quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Pérolas do ensino primário do fascismo


Reprodução do essencial da crónica "Medidas coercivas" publicada no "Público" de 2/2/2021:

(…) raios partam o antigo ensino primário e os resquícios irremovíveis que me tingem a mona desde que eu lá os enfiei para passar o exame da 4ª classe.

É uma lixeira a céu aberto, entrecortada por nomes de linhas ferroviárias e afluentes, sistemas orográficos, cidades tropicais que já há muito rejeitaram os nomes embaraçosos que lhes demos, peculiaridades ornitológicas, ditongos, trajos regionais e tragédias passadas com lobos.

Gosto de passear lá com outros sobreviventes, comparando ignorâncias e teimosias. Um dos setores mais acidentados é o das medidas que tentaram incutir-nos numa fútil tentativa de resistirmos ao sistema decimal.

Dessa lavagem cerebral só me restou uma surpresa: o quarteirão de sardinhas, que são vinte e cinco, já um quartilho são um quarto de 25, que dá meia dúzia mais uma sardinha a dividir por quatro.

Um almude de vinho são 30 litros (…). Meio almude, para os tête à tête mais confinados, são 15 litros. E um cântaro quantos decilitros tem? E um escrópulo? E um arrátel de milho-painço, quantas braças dá? Em querendo comprar uma canada de centeio, quantas arrobas sobram para pôr a mondar na eira brava?

Indo para a feira com duas pisgóias de tremoço seco e um xágara de água do poço, em querendo trocá-los por fangas de pevides, quantas posso pedir sem correr o risco de ser apedrejado?

Com uma toesa de salmoura e um salamim de bacalhau desfiado, quantas pulgadas galegas tenho de percorrer para assolhar os rebites de mordaça do boi?

Mentiria se dissesse que já soube as respostas a estas perguntas. Mas já soube.

Miguel Esteves Cardoso



 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Continua a luta para que não destruam o nosso passado mouro


 







Através do post "Não destruam o nosso passado mouro", que publicámos em 17/10/2020 neste blogue, juntámos a modesta voz da ALDRABA à de tantos e tantas que protestavam contra a intenção, que existiu nas autoridades portuguesas da cultura, de autorizar o desmantelamento de algumas importantes estruturas da Grande Mesquita de Lisboa (séc. XII) que foram descobertas nas escavações arqueológicas em curso nos claustros da Sé de Lisboa.

Demos notícia, nessa altura, de que a administração da DGPC (Direção-Geral do Património Cultural) havia desautorizado a posição especializada das suas arqueólogas Alexandra Gaspar e Ana Gomes, que entendiam ser desejável procurar soluções técnicas que contrariassem o alegado problema da "segurança estrutural da Sé".

A enérgica tomada de posição do Sindicato dos Trabalhadores em Arqueologia, e outras atitudes veementes de muitos técnicos portugueses do setor, levaram a DGPC a tentar ganhar tempo, remetendo o assunto para o Conselho Nacional da Cultura, mas também levaram a Ministra Graça Fonseca, num despacho que aplaudimos, a anunciar que "face aos mais recentes achados arqueológicos, e tendo em conta o valor patrimonial das estruturas descobertas (...) decidiu, em diálogo com o Patriarcado de Lisboa, que os mesmos devem ser conservados, musealizados e integrados no projeto de recuperação e musealização da Sé Patriarcal de Lisboa".

A secção de património arquitetónico e arqueológico do CNC solicitou pareceres a um conjunto de peritos, recebidos e analisados já no corrente mês de janeiro de 2021, pareceres esses que são unânimes em recomendar a salvaguarda dos achados islâmicos em causa.

Assinam esses pareceres Felix Arnold, Rosa e Mário Varela Gomes, e Santiago Macias, os quais reconhecem a genuinidade dos vestígios islâmicos, ainda que assinalem "não existir evidência" de que os mesmos se integrassem na mencionada mesquita aljama de Lisboa. 

Em reunião de 13/1/2021, o CNC deliberou solicitar à equipa projetista a alteração do projeto para promover a "valorização e salvaguarda" dos vestígios islâmicos encontrados.

Em 28/1/2021, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou na Assembleia da República um projeto de Resolução, visando recomendar ao Governo que (1) proceda à revisão do projeto de obras para assegurar a salvaguarda integral do conjunto monumental de estruturas arqueológicas islâmicas da Sé de Lisboa, garantindo a sua valorização e adequada integração museológica, e (2) crie todas as condições necessárias para a investigação e publicação integral, monográfica, dos resultados das intervenções arqueológicas desenvolvidas no claustro da Sé, entre 1990 e 2021, promovendo um amplo e bem documentado debate científico e académico sobre os mesmos.

O facto de a DGPC não ter publicitado na íntegra os pareceres dos especialistas consultados, pode colocar em causa a transparência do processo e a possibilidade de um efetivo escrutínio pelos vários interessados. À comunicação social, o Diretor-Geral do Património Cultural afirmou que só serão publicitados após a conclusão do processo de decisão. Ora, tal poderá traduzir-se na política do facto consumado, tão nefasta nestes domínios.

Tudo recomenda que todos nós, cidadãos informados, associações de defesa do património e agentes políticos, continuemos atentos e ativos nesta luta contra a "destruição do nosso passado mouro"!

JAF
 

 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Obrigado, Zé Chitas


 







José Carreiro Domingues Chitas, o nosso Zé Chitas, acaba de nos deixar, vítima de um acidente vascular cerebral agravado com o vírus da covid-19 contraído em meio hospitalar.

Associado da Aldraba desde a primeira hora, tendo participado na AG constituinte de 25/4/2005, e em muitas atividades realizadas (lembramos a sua presença calorosa nos Encontros do Fundão, de Alcoutim e de V.F.Xira, e no Jantar-tertúlia dos 40 anos do 25 de abril), o Zé Chitas foi um companheiro atento, crítico e solidário que nos deixa uma grande saudade.

Como cidadão, foi um professor primário muito respeitado, autarca exemplar do Município de Mora durante diversos mandatos, militante político empenhado, associativista ativo na Casa do Alentejo e noutras estruturas, tendo vindo a ser reconhecido e homenageado por todos esses meios, que lhe expressaram a sua maior gratidão. Hoje, 28/1/2021, é dia de luto municipal em Mora.

Também nós, Associação Aldraba, queremos agradecer singelamente ao Zé Chitas o que fez connosco e por nós, com um abraço muito comovido!

JAF

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O acervo documental da Aldraba (20): Agricultura









Durante os 15 anos de existência da associação ALDRABA, e nos 28 números já publicados da nossa revista semestral, foi produzido um vasto espólio de análises e testemunhos acerca do património popular português.

Continuamos hoje a publicitação da lista dos textos que constam do nosso acervo documental, por descritores temáticos.

Desta vez, reproduzimos as referências dos artigos publicados que se integram no descritor relativo à agricultura (grupo temático “Atividades económicas”):

 

AGRICULTURA

Edviges Apolinário, “Paisagens e produção agrícola na aldeia de Ferraria”, nº 25 (Abr.2019), p.7

Fernando Estevens, “Entre alimentação e comida, até à memória de cheiros esquecidos”, nº 28 (Out.2020), p.2

João Coelho, “O regadio tradicional da aldeia do Mosteiro”, nº 22 (Out.2017), p.14 [Retificação no nº 23 (Abr.2018), p.7]

Lídia Silvestre, “Na ceifa, um verão diferente”, nº 26 (Out.2019), p.20

Luís Filipe Maçarico, “Batata doce - Associativismo em tempos de contenção. O singular caso da ADPHA”, nº 27 (Abr.2020), p.18

Ondina Albino, “O linho”, nº 28 (Out.2020), p.24

 

Os amigos que pretendam aceder a alguns destes textos e que se manifestem por mensagem enviada para aldraba@gmail.com receberão uma cópia digitalizada dos artigos que indicarem.

JAF 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Votos de um bom 2021


 








A Associação ALDRABA deseja a todos os associados, amigos e familiares, bem como às coletividades e autarquias que nos têm apoiado e com as quais temos interagido, um novo ano de 2021 com saúde e energia, e com perspetivas de paz e progresso.

Contamos com todos vós, e contem todos connosco! 

JAF


sábado, 26 de dezembro de 2020

Os saltimbancos do século XXI


 












Nos dicionários online da língua portuguesa, um saltimbanco é um “histrião que exibe as suas habilidades na via pública ou nas feiras, em geral num estrado” e também um “farsante, pelotiqueiro”, ou, em sentido figurado, um “indivíduo indigno de confiança ou consideração”.

De um modo geral, os conceitos oficiais desconsideram estes artistas, e são profundamente injustos para com quem trabalha honestamente para divertir os seus concidadãos, desenvolvendo habilidades e aptidões a que as pessoas “normais” não conseguem aceder, a troco de incertas e inseguras gratificações que são o seu único ganha-pão.

Dos mais velhos entre nós, quem não se lembra destas “trupes” de saltimbancos, constituídas por três ou quatro amigos ou familiares, geralmente muito pobres, às vezes incluindo alguns animais adestrados, que se iam exibindo nas ruas e largos das nossas aldeias ou vilas, fazendo habilidades com massas ou bolas, engolindo petróleo e expelindo fogo, maravilhando a imaginação das crianças e adultos?

Em 2020, tanta coisa mudou… A pobreza “democratizou-se”, e a globalização tem consequências inesperadas!

Do Canadá, país para onde milhares de portugueses emigraram para trabalhar, vem uma jovem rapariga, que tem andado a estudar artes circenses no nosso país, e procura ganhar alguns euros (ou cêntimos) com artes de fogo nos semáforos da cidade de Lisboa.

Aqui está ela a trabalhar num cruzamento da Avenida dos Estados Unidos da América…

JAF


domingo, 20 de dezembro de 2020

"Websummit" - que cultura?


 
















O amigo e associado da ALDRABA, e prestigiado cartoonista, Luís Afonso, que desde o nº1 ilustra continuadamente a nossa revista, nos seus últimos 15 anos, questiona nesta recente banda desenhada as opções governamentais de apoio à cultura.

Obrigado, Luís, pela tua vigilância e por manifestares, de forma bem disposta, aquilo que muitos (todos?) de nós sentimos.

JAF