quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A trança


Reproduzimos, com a devida vénia, um texto da nossa amiga Natércia Duarte que ela publicou há dias na sua página de facebook:


Ela tinha o cabelo prateado, da cor que a lua tem quando está alta. Era macio e tão comprido que, quando liberto da trança, lhe afagava a cintura, também ela fina, apesar da idade e dos muitos filhos que a tinham abraçado por dentro.

Durante o dia, o seu cabelo vivia aprisionado no alto da sua cabeça, como se um encantamento o tivesse transformado em flor. Flor redonda e bela. Tão quieta.

Mas quando a noite chegava, quebrava-se o feitiço, e nas sombras do candeeiro ou na luz coada do luar, as pétalas daquela flor desfaziam-se e transformavam-se em rio.

- Posso pentear-te, avó?

Guiado pela minha mão direita, o pente descia devagar, distribuindo os fios de prata pelas costas… a mão esquerda descia atrás, acariciando os fios mais rebeldes… 

Por fim, os dedos da minha avó, transformados em agulhas de bordar, dividiam o rio em três ribeirinhos que sabiam dançar a dança de entrelaçar cabelos.

- Já está, vamos dormir. – dizia a avó, dando o último retoque na atadura da trança.

- Está bem, avó. Mas não se esqueça do conto.

Os lençóis de linho lavados na ribeira cheiravam a sabão e a esteva. 

Eu aconchegava-me no calor morno da sua pele, ouvia a sua voz tecendo palavras de contar histórias e adormecia sonhando que a trança era uma corda para salvar princesas da torre, para descer a poços fundos e negros em busca de tesouros ou para subir aos telhados como os gatos que namoram as estrelas.


Natércia Duarte, 24/8/2026

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