segunda-feira, 16 de outubro de 2017

XXXV Encontro da Aldraba-“Por terras da Beira raiana” Idanha-a-Nova, 28 e 29 de outubro de 2017 (sáb./dom.)















Mais um Encontro da nossa Associação, a realizar nos próximos dias 28 e 29 de outubro.

Desta vez iremos até à Beira raiana, para conhecer Idanha-a-Nova, a Senhora do Almortão, Idanha-a-Velha, Monsanto, onde também pernoitaremos, e Salvaterra do Extremo. Daremos um salto até ao outro lado da fronteira, a Zarza La Mayor, onde almoçaremos com antigos contrabandistas dos dois lados da raia.

Temos à nossa espera um património invejável, tradições e vivências que no passado muito marcaram pessoas e territórios, e amigos que nos acompanharão e connosco irão partilhar o seu saber e o seu amor por estas terras e gentes.

Este Encontro no concelho de Idanha-a-Nova é organizado em parceria com a associação Raia Gerações e com o apoio do Município de Idanha-a-Nova

Objetivos
- Conhecer o património imaterial e material do concelho;
- Partilha associativa entre a Aldraba e a Raia Gerações;
- Fruir das gentes, paisagens, lugares e gastronomia local.

Dia 28 de outubro
Concentração dos participantes às 11h00, em Idanha-a- Nova
Visita ao Centro Cultural Raiano │Etnografia | Historia local
Exposições permanentes │ Agricultura nos campos de Idanha │ Oleiros de Idanha
Exposição temporária │ Club União Idanhense – 100 anos
Almoço │ Senhora do Almortão
Visita ao Santuário da Nossa Senhora do Almortão
Idanha-a-Velha │ Núcleo Epigráfico (Arqueologia) │ Lagar de Varas
Jantar e dormida │ Monsanto

Dia 29 de outubro
Monsanto │ passeio cultural
Salvaterra do Extremo │ passeio cultural
Almoço transfronteiriço com antigos contrabandistas – Zarza La Mayor (Espanha)
Zarza La Mayor │passeio cultural
Final do Encontro pelas 17h00.

As deslocações no interior do concelho, até Zarza La Mayor, e regresso a Idanha-a-Nova, serão feitas em autocarro que nos é cedido localmente.

O alojamento em Monsanto está assegurado em estabelecimento acolhedor, com quartos duplos ao preço de 45€ e quartos individuais a 22,5 €. As três refeições terão preços económicos da ordem dos 10€ cada.


Os associados e amigos que desejem participar neste XXXV Encontro devem inscrever-se até 4ª feira, 25.10.2017, para os e-mails da Aldraba, do Luís Maçarico ou do Albano Ginja (aldraba@gmail.comlmacarico@gmail.com ou albanoginja@hotmail.com), ou para os telefones destes últimos (96 718 76 54 ou 91 477 39 56).

JAF

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O acervo documental da Aldraba (7bis) - Alentejo

Voltamos a publicar a lista dos textos que constam do nosso acervo relativos ao descritor ALENTEJO, integrado no grupo temático “Regiões portuguesas e lusófonas”. A lista de hoje está substancialmente aumentada em relação à anterior, pois integra agora todos os novos trabalhos sobre o Alentejo editados na revista "Aldraba" de 2013 a 2017:

ALENTEJO
Alexandra Leandro, “João Gonçalves Carrasco”, nº 4 (Dez.2007), p.6
Ana Isabel Carvalho, “As saias, expressão de cultura popular do norte alentejano”, nº 5 (Jul.2008), p.19
Ana Isabel Carvalho, “Santas Cruzes: memória e crença em Vila Nova de S. Bento”, nº 18 (Out.2015), p.21
Ana Isabel Carvalho e Luís Filipe Maçarico, “A magia do café”, nº 17 (Abr.2015), p.2
Ana Machado, “O cante alentejano na Margem Sul”, nº 2 (Nov.2006), p.7
José Rodrigues Simão, “As eiras comunitárias do meu tempo”, nº 20 (Out.2016), p.15
José Rodrigues Simão, “Cinquenta e cinco anos depois, voltei ao cerro do Guizo Pequeno”, nº 21 (Abr.2017), p.24
Luís Afonso, “Gravuras rupestres do Alqueva”, nº 19 (Abr.2016), verso da capa
Luís Afonso, “A ópera e o cante alentejano”, nº 20 (Out.2016), verso da capa
Luís Ferreira, “Os aguadeiros em S. João de Negrilhos”, nº 19 (Abr.2016), p.17
Luís Ferreira, “Poços e noras em S. João de Negrilhos”, nº 20 (Out.2016), p.10
Luís Filipe Maçarico, “Espaço museológico da Junta de Freguesia de Pias”, nº 17 (Abr.2015), p.14
Luís Filipe Maçarico, ““Jordões”: uma tradição singular”, nº 18 (Out.2015), p.16
Luís Filipe Maçarico e Sónia Frade, “João Honrado (O património da memória num testemunho sobre o tempo em que não havia liberdade)”, nº 3 (Jun.2007), p.9
Luís Jordão, “Deambulações”, nº 4 (Dez.2007), p.17
Mª Amélia Sobral Bastos, “Os afectos também são património”, nº 2 (Nov.2006), p.12
Marco Valente, A luz da caniceira – Um conto popular alentejano”, nº13 (Abr.2013), p.16
Marco Valente, “Aldrabas e batentes de Selmes”, nº 10 (Jul.2011), p.4
Marco Valente, “Caminhos da arte rupestre – entre Beja e Olivença”, nº 19 (Abr.2016), p.7
Maria do Céu Ramos, “Fomos a Alcáçovas - concerto de estreia do chocalhofone em 21.6.2015”, nº 18 (Out.2015), p.27
Maria Eugénia Gomes e Luís Filipe Maçarico, “Bento Ramos Sargento”, nº 12 (Out.2012), p.17
Nuno Roque da Silveira, “Lucinda Cruz da Moreanes”, nº 12 (Out.2012), p.21
Paulo Lima,“Património cultural imaterial: conceitos e formas desadequadas de olhar a paisagem”, nº16 (Out.2014), p.7
Ricardo Colaço, “O tesouro da Basílica Real de Castro Verde”, nº 10 (Jul.2011), p.18
Rosa Dias, “O cante alentejano no Porto”, nº 4 (Dez.2007), p.13
Sónia Frade, “Memórias do contrabando em Santana de Cambas”, nº 1 (Abr.2006), p.13
Virgílio Vidinha, “Banda Municipal Alterense”, nº 19 (Abr.2016), p.10

Tal como temos anunciado nos post's desta série, os nossos leitores e amigos que pretendam aceder a alguns destes textos e que se manifestem em comentário ao presente post, ou por e-mail para aldraba@gmail.com, receberão uma cópia digitalizada do ou dos artigos que indicarem.

JAF 
(foto reproduzida de http://traje-antigo-alentejo.blogspot.pt)

domingo, 10 de setembro de 2017

"Tradição e sabedoria": Fazer tijolo













Significado: Falecer.

Origem: Para reerguer as casas destruídas pelo terramoto de 1755, utilizou-se a argila para fazer tijolos. Entre a argila eram frequentemente encontradas ossadas. Daqui que tivessem surgido frases como “daqui a uns tempos estás a fazer tijolo” entre os populares.

Cafés Chave d’Ouro

domingo, 20 de agosto de 2017

"Tradição e sabedoria": Fazer tábua rasa

















Significado: Esquecer completamente um assunto.

Origem: Os romanos, seguidores do filósofo grego Aristóteles, diriam que a alma sem experiência era uma tábua rasa. A tábua rasa era uma pequena tábua de cera que não tinha nada escrito ou desenhado. Mais tarde, o termo foi adaptado à vida urbana e transformado para o significado que hoje conhecemos.


Cafés Chave d’Ouro

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Mensagem de amor pelo Douro



















O prestigiado antropólogo Shawn Parkhurst, professor associado e Diretor do Programa de Estudos Portugueses na Universidade de Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos da América, escreveu para o nº 21 da revista ALDRABA um artigo que gostosamente aqui se reproduz:

Adorar o Douro é selvagem ou salvagem, salvação ou silvado? A resposta certa, para mim, é “sim”!

O amor agarrou-me em 1992. Agarrou-me por dentro, como uma mão que enfia luva. No exterior, tatuou-me com beijos silvestres. A mão e os lábios do Douro têm-me na posse agora há duas décadas e meia. Continuo possuído, mas é triste: minguo a vida nos Estados Unidos, o país onde nasci já exilado da terra a que sempre pertenci. Este meu país não sabe oscular.

Os beijos mais doces que o Douro me deu entregaram-se nas encostas que fazem a metade vertical da região. São encostas que se erguem como tabuleiros de xadrez já quebrados e recompostos inúmeras vezes pela paixão de trovoadas, pelas sapadas conseguintes, e pelas peças do jogo que resistem à voragens por lançar raízes nas fendas invisíveis do santo xisto; continuam sendo espinhos de cardos que se transformam na marmelada do calão que se dedica a registar a diferença entre fragão, pedra, pedrinha, rocha, fraga, joga, laja, eira, seixo e, claro, calhau.

A marmelada se empina em socalcos, geias, geios, e botaréus que se vestem com videiras e oliveiras quando a vida anda simples. O outro modo, mais dramático, é também mais comum no Douro. O modo é o do reconhecimento dos defuntos.

Enquanto a lentidão dos carvalhos, zimbros, e medronheiros junta-os à gente compadecida, outras presenças mais voláteis infundem cores tão brilhantes e olores tão adstringentes que põem os corpos dos aflitos sobreviventes de atalaia: serralhas, papoilas, bildros, joios e tremoceiros se aterram por uns momentos, como um bando de estorninhos feitos de arco-íris. Fogem como chegaram. A arçã e a carqueja tardam mais, e o carrasco preside: vagueamos nos mortórios, enfim. O drama não acaba com a ressurreição, mas continua bem além dela. Então o que queres?

Podes querer saber mais, o que se iguala a querer saborear o nó que, pulsando, segura termos da boca a termos da terra. Assim és como eu: sempre quero ir de termos à terminação, sem pressa, e com o mapa militar apropriado pela gente que sussurra as cantigas dos lugares: Castanheiro do Cão, por exemplo, ou Penedo do Sino, ou Jancozêlo. Pierre Reverdy jurou que poesia é emoção. Penso que pôs o pé perto da verdade, que surge da terra. Terra, poesia e emoção não existem uma sem as outras.

Acrescentaria que eu já não existo sem o Douro, mesmo estando longe dele. Os nós são dum tamanho transatlântico; os sinaizinhos que compõem o Douro existem em constelações com pés cravados, entre vale e céu, nos apoios das meias encostas.

Ainda falta descrever até um canto diminutivo duma só constelação. Empenho-me com o projecto, que chamarei “selvagem”, “salvagem”, “salvação”, “silvado” e “sobrevivência”.

Shawn Parkhurst

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Êxito do Encontro em Tondela




















Durante o último fim de semana de Julho de 2017, a Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, realizou mais um dos seus Encontros, no concelho de Tondela, com o apoio na organização, e na sua concretização no terreno, de Elísio Luís Chaves, Presidente da Casa de Tondela em Lisboa, cuja parceria em muito contribuiu para o êxito da iniciativa, graças ao conhecimento privilegiado que Elísio possui do território onde nasceu e pelo qual pugna vibrantemente.


Os quase 30 participantes concentraram-se, no sábado 29, junto à Igreja Matriz de Tondela, seguindo para Molelos, onde se visitou a Olaria de Barro Preto, de António Matos Marques, um artesão cujas peças têm a beleza e a perfeição das obras feitas à mão, que apresentam uma grande resistência e qualidade.

As diversas fases da criação na sua oficina, foram recriadas e explicadas com uma gentileza e um perfeccionismo que saudamos, augurando longa vida pessoal e profissional. Os visitantes não esquecerão o acolhimento e a sabedoria patenteadas.

Seguiu-se um almoço delicioso (de arroz de marisco ou bifinhos com cogumelos) que mereceu aplauso dos convivas, no "Ponto de Encontro", que é uma boa referência para os viajantes, que por aquelas bandas desejem encontrar um oásis para o paladar, pela confecção gostosa e pelos preços económicos.

Após o almoço, houve uma paragem surpreendente na Biblioteca Tomás Ribeiro, para - com o comissário da exposição - saber quem foi o "Tony das Bananas", que criou um empório na África do Sul, para onde emigrou, voltando de lá comendador. Coincidência extraordinária, foi Salomé Almeida, a primeira presidente de um Sindicato português, ter encontrado numa reprodução do "Século de Joanesburgo", a fotografia de Júlio Navarro, primeiro jornalista daquele jornal e irmão desta associada da Aldraba.

A visita seguinte efectuou-se no Museu Terra de Besteiros, em tarde quente, constituindo surpresa inaudita, pela viagem proporcionada - através da narrativa museológica - desde os primórdios à actualidade, pelo concelho de Cláudio Torres. Depois dos achados da Pré-História e da Época Romana, da Idade Média e da Industrialização, foi a vez de constatar profissões que marcaram o desenvolvimento da vila e das aldeias: o linho, os cesteiros, o funileiro, a agricultura, os sanatórios do Caramulo...

A descoberta da ACERT/Trigo Limpo, com visitação de todos os espaços, sendo o grupo guiado por Miguel Torres, foi um espantoso momento de confirmação de um equipamento e de uma história cultural fabulosa. A Associação e o seu Grupo de Teatro, que são conhecidos dos portugueses, tem mais de 3.000 associados.

O primeiro dia do Encontro em Tondela, completou-se com um grande momento de interacção, a cargo da AFERTourigo, que presenteou os viajantes com um lauto jantar, que, desde a sopa de couves, muito saborosa, passando pelo lombo com batatas, de tempero bastante apetitoso, culminando com maravilhosa fruta da região, regalou os convivas, visivelmente agradados com o saber e os sabores daqueles que dirigiram nessa noite inesquecível a cozinha e suas iguarias.

Mas a Associação de Tourigo foi ainda mais longe, apresentando um espectáculo folclórico repleto de vivacidade, ritmo e colorido, que mereceu fortes aplausos da encantada assistência, culminando com um convite para a dança pelas raparigas aos homens da Associação do Espaço e Património Popular, seguindo-se igual convite às senhoras presentes, associadas da Aldraba.

Numa breve mas simpática cerimónia, os representantes das duas associações saudaram o trabalho em prol do património e da memória, que ambas desenvolvem, acolhendo lembranças de Mestre Albino Moura, conceituado artista plástico, trazido pelo consócio Rodrigues Vaz, cuja esposa, Helena Justino, prestigiada criadora, também ofertou a AFERTourigo. Luís Filipe Maçarico, antropólogo e poeta, entregou o seu mais recente livro de poesia sobre a Tunísia.

O Presidente da Aldraba exaltou a fraternidade com que a sua Associação foi recebida, celebrando os valores que o Associativismo evidencia, tendo o Presidente da Mesa da Assembleia Geral da colectividade visitada exultado com a visita, desafiando os visitantes a voltarem sempre que o desejem, pois serão sempre bem vindos!

Grande parte da manhã do domingo 30 de Julho decorreu nos Museus do Caramulo (colecção de Arte, onde se incluem obras de Amadeu Sousa Cardoso, Salvador Dali e Miró, entre muitos outros artistas; mostra de brinquedos e exposição substancial de automóveis de todo o tipo, desde os primeiros exemplares, usualmente designados por calhambeques, até aos contemporâneos, das marcas de luxo, só acessíveis a uma elite, até aos populares minis e carochas. E também os carros de Salazar e o da fuga de Caxias, consumado por comunistas presos pelo Estado Novo.

Na sequência de uma pausa no miradouro a partir do qual se pratica parapente, o grupo almoçou no Restaurante Montanha, no Caramulo, dividindo-se entre o arroz de pato, a chanfana, o cabrito ou os rojões, que agradaram ao paladar mais exigente. As entradas lautas, o vinho, as sobremesas, deliciaram os viajantes.

A viagem a Tondela terminou na Associação das Mulheres Agricultoras de Castelões, que informaram acerca da manufactura, em teares antigos, de prodigiosas toalhas e outros artefactos para a vida doméstica: guardanapos, toalhas, etc., lembrando as fases da transformação ancestral (com mão de obra sábia) do linho: colher, ripar, molhar, malhar, moer, espadelar, assedar, fiar, ensarilhar e dobar. Uma das senhoras afirmou que a linhaça a curou de cinco pneumonias…

A despedida de Tondela ocorreu a meio da tarde de domingo, com o mesmo espírito fraterno, que animou todo o encontro e criou bem estar a todos.

A Aldraba e a Casa de Tondela evidenciaram neste Encontro o melhor que o Associativismo tem: o companheirismo e a valorização do património imaterial e material.

Bem Hajam Todos!


LFM (texto e fotografias)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Turismo, mercados e globalização











Do recente nº 21 da nossa revista ALDRABA, reproduzimos o texto muito oportuno do seu editorial:

Portugal é hoje, fruto dos mais diversos contextos sociopolíticos internacionais, um destino turístico de enorme procura. São milhares, muitos milhares, os visitantes que diariamente demandam o nosso país.

Lisboa, Porto, Algarve, Sintra, Évora, o Douro e a Madeira, entre outros menos procurados, são locais que integram os destinos de férias de inúmeros cidadãos do mundo inteiro.

O turismo é, pois, um assunto incontornável e todos, por certo, concordaremos que está na ordem do dia!

Múltiplas e diversas são as abordagens que o tema tem vindo a merecer por parte de sectores que vão da economia à cultura, salientando uns apenas os ganhos que proporciona, aludindo outros os prejuízos que acarreta ao bem-estar dos residentes dos locais mais procurados e à preservação da sua identidade, não esquecendo ainda outros de acentuar os malefícios que procura tão intensa provocará na salvaguarda do património, das idiossincrasias e história de comunidades e locais.

Em torno do turismo tem vindo a fortalecer-se o sector de prestação de serviços por parte dos mais diversos agentes turísticos, de onde sobressaem as agências de viagens e empresas de transportes, a restauração e a hotelaria, com os consequentes benefícios no mercado de trabalho. Também a rede de comércio viu igualmente reforçada e rejuvenescida a sua actividade.

E se é bem verdade que, no plano económico, o turismo pode não ser “a galinha dos ovos de ouro” que muitos defendem, teremos que reconhecer que está a contribuir para a dinamização de largos sectores de actividade e a proporcionar os consequentes ganhos, directos ou indirectos que daí advêm.

Assistimos, recentemente, à criação e disponibilização de novos “produtos turísticos”, para o que tem contribuído o grande empenho e envolvimento de muitas autarquias. Trata-se de propostas com uma forte componente cultural, de que são exemplo o turismo aventura, o turismo rural ou o turismo natureza, como sabemos estar a acontecer em grande parte do interior do país, designadamente na zona das Serras da Estrela e da Gardunha, aí em torno das Aldeias de Xisto e das Aldeias Históricas.

De igual modo, as áreas da gastronomia e da enologia são hoje geradoras de fluxos turísticos próprios, tendo deixado de ser meros complementos como tradicionalmente acontecia contribuindo, ou podendo vir a contribuir, para o aproveitamento dos recursos endógenos e o consequente desenvolvimento agrícola.

O antropólogo Paulo Lima, que coordenou a apresentação de diversas candidaturas a Património Cultural Imaterial da Humanidade (Fado, Cante e Arte Chocalheira), já no início de 2015 nos chamou a atenção para os perigos que, na sua opinião, decorrem das relações nem sempre claras e esclarecidas entre o património e a sua necessária salvaguarda, por um lado, e as pressões decorrentes da globalização, dos mercados e do turismo.

Se as tradições e o saber fazer que ainda existe se subordinarem acriticamente à comercialização e se transformarem em produtos vendáveis, as memórias, identidades e história das comunidades e povos perder-se-ão na voragem de um consumo descontextualizado e de muito curto prazo.

Se rejeitámos e abandonámos o “orgulhosamente sós” do salazarismo, que nos colocava à margem do mundo, se defendemos a afabilidade e cordialidade com que recebemos quem nos visita, devemos fazê-lo de forma criativa, esclarecida e guardando o maior respeito pelas nossas memórias e pela genuinidade dos nossos usos, costumes e tradições!


Maria Eugénia Gomes