quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A trança


Reproduzimos, com a devida vénia, um texto da nossa amiga Natércia Duarte que ela publicou há dias na sua página de facebook:


Ela tinha o cabelo prateado, da cor que a lua tem quando está alta. Era macio e tão comprido que, quando liberto da trança, lhe afagava a cintura, também ela fina, apesar da idade e dos muitos filhos que a tinham abraçado por dentro.

Durante o dia, o seu cabelo vivia aprisionado no alto da sua cabeça, como se um encantamento o tivesse transformado em flor. Flor redonda e bela. Tão quieta.

Mas quando a noite chegava, quebrava-se o feitiço, e nas sombras do candeeiro ou na luz coada do luar, as pétalas daquela flor desfaziam-se e transformavam-se em rio.

- Posso pentear-te, avó?

Guiado pela minha mão direita, o pente descia devagar, distribuindo os fios de prata pelas costas… a mão esquerda descia atrás, acariciando os fios mais rebeldes… 

Por fim, os dedos da minha avó, transformados em agulhas de bordar, dividiam o rio em três ribeirinhos que sabiam dançar a dança de entrelaçar cabelos.

- Já está, vamos dormir. – dizia a avó, dando o último retoque na atadura da trança.

- Está bem, avó. Mas não se esqueça do conto.

Os lençóis de linho lavados na ribeira cheiravam a sabão e a esteva. 

Eu aconchegava-me no calor morno da sua pele, ouvia a sua voz tecendo palavras de contar histórias e adormecia sonhando que a trança era uma corda para salvar princesas da torre, para descer a poços fundos e negros em busca de tesouros ou para subir aos telhados como os gatos que namoram as estrelas.


Natércia Duarte, 24/8/2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O acervo documental da Aldraba (8bis): Doçaria e gastronomia

Ao longo dos 20 anos em que tem vindo a ser publicada, a revista "Aldraba" divulgou já dezenas de especialidades doceiras e gastronómicas da nossa terra.

Em 21/7/2013, no post n.º 8 desta série, indicámos aqui os 9 artigos publicados até essa altura na revista relativamente a doces, comidas e bebidas portuguesas.

Atualizamos hoje essa lista, incluindo todos os textos que entretanto foram publicados e que se referem aos dois descritores temáticos em causa:


Augusto Fernandes, “Viagem à terra do vinho dos mortos”, n.º 19 (Abr.2016), p.13

Carlos Cunha, “Pastel de feijão de Torres Vedras”, n.º 3 (Jun.2007), p.18

Carlos Vicente, “Os fornos do povo - catedrais do pão”, n.º 34 (Out.2023), p.6

Fernando Estevens, “Entre alimentação e comida, até à memória de cheiros esquecidos”, n.º 28 (Out.2020), p.2

João Coelho, “A confeção tradicional da broa numa aldeia beirã”, n.º 23 (Abr.2018), p.16

José Manuel Prista, “A ASAE e os sabores”, n.º 5 (Jul.2008), p.19

Luís Afonso, “ASAE”, n.º 5 (Jul.2008), verso da capa

Luís Afonso, “Dinheiros públicos”, n.º 8 (Dez.2009), verso da capa

Luís Afonso, “Nouvelle cuisine”, n.º 18 (Out.2015), verso da capa

Luís Ferreira, “Açorda de alho”, n.º 23 (Abr.2018), p.18

Luís Filipe Maçarico, “Afonso Miranda do ‘Sino Doce’ de Almada: Uma vida de muito trabalho ambicionando a qualidade”, n.º 26 (Out.2019), p.23

Luís Filipe Maçarico, “Batata doce - Associativismo em tempos de contenção. O singular caso da ADPHA”, n.º 27 (Abr.2020), p.18

Luís Filipe Maçarico, “Gastronomia alentejana: tradição identitária com alguma instabilidade”, n.º 39 (Abr.2026), p.18

Luís Reis Ágoas, “A caneja de infundice na Ericeira”, n.º 12 (Out.2012), p.15

Manuel Mamede Pereira, “Ser alfacinha”, n.º 13 (Abr.2013), p.15

Margarida Alves, “Queijadas de Sintra”, n.º 7 (Jul.2009), p.15

Maria de Lurdes Pereira, “Licor Beirão: biografia de um sabor português”, n.º 39 (Abr.2026), p.16

Nuno Roque da Silveira, “As cavacas de Mação”, n.º 37 (Abr.2025), p.24

Nuno Roque da Silveira, “Grandes artistas do efémero”, n.º 8 (Dez.2009), p.17

Nuno Roque da Silveira, “O queijo da Serra de Fornos de Algodres”, n.º 20 (Out.2016), p.22

Nuno Roque da Silveira, “Tigeladas e outros doces”, n.º 38 (Out.2025), p.14

Olga Cavaleiro, “As confrarias gastronómicas de Portugal”, n.º 25 (Abr.2019), p.14

Vanda Oliveira, “Os fofos de Belas”, n.º 6 (Dez.2008), p.9


Como sempre, qualquer associado ou amigo que deseje aceder a algum ou alguns destes artigos pode solicitá-lo por um simples mail para aldrabaassociacao@gmail.com, e teremos todo o gosto em o(s) reproduzir e enviar.


JAF  

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Mamíferos selvagens em Portugal (6) - Veados


 


Ocupemo-nos hoje da 6.ª espécie zoológica incluída entre os 19 animais referenciados em 17/9/2025, no primeiro post desta série, como mamíferos selvagens avistados em Portugal nos últimos anos.

É chegada a vez dos veados, cientificamente designados como cervus elaphus, de pelagem castanho-acinzentada no inverno e mais avermelhada no verão, que são considerados como o maior mamífero em estado selvagem em Portugal, chegando a medir mais de dois metros de comprimento e a pesar mais de 170 kgs.

Nos últimos 50 a 70 anos e após um forte decréscimo, a espécie tem consolidado a sua presença no nosso país, em alguns casos com apoio humano, como aconteceu no programa de reintrodução do veado na Serra da Lousã, que o biólogo e investigador Carlos Fonseca acompanha desde 1995. Além desta população, entre as maiores estão a do Parque Natural de Montesinho, no nordeste transmontano, a do Tejo Internacional e a da Tapada Nacional de Mafra.

Este herbívoro encontra descanso e refúgio em zonas florestais e de habitats com densa cobertura, das quais sai para se alimentar em áreas mais descobertas, de matos e pastagens.

É nas áreas abertas que se torna mais fácil avistá-los durante os meses de outono, quando ocorre a "brama" - nome relacionado com os bramidos que os veados machos emitem durante a época de reprodução, que acontece todos os anos entre setembro e novembro, durando cerca de um mês. Os sons fortes e guturais servem para afastar outros machos e atrair as fêmeas. Os comportamentos e fortes vocalizações da brama são comuns de madrugada e ao crepúsculo. 

É nestes períodos que decorrem habitualmente as visitas de observação do veado na natureza, que devem fazer-se com o apoio de operadores especializados e guias.

Os jovens machos ganham as suas primeiras hastes, umas pequenas protuberâncias ainda não ramificadas, no primeiro ano de vida, embora só se estreiem na brama após os dois ou três anos de idade. À medida que os anos passam, a armação vai alterando o seu tamanho, espessura e número de ramificações. O desenvolvimento máximo acontece por volta dos oito a doze anos de idade.

JAF (foto e informações recolhidas na internet)