quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Acepções de património



De um artigo da antropóloga Paula Godinho (Processos de emblematização: fronteira e acepções de “património”) respigo esta passagem que pode constituir motivo de reflexão.

"Tornado matéria-prima para a construção das culturas nacionais, inócuo e desgarrado do contexto em que emergia, o popular só se tornou objecto de interesse porque o seu perigo foi eliminado.
Antes censurado, vigiado e expurgado pelo seu cariz perigoso e subversivo, passa a estar conotado com a pureza, a inocência, as origens, a ingenuidade, ou a natureza. Esse fenómeno de estetização e preservação do que é arredado dos modos de produção, atribuindo um novo formato mercantil aos recursos culturais e ao conhecimento local, tem como agentes os elementos das elites, em vários patamares, que replicam uma idêntica lógica empreendedora."

Esta atitude, que se refere à reputação do popular junto das elites do século XIX, será ainda actual?

JMP

Castanhas e Magustos

Oriundo da Ásia, ao que se supõe, e chegado à Europa há mais de três mil anos, o castanheiro que existe em quase todo o interior centro e norte do país, é hoje considerado uma árvore autóctone de tal maneira pegou e se desenvolveu nas nossas terras.

As suas sementes – as castanhas, foram a base da alimentação de transmontanos e beirões nos séculos XVII e XVIII em substituição da batata e do pão. Chegaram aos nossos dias como um pitéu e já entraram na tradição associadas aos Magustos, ao S. Martinho e à água-pé ou à prova do vinho novo. No dizer do adágio popular: “Pelo S. Martinho vai à adega e prova o vinho”.

Recordo, a todos os que tivemos o privilégio de estar no encontro da Aldraba no Fundão, em Dezembro de 2007, o magnifico ambiente criado pela Associação de Convívio e Amizade nas Donas à roda do Magusto que prepararam para nós.

Foi uma noite fantástica. A alegria de anfitriões e convidados à volta das labaredas da caruma a arder no chão da eira e das castanhas a estalar e a saltar aos nossos pés, juntou-se ao frio de Dezembro, à noite e ao nevoeiro que envolviam a serra e tornavam irreais as luzes nas aldeias mais próximas.

Hoje é dia de S. Martinho, que vivam as castanhas e o vinho novo!

Mais informação sobre o tema das castanhas, que reputo de grande importância e actualidade, disponível nestes dois endereços: http://www.cm-mirandela.pt/index.php?oid=3624 e http://cafeportugal.net/pages/dossier_artigo.aspx?id=1295

MEG

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

O rei vai nu!


As histórias da nossa infância remetem-nos para um tempo de ingenuidade e de sonho, onde certas verdades, incómodas para a sociedade estabelecida, também tinham o seu lugar.

Esta manhã, em conversa ligeira com um colega finlandês presente na mesma reunião internacional em que eu estava, fiz-lhe um reparo sobre a página electrónica do serviço da Comissão Europeia em que ele trabalha. E comentei que tal incorrecção (falta a ligação ao principal texto legal aplicável no seu sector, enquanto é possível chegar directamente a uma multidão de textos secundários...) certamente já foi notada por muita gente, mas ninguém é capaz de o dizer aos responsáveis.

Provocando o Timo Altonen, disse-lhe que fazia lembrar um conto infantil que conheci há muitas décadas em Portugal, em que uma criança denuncia na praça pública que o rei vai nu no seu habitual desfile, enquanto os cortesãos e o povo atemorizado repete, respeitosamente, que são tão belas as roupas de Sua Majestade!

Para meu espanto, responde-me o colega nórdico, que vive em Bruxelas e que hoje estava comigo em Genebra, que sim senhor, estava de acordo, pois também na sua infância conheceu a mesma história, e há de facto situações como esta em que as pessoas se "auto-hipnotizam" e perdem a sua capacidade crítica, seduzidas como estão pelas conveniências sociais.

Grande lição esta. Temos patrimónios populares que até são comuns a muitos povos, temos memórias e sabedorias com tanto potencial, e tantas vezes as reprimimos.

Venham outras memórias infantis até ao nosso blogue, e lutemos contra o seu apagamento...

JAF, gravura reproduzida do blogue "Dragoscópio"

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

A minha rua do bairro da Musgueira


No antigo bairro da Musgueira, que era um enorme abarracado pobre, lá para os lados da actual Alta de Lisboa, viveu parte da sua infância o Mané (Manuel Graça da Silva), que é agora associado da Aldraba e de quem publicámos uma parte das suas memórias no nº 7 do nosso boletim.
É extraordinário que um rapaz desta Lisboa desaparecida tenha escrito sobre o bairro da Musgueira por dentro, com um colorido, uma riqueza de pormenores e uma ternura que vale a pena reproduzir aqui:
"A minha rua dividia-se em 2, não era o lado esquerdo e direito, era o de cima e o de baixo. Todos se conheciam nessa rua e nas outras, mas as casas mais perto da minha eram mais fáceis para pedir um ramo de hortelã, alface ou para um desenrasque de ultima hora, não havia vergonha nem preconceitos para estes pormenores.
O ti Cândido, homem sem barba e bigode na maior parte do tempo e sempre bem penteado, com modos respeitosos, saia um pouco da vulgaridade, era contra tudo e contra todos, talvez mesmo contra ele, cumprimentava todas as pessoas com a mesma facilidade dizia mal delas. Gostava imenso de ajudar os outros, observando todos os gestos, esperando um passo em falso para maldizer, mostrando o arrependimento da ajuda dada, mas sentia-se feliz por ajudar e falar mesmo que para dizer mal.
Com os seus cabelos brancos e óculos remendados com fita-cola, sempre resmungão e fiel às expressões de taberneiro, estabelecimento para o qual nunca teve vocação muito menos formação especifica, talvez o desejo de beber à borla. Enfim! Lá fazia a sua venda, vendia tudo avulso:
- Lixívia, módulos, latas de atum, velas, bilhas de gás, batatas, cebolas etc.
Alguma clientela transformava-lhe os dias, criando motivos de acender uma fogueira para um churrasco, sardinhada ou cara colada enquanto houvesse raios de sol. O cheiro e o fumo convidava sorrateiro os vizinhos, mesmo quando passavam, diziam:
- Ó ti Cândido, posso trazer uns carapaus para assar?
- Assim aproveita-se o carvão!
- Anda lá rapaz, se não sou eu...
Havia freguesia até ás 17h para os almoços, para o jantar teria de ser o Sr. do apito, porque o ti Cândido tinha costumes muito pontuais, levantar e deitar com as galinhas, de Inverno e Verão, com festa ou sem ela, era sempre assim. Eram estas e outras, que tornavam o ti Cândido especial ou diferente dos outros, já não era nada mau, dividia o carvão com os vizinhos. "

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

90 ANOS DE PERCURSO



O nosso associado e grande amigo Jorge Rua de Carvalho acaba de ser homenageado pela Junta de Freguesia de Prazeres a que se juntaram outras entidades, entre as quais a Aldraba através do Presidente do Conselho Fiscal João Coelho que, num depoimento de grande dimensão humana, exaltou o percurso deste homem artista, antifascista e cidadão solidário.

Reproduzimos, a propósito, um artigo publicado no N.º 7 do Boletim "Aldraba":

"Jorge Rua de Carvalho acaba de completar 90 anos de idade neste mês de Julho de 2009.

A Aldraba assinala com todo o afecto e camaradagem este marco na vida do nosso associado, que aprendemos a conhecer e respeitar como um exemplo vivo de trabalhador, de cidadão, de criador artístico, de militante associativo.

O Jorge foi um dos 80 fundadores da Aldraba, presente e interveniente na Assembleia Geral constituinte, em 25 de Abril de 2005, no Ateneu Comercial de Lisboa.

Nestes 4 anos, a Aldraba teve já a sua exposição de bonecos populares em duas mostras de grande impacto, no Museu República e Resistência, em Lisboa, e no Festival do Chícharo, em Alvaiázere.

Apesar das dificuldades inerentes à idade, o Jorge participa sempre que pode nos actos da vida da Aldraba, em encontros, assembleias gerais e eleições, encorajando os mais novos com as suas opiniões e preocupando-se sempre com a situação das finanças da associação.

Antes da nossa experiência em comum, sabemos que o Jorge Rua de Carvalho desenvolveu sempre intensa actividade associativa, em particular no Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”, onde desempenhou durante várias décadas quase todos os cargos sociais, e onde tem sido um dos impulsionadores e praticantes do teatro amador.

Marceneiro de profissão, o Jorge decidiu esculpir em madeira o fruto da sua vasta e rica vivência da Lisboa dos bairros populares, dos pregões, dos ofícios, dos jogos infantis. Os seus cerca de 200 bonecos contam a história da cidade dos humildes e laboriosos, da criatividade dos simples, falam a linguagem da verdade, são património e identidade.

Nos últimos 15 anos, o Jorge também passou à escrita (poemas e prosa) a sua visão da vida e conhecimentos acumulados, tendo publicado "Desabafos", em 1994, "Lisboa saudade : Pregões e figuras típicas de Lisboa (anos 20-40)", em 1999, "Gente da Minha Rua", em 2003, e "Retalhos da Vida Saloia", em 2006.

Um grande abraço de gratidão ao Jorge Rua, e votos calorosos de saúde e vida!"

domingo, 27 de Setembro de 2009

Alpedrinha 2009







Tal como anunciado, decorreram nos passados dias 18, 19 e 20 as festas que em Alpedrinha celebram os caminhos e as tradições da Transumância.
Foi um tempo de rever pessoas e sítios, gozar da hospitalidade daquelas gentes e relembrar a beleza dos lugares revisitados.

De mistura com os cheiros, os paladares e os abraços de conhecidos e amigos, sobressaem os sons dos grupos que percorrem as ruas do princípio ao fim da Festa. São os chocalhos que, à roda do petisco e por brincadeira, meia dúzia de confrades lá para as bandas de Vila Verde de Ficalho começaram a tocar e que todos os anos demandam as terras altas da Gardunha, os bombos e os tambores, as gaitas de foles e as flautas, numa mistura prenhe de alegria e animação que a todos invade.
Salientamos, pela beleza e grande qualidade, o concerto da Teresa Salgueiro e do Lusitânia Ensemble. Num ambiente quase irreal criado pelos jogos de luz sobre o largo do Chafariz, as empenas do Palácio do Picadeiro e as arvores circundantes, pela voz única da artista e pela música com que se fez acompanhar nesta versão da Matriz – a nossa matriz musical, ouvimos desde D. Dinis a Lopes Graça, do fado ao folclore, de Carlos Paredes até Fausto, num percurso rico e variado de sons e emoções.

A Aldraba, presente mais uma vez na Festa, contribuiu este ano com a apresentação dos Cadernos Temáticos e, indirectamente, com o lançamento dos Cadernos de Areia – livro de poemas da autoria do Luís Filipe Maçarico.


Desejamos longa vida ao Festival dos Chocalhos e da Transumância, sempre com a mesma qualidade e a mesma hospitalidade a que já nos habituou.

MEG
Fotos de Luís Filipe Maçarico, Luís Franco e MEG

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Em defesa do Zé Povinho



A figura do Zé Povinho é uma, entre tantas outras, das figuras relevantes do imaginário português dos séculos XIX e XX – que, convém lembrar, foram os séculos em que nasceram, cresceram e se tornaram adultos TODOS os portugueses que têm agora mais de nove anos, e em que nasceram os seus pais e avós, ou seja, as gerações cujas experiências e cujas memórias marcam o nosso presente e o nosso futuro próximo.

Segundo a Wikipédia, o Zé Povinho é uma personagem de crítica social, criada por Rafael Bordalo Pinheiro, que apareceu pela primeira vez em “A Lanterna Mágica”, a 12 de Junho de 1875, num desenho alusivo aos impostos (onde se representava Fontes Pereira de Melo, vestido de Stº António com o "menino" D. Luís I ao colo, enquanto Serpa Pimentel, Ministro da Fazenda, sacava o dinheiro do Zé, que permanecia boquiaberto a coçar a cabeça, vestido com um fato rural gasto e roto).
Nos números seguintes da “Lanterna Mágica”, o Zé Povinho continuou a surgir de boca aberta e a não intervir, resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos e ignorante das grandes questões. O próprio Rafael Bordalo Pinheiro diz que “o Zé Povinho olha para um lado e para o outro e... fica como sempre... na mesma".
Como refere João Medina, o Zé Povinho é uma figura cheia de contradições: "Se ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer (…) simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente...".
Tem como característica principal o gesto do manguito como expressão de revolta e insolência, criticando de forma humorística os problemas sociais e políticos da sociedade portuguesa, e caricaturando o povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.
Para Miguel Sousa Tavares, na crónica de 19.9.2009 que publicou no semanário Expresso, “o Zé Povinho representa o pior de Portugal, pelos manguitos que faz aos poderosos, não por serem poderosos mas por os invejar… E que só o faz pelas costas. Porque, pela frente, come e cala, não arrisca nada de nada, etc.”
Associamo-nos a quem, na internet, vem recordar que foram muitos os Zés Povinhos que durante os anos de escuridão foram lutando por direitos sociais e pelo direito de livre expressão de que ele abusa.
Segundo o blogue “Zé Povinho”
“o Zé é um bom português, dos verdadeiros, sem casas na Lapa nem montes no Alentejo, só porque isso dá algum status e dá uma imagem de sucesso que todos deviam invejar, mesmo aqueles por quem o Miguel nutre um ódio doentio – todos os Zés Povinhos...”
JAF