enormes martelos, ou malhos de madeira pesados. Assim se transforma numa pasta feltrosa, homogénea, espessa e forte, a que é dado o nome de burel.
Este tecido pode ser submetido a vários tempos - pisão inteiro, meio pisão, ou apenas um quarto de pisão -, consoante o fim a que se destine: capas e samarras, pisão inteiro; saias, meio pisão; aventais, um quarto de pisão.
Finalmente
E, assim, o tal tecido grosso, denominado burel, ficaria em condições de passar às mãos do alfaiate, ou da costureira, os quais transformá-lo-iam em capas, capuchas, saias e aventais.

ADRIANO PACHECO

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Nomes de localidades em azulejos (cont. 21)



                 
         


Vimos hoje publicitar quatro novas placas toponímicas de azulejos, das que o ACP instalou no início do séc. XX à entrada de localidades portuguesas.

A ALDRABA identificou e fotografou uma placa na localidade de Fontes, no concelho de Santa Marta de Penaguião, e uma outra na localidade de Gralhós, freguesia de Chãs, no concelho de Montalegre, ambas no distrito de Vila Real.

Por outro lado, reproduzimos as placas de Celorico da Beira, no concelho do mesmo nome (distrito da Guarda) e de São Martinho da Cortiça, localidade do concelho de Arganil (distrito de Coimbra), recolhidas por Manuel Campos Vilhena, e que foram editadas recentemente no blogue “Diário de Bordo”.

Com as placas hoje publicadas, atingimos um total de 130 placas diferentes, relativas a 118 localidades, situadas em 13 distritos.

JAF (texto) // LFM (fotos de Fontes e Gralhós)


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

5ª Rota da Aldraba - “Arquitectura funerária – Um caminho diferente”
































Vai realizar-se a 5ª Rota da Aldraba “Arquitectura funerária – Um caminho diferente”, dando continuidade aos percursos pela cidade de Lisboa, em busca de referências que sobressaem seja pelo seu significado histórico, seja pelo exemplo que são da preservação (ou não) do património da cidade.
 
Ao deambular pelas ruas arborizadas do Cemitério dos Prazeres, onde se encontra a mais antiga concentração de ciprestes da Península Ibérica, podemos apreciar jazigos cuja construção se destaca das demais. Aí se encontram os jazigos dos Escritores, dois Talhões de Artistas, o Talhão da Polícia de Segurança Pública e o dos Bombeiros Sapadores. 

Em apoio ao percurso, contamos com o acompanhamento e a intervenção do Dr. Licínio Fidalgo, técnico da Câmara Municipal de Lisboa.

Fica feito o convite a todos os associados e amigos para aparecerem no próximo dia 25 de Outubro (sábado), às 10.00 horas na Parada dos Prazeres (Praça S. João Bosco), junto à porta principal do cemitério.

Para quem se quiser deslocar de transportes públicos, informamos que têm paragem junto à porta do Cemitério e funcionam ao sábado:

Eléctrico 28 (Martim Moniz – Campo de Ourique, Prazeres) ver horários e percurso em:
Autocarro  701 (Campo Grande – Campo de Ourique, Prazeres) ver horários e percurso em:
Autocarro  709 (Restauradores – Campo de Ourique, Prazeres) ver horários e percurso em:

MEG, com fotografias de António Brito




domingo, 12 de outubro de 2014

Telefonema vindo do céu

Como escrevemos neste blogue em junho último, Jaime Gaspar Gralheiro, homem de grande energia e fortes convicções, advogado, dramaturgo e encenador de São Pedro do Sul, deixou-nos nessa altura, vitimado por doença aguda.

Amigo pessoal de alguns de nós, tinha-se tornado também amigo da ALDRABA, para cujo número da revista publicado em abril de 2014 escreveu o artigo "Teatro popular nas Beiras".

A ALDRABA participou na cerimónia fúnebre, realizada no Cine-Teatro Jaime Gralheiro, onde centenas de pessoas lembraram de forma muito emocionada a vida e o exemplo deste homem, inteiramente dedicado à sua terra e às suas gentes.

Entre os que usaram da palavra nessa sessão, destacaram-se algumas individualidades, dois membros do grupo cénico da Universidade Sénior de São Pedro do Sul, e o filho João Carlos, com um testemunho genial de homenagem ao percurso do pai.

Esse testemunho consistiu numa peça ficcional, que o João Carlos nos cedeu, e que vai sair no nº 16 da nossa revista, a ser publicada em finais do corrente mês de outubro:


Quando andava a cumprimentar todos os que tiveram a amabilidade de vir para se despedirem de meu Pai, o meu telemóvel tocou. Era um número estranho. Nunca o tinha visto. Era capaz de ser mais um amigo ou conhecido a dar os pêsames pela partida, a desejar força nesta hora de amargura.

Atendi a chamada:

- Estou sim?

Respondeu-me uma voz longínqua e com forte sotaque:

- Alô. Joao Carlos Graleiro?

- Sim. João Carlos Gralheiro. Quem fala? Que deseja?

- Karl Marx.

Estupefacto, respondi: - Quem?

- Karl Marx, responsável politique do ceo…

Ouve-se uma voz do outro lado:

- Do Céu, camarada Marx. Do céu. Não é do ceo…

- Ok. Do céu dos Comuniste.

Assarapantado pergunto:

- Que deseja?

- Tengo aqui uma camada … não, chamada em lina, iporta águardarr?

Em vez daquelas melodias horríveis que temos de ouvir nestas circunstâncias, surge o belo poema de José Gomes Ferreira genialmente musicado por Fernando Lopes Graça: “Acordai…”

- Estou? Filho? Estás a ouvir-me?

A minha mãe?!...

- Mãe. És tu?

- Sim, filho. Sou eu.

- O que é que se passa?

- Liguei para te dizer que já estive com o teu Pai. Ele está agora a tratar de umas papeladas, mas deve estar a chegar.

Belisco-me. Será que estou bem? Queres tu ver que o vinho que o Carlos me pôs na mesa tinha 17º?

- Mãe. És mesmo tu?

- Sou filho. Olha, diz à Lia que agradeço, do fundo do coração, a forma tão carinhosa como tratou teu Pai. Fiquei muito contente por o ver tão feliz. Faziam um belo par. Chegou cá com um ar de quem vinha a rir de felicidade. Diz-lhe que fique descansada. Que não se preocupe, pois agora ele vai ter-me a tempo inteiro para o encher de carinhos. Já agora, agradece à Srª Conceição. Foi incansável a tratar das coisas da casa. Com tantas mordomias, apaparicaram-no, e agora eu é que me lixo …

Enquanto minha Mãe falava, ao longe ouvia-se uma vozearia cujo volume ia aumentando. Era percetível quer eram várias pessoas que se aproximavam em conversa viva.

- Estou? Joca?

- Sim. Pai! És tu?

- Está calado rapaz. Já me encontrei com o Saramago e com o Álvaro. Estavam ansiosos por explicações que os pudessem levar a perceber como é que os portugueses ainda não puseram o Cavaco, o Coelho e o Portas a andar. Nem tu imaginas como é difícil explicar, aqui, essas coisas terrenas …

- Olha (diz agora meu Pai e minha Mãe), o tempo da nossa chamada está a acabar. Por isso aqui vão uns recados telegráficos. Para a Guiomar: que ela não se esqueça que é a borboleta da família. Para a Joana: que gostamos muito da forma tranquila como encara a vida. Para a Leonor: que, tal como nós, também os bisavôs Manel e Elvira, nos sentimos embevecidos pela sua vida académica e profissional. Para o Rodrigo: que não há impossíveis e quando o homem quer a obra nasce. Para a Ana e para a Maria: que imaginamos o quão difícil deve ser gerir os impulsos que geneticamente nelas explodem, vindo de famílias como sejam a dos Marques da Costa, a dos Paulinos e a dos Gralheiros, que num determinado tempo histórico representaram regimes e sistemas políticos completamente antagónicos. Mas estamos certos que, como se tem vindo a ver, gerido esse conflito e decidido o caminho a trilhar, a vitória é certa. Assim diz à Ana que é um orgulho ver a forma como se está a empenhar na conclusão do seu Mestrado. Diz à Maria que a melhor maneira para vencer uma tentação é desfrutá-la. À tua irmã Bebé diz-lhe que a honestidade, o trabalho e a competência, como ela tão bem tem vindo a mostrar, são as melhores armas para o sucesso. À tua irmã Quicas, diz-lhe que vale mais rir do que chorar e agora ela é a cabeça de casal…. (enquanto isto diziam ouviram-se risos….). Ao Mário, à Zira e ao Zé, diz-lhes que tenham muita paciência. Tu e as tuas irmãs até são boas pessoas, mas têm cá um grau de loucura que só mesmo com muita paciência é que são aturáveis ….

- Leva este recado àqueles que partilharam as artes do palco com o teu Pai e a luta por uma sociedade mais justa, fraterna, solidária, livre e democrática connosco: eles foram a causa da nossa crença na humanidade. Mesmo quando esmorecia, eles mostravam-nos que valia a pena acreditar e lutar. Porque vale sempre a pena acreditar e lutar, mesmo que nem sempre da luta venha a vitória, não há vitórias sem luta. Àqueles que acompanharam o teu Pai pelos Tribunais, diz-lhe que somos nós, os Advogados, a voz dos que não a têm. A toga que vestimos é a capa que protege os mais fracos. Sem nós não há justiça.

E continuaram:

- Para os que se lembraram, apadrinharam e permitiram que o corpo do teu Pai fosse colocado, para este último adeus, no palco do Cineteatro, o nosso mais profundo e sincero agradecimento. Tal como foi dito aquando da homenagem do passado dia 25 de abril, o teu Pai merecia isto e o Cineteatro também.

- Para todos os nossos familiares, amigos, camaradas, colegas e conhecidos, quer os que vieram a este Cineteatro quer os que não puderam vir, para todos e cada um deles, fica o nosso abraço e esta mensagem: façam o favor de lutar para que esta vida, por mais curta que seja, possa ser, para todos, sem exceção, solidária, justa, fraterna e livre. Numa palavra: feliz. Se assim não agirmos, nada nos distinguirá dos outros animais. E nós queremos uma sociedade de Mulheres e Homens com letra maiúscula, íntegros e verticais no exercício pleno da sua cidadania. O que nos alenta é a eterna e inquebrantável esperança de que o nosso exemplo seja a centelha que alumie esse espírito que se quer crítico, irreverente, criativo, reivindicativo e responsável.

- Estou? Alô? Sim….

Do outro lado da linha ouviu-se o silêncio.

JOÂO CARLOS GRALHEIRO




terça-feira, 30 de setembro de 2014

Nomes de localidades em azulejos (cont. 20)















Quatro novas placas toponímicas do Automóvel Clube de Portugal acabam de ser localizadas e fotografadas, e temos hoje o gosto de as reproduzir.

A ALDRABA encontrou uma placa na localidade de Barras, no concelho de Mafra (distrito de Lisboa), uma placa no Carrascal, do mesmo concelho e distrito, e uma placa em Pêro Negro, no concelho de Sobral de Monte Agraço (também do distrito de Lisboa).

Esta placa no Carrascal é já a segunda que encontrámos na mesma localidade, sendo que a anterior já a tínhamos publicado.

A placa em Pêro Negro apresenta a curiosidade de ter sido produzida e aplicada recentemente, para substituir uma muito antiga que foi demolida em conjunto com o prédio em ruínas onde se encontrava. O proprietário do espaço teve a atitude curiosa de mandar fazer uma réplica da anterior para colocar no novo prédio.

Finalmente, reproduzimos a placa identificadora de Chãs de Tavares, localidade do concelho de Mangualde (distrito de Viseu), recolhida por Manuel Campos Vilhena e que foi editada há pouco tempo no blogue “Diário de Bordo”.

Com as placas hoje publicadas, atingimos um total de 126 diferentes, de 114 localidades, de 13 distritos.

JAF (texto e fotos de Barras, Carrascal e Pero Negro)


sábado, 27 de setembro de 2014

A vila de Minde












Minde
Linda terra portuguesa
Toda cheia de beleza
E de nobre tradição

Minde
Berço dos nossos avós
Que deixaram a todos nós
O trabalho por brazão

Assim
Ó minha terra bendita
Tu serás sempre bonita
E nunca digas que não

Vila de Minde
Dos cardadores
Das antigas fiandeiras
Das bonitas tecedeiras
Tecendo mantas de cores

A tua gente
Não há igual
Na labuta pela vida
Que lhe foi sempre querida
Correm todo o Portugal

Minde
Para ver tua paisagem
Tens uma bela miragem
Lá do Alto do Cruzeiro

Minde
És um cantinho do céu
Foi aqui onde nasceu
O pintor Roque Gameiro

Agora
Com o teu desenvolvimento
Levarás em pouco tempo
Tua fama ao mundo inteiro

In "Piação dos Charales de Ninhou", Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro, Minde, 2004


domingo, 14 de setembro de 2014

O contraste campo-cidade em Maria Lamas
















A grande jornalista e escritora Maria Lamas (1893-1983), foi outra corajosa intelectual antifascista, perseguida e presa várias vezes pela PIDE. Escreveu nos jornais Correio da Manhã, Época, A Capital, Diário de Lisboa e O Século, tendo dirigido neste último o suplemento Modas & Bordados. Nesta atividade, dedicou-se incansavelmente ao esclarecimento das mulheres trabalhadoras, pouco conscientes dos seus direitos. Escreveu contos infantis e estudos na área da mitologia, porém o seu livro mais importante, fruto de dois anos de viagens por todo o país, foi «As Mulheres do Meu País». Esteve exilada por diversas vezes, entre 1953 e 1962. Passados sete anos regressou do exílio. Tinha 76 anos e ainda a mesma esperança de melhores dias para Portugal. Viveu o 25 de abril de 1974 com enorme alegria. Tal como Fernando Lopes Graça, Maria Lamas também deixou nos seus escritos, acerca da situação das mulheres portuguesas, importantes reflexões sobre a dicotomia entre o rústico e o urbano, que interessam a todos os que se preocupam com o património popular.

Aqui ficam algumas dessas reflexões, para já sobre a condição camponesa:

“Sempre sozinha na labuta, fêmea submissa ao instinto da procriação, a garantir a multiplicação de braços para amanho do casal, animal de carga, sem uma réstia de sol a penetrar-lhe no espírito, a mulher endurece, desumaniza-se, perde, até, o doce instinto da proteção maternal, como perde toda a frescura e graça mal passa os vinte anos. Antes dos trinta, está desdentada, o cabelo torna-se-lhe baço; a pele murcha; o olhar perde toda a expressão de alegria interior, toda a suavidade”.
(ML, As mulheres do meu país, 1950)

E sobre a condição operária:

“O trabalho coletivo, a disciplina dos horários, a noção da responsabilidade, o contacto com as organizações industriais, o alargamento do convívio com outras mulheres e homens, numa camaradagem benéfica, contribuem, é certo, para lhe dar uma nova personalidade, de que ela própria nem sempre se apercebe, mas que a vai distanciando da camponesa”.
(ML, op.cit., 1950).
Fotografia reproduzida do blogue “O Leme”
Citações extraídas de José Neves, Comunismo e nacionalismo em Portugal, Lisboa, 2008.

domingo, 31 de agosto de 2014

O contraste campo-cidade em Fernando Lopes Graça
















O grande músico, compositor e maestro que foi Fernando Lopes Graça (1906-1994), corajoso intelectual antifascista, perseguido e preso várias vezes pela PIDE, e cujo trabalho de recolha, divulgação e tratamento da canção popular portuguesa foi desenvolvido à revelia e com a hostilidade oficial do Estado Novo, deixou nos seus escritos importantes reflexões sobre a dicotomia entre o rústico e o urbano, que interessam a todos os que se preocupam com o património popular.

Aqui ficam algumas dessas reflexões:

“Não há um reportório qualificado de canções nacionais que todos cantemos pela vida fora, a começar no lar e na escola e a acabar nas grandes manifestações cívicas ou nos grandes trabalhos coletivos. Por outro lado, o rico manancial das nossas canções rústicas é desconhecido das populações urbanas; podia fornecer matéria para uma saudável obra de educação musical popular, mas infelizmente o que sucede é que, quando os produtos do nosso folclore, aliás nem sempre os melhores, os mais característicos, chegam às cidades, é já através das adulterações dos fabricantes de música ligeira e das medíocres “estilizações” das cantadeiras e cantadores do teatro e da rádio (…). No nosso país, pode dizer-se que só a gente dos campos e aldeias canta ainda com verdadeira frescura e espontaneidade. Nas cidades, o que se ouve é, em geral, confrangedor. Um dos espetáculos mais tristes da nossa vida social é o que se nos oferece quando várias pessoas reunidas numa festa, num passeio, numa ocupação qualquer, ou em simples camaradagem, se dispõem a realizar um dos mais elementares e ao mesmo tempo mais profundos atos humanos: o do canto em comum. Em regra, ninguém sabe o que há-de cantar, cada qual puxa para seu lado, há discussões, há amuos e, se por milagre se chega a acordo, o que aquelas vozes, em geral estragadas e desafinadas, acabam por entoar é quase sempre uma coisa hedionda, que revela a completa falta de sensibilidade, a total deseducação estética das camadas populares citadinas”.
(FLG, “Valor estético, pedagógico e patriótico da canção popular portuguesa”, em Vértice, maio de 1949)

“Por toda a parte se formam ’ranchos folclóricos’, as vedetas da rádio brilham no ‘estilo folclórico’, os restaurantes anunciam os seus ‘pratos folclóricos’, há os trastes e adornos caseiros folclóricos – enfim, o folclore invadiu tudo, o folclore tornou-se uma tineda, uma doença, um modo de vida. (…) A esta contrafação folclórica há que opor o folclore autêntico, as canções da Beira Baixa e do Alentejo, a canção popular portuguesa que é crónica viva e expressiva da vida do povo português. (…) Só as populações dos campos, serras e aldeias de Portugal são depositárias de um tesouro inexaurível de melodias que, na sua pureza, na sua frescura, na sua autenticidade étnica, na variedade e naturalidade das suas formas, nas suas surpreendentes características estéticas, enfim (a que não falta, como se tem suposto e afirmado, a profundeza, a gravidade, o calor da altura) têm jus a ser consideradas como espelhando inequivocamente a nossa psique. (…) Como o homem da cidade, mas certamente sem as complicações literárias e os requintes patológicos deste, o homem rústico ama, e todo um tratado de psicologia amorosa do nosso povo se poderia escrever através das suas canções amorosas, tão variada, tão imprevista, tão rica de cambiantes, tão reveladora é a fama dos sentimentos, ideias e situações que estas traduzem. (…) Habituados os públicos, pela maioria, a julgarem a canção portuguesa pelo paradigma do execrando fado ou das pífias contrafações revisteiras e radiofónicas, um novo mundo de pura e saudável expressão musical, haurida da própria terra e revelando a verdadeira fisionomia espiritual do nosso povo, se lhes patenteou e com ele imediatamente se identificaram”.
(FLG, A canção popular portuguesa, Lisboa, 1953).

Fotografia reproduzida do blogue “Praia da claridade”
Citações extraídas de José Neves, Comunismo e nacionalismo em Portugal, Lisboa, 2008.

domingo, 24 de agosto de 2014

Nomes de localidades em azulejos (cont.19)


Agora na Beira Baixa, a ALDRABA foi desencantar uma placa toponímica do ACP, numa pequena localidade do concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, de entre as que ainda sobrevivem das que o Automóvel Clube de Portugal colocou no primeiro quartel do séc. XX nas entradas de muitas localidades portuguesas.

Proença-a-Velha é uma garbosa localidade, que exibe um interessantíssimo Museu do Azeite (designação oficial, Núcleo Museológico do Azeite), de grande riqueza etnográfica. A receber-nos, está o jovem Ricardo, muito envolvido e conhecedor das matérias (e, por sinal, conhecido do Eddy Chambino, amigo da Aldraba, que publicou em outº2013, na nossa revista, um bom artigo sobre a região).

Total de placas ACP publicitadas em "A Aldraba": 122 placas, de 111 diferentes localidades, situadas em 13 distritos.

JAF (texto e foto)





sábado, 16 de agosto de 2014

Carta de um soldado português na I Guerra Mundial à sua família no Alentejo

O diário "Público" tem vindo a editar uma série notável de suplementos dedicados à Guerra de 1914/1918, de cujo início estamos a comemorar o respetivo centenário.

O primeiro conflito armado à escala global foi uma tragédia mundial na competição entre grandes potências industriais, que se saldou num morticínio de cerca de 9 milhões de pessoas, com mais de 20 milhões de feridos.

Portugal, por iniciativa de um governo republicano pressuroso em demonstrar fidelidade à aliança secular com Inglaterra e para defesa das colónias africanas ameaçadas pela Alemanha, participou na guerra com o CEP (Corpo Expedicionário Português), que registou mais de 2000 mortos.

Na edição de hoje do "Público", Isabel Pestana Marques reproduz um significativo conjunto de mensagens escritas por soldados portugueses, colocados nas trincheiras na Flandres, e que se correspondiam com as suas famílias em Portugal.

Como diz a historiadora, "o pulsar e o rosto humano emergem, ainda hoje, das cartas portuguesas, amarelecidas pelo tempo, tintas de sangue, suor e pó e sobreviventes a uma guerra de características originais e de consequências absolutas na história de Portugal, da Europa e do mundo".

Publicamos aqui o texto comovente de uma dessas cartas, que o soldado raso Manuel Martinho, com toda a genuinidade de um homem do povo pouco letrado, endereça ao seu pai (José Bartolomeu da Silva), para Ourique:

"França, 15 de Agosto de 1918

Meus queridos paes do coração,

Os meus mais ardentes votos é que a receber desta minha carta estejam na posse duma perfeita e felis saúde assim como meus queridos manos eu bem felismente.
Ouve aqui grande bombardeamento o qual fez muitos estragos e algumas mortes mas pala minha parte não ouve novidade.
Eu já sabia que não me acontecia mal, porque tenho mandado ler a minha sina e dis-me o seguinte: muito tempo em guerra e morrer na pátria.
Meus queridos paes: em vista disto também devem ficar satisfeitos e nunca perderem a esperança de me ver, porque algum dia será; tenho ido felis e heide ser até ao fim.
O que tive mais à contra fôe a doença que me deixou muito atrapalhado, mas como adoeço em França, tão em bem adoeço em Portugal, assim o mal venha não á mais que aceitar-se, escapei porque estou guardado para maiores tormentos.
Vou contar a minha mãe porque não tenho ido de licença; não é porque eu não tenha direito, que já tenho direito a 3 licenças, porque já conto 18 meses de campanha, mas é outro caso. Em campanha fazem-se injustiças como se fazem em Portugal, as quais têem-se que gramar e calar a bôca. Aqui da minha formação foram muitos sargentos de licença, assim como de todas as outras e nem mais cá voltaram; nós aqui não básta termos muito trabalho porque somos poucos como também não podemos ir de licença por fazer falta ao serviço.
Isto agradese-se ao senhor ministro da guerra, porque nem só não rende a gente, como também não torna a mandar os que vão de licença: isto é próprio do governo Portuguez, que nunca o fez por menos; faz do direito torto, e do torto direito. É uma sussia de canalhas que só pençam em robar e não se lembram daqueles que vivem na amargura á 18 meses, separados de suas famílias e dando a última pinga de sangue pela sua pátria.
Tenham passiencia e conformem-se com a sorte que Deus me deu: convensan-se que o mais prejudicado sou eu e com tudo eu cá vou indo. As horas que mais sofro são aquelas em que me lembre minha família, minha mocidade e liberdade. Nessas horas até quido de estalar de paixão, vingo-me em chorar assim como muitos meus colegas, mas não temos outro remédio que é disfarçar-mos uns com os outros.
No dia em que recebi as voças fotografias, não calculam o abalo que me deu, ao ver aqueles que tantos beijos me deram e tantos tormentos passaram para me criar e encontrar-me longe e muito longe.
Muitos abraços aos meus manos, beijinhos ao José e ao Almiro; muitas recomendações a toudos os meus tios e tias, primos e preimas, a todos os rapazes e raparigas do meu tempo e a toda a nossa vesenhança.
Meus queridos paes recebam uma viva saudade e um grande abraço d'este seu querido filho que já mais os esquesse e lhe deseja pedir a bênção.
Manuel Martinho".
                                                                                                                                                                                                                          
JAF (texto)
Fotografia extraída do blogue "APC Gorgeios", relativa ao soldado raso José Pires Pinto, de Gorjães (aldeia a 14 km de Faro), vítima da I Guerra Mundial.