Reproduzimos, com a devida vénia, um texto da nossa amiga Natércia Duarte que ela publicou há dias na sua página de facebook:
Ela tinha o cabelo prateado, da cor que a lua tem quando está alta. Era macio e tão comprido que, quando liberto da trança, lhe afagava a cintura, também ela fina, apesar da idade e dos muitos filhos que a tinham abraçado por dentro.
Durante
o dia, o seu cabelo vivia aprisionado no alto da sua cabeça, como se um
encantamento o tivesse transformado em flor. Flor redonda e bela. Tão quieta.
Mas
quando a noite chegava, quebrava-se o feitiço, e nas sombras do candeeiro ou na
luz coada do luar, as pétalas daquela flor desfaziam-se e transformavam-se em
rio.
-
Posso pentear-te, avó?
Guiado pela minha mão direita, o pente descia devagar, distribuindo os fios de prata pelas costas… a mão esquerda descia atrás, acariciando os fios mais rebeldes…
Por fim, os dedos da minha avó, transformados em agulhas de bordar, dividiam o
rio em três ribeirinhos que sabiam dançar a dança de entrelaçar cabelos.
-
Já está, vamos dormir. – dizia a avó, dando o último retoque na atadura da
trança.
-
Está bem, avó. Mas não se esqueça do conto.
Os lençóis de linho lavados na ribeira cheiravam a sabão e a esteva.
Eu
aconchegava-me no calor morno da sua pele, ouvia a sua voz tecendo palavras de
contar histórias e adormecia sonhando que a trança era uma corda para salvar
princesas da torre, para descer a poços fundos e negros em busca de tesouros ou
para subir aos telhados como os gatos que namoram as estrelas.
Natércia Duarte, 24/8/2026

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