quarta-feira, 7 de maio de 2014

A picota, um engenho do património popular

















Texto do artigo do presidente da Assembleia Geral, João Coelho, publicado no n° 15 da revista ALDRABA, que é lançada no sábado, 10 de maio próximo, na SFUCO.
Engenho tradicional muito elementar e simples, destinando-se à elevação de água dos poços e rios com reduzido desnível, sendo manejado por homens e mulheres numa agricultura familiar e de minifúndio.

A sua origem perde-se nas brumas do tempo, sabendo-se já da sua utilização na antiga Mesopotâmia, vindo depois para a Europa, com grande disseminação no nosso País, em especial no Norte e no Centro, onde adquiria, consoante a região, outras denominações, como: cegonha, picanço, bimbarra, burra-cega. A singularidade de um território pequeno mas tão imenso na sua diversidade linguística e consuetudinária.

De composição tão singela, o fabrico e montagem deste engenho era encargo do agricultor com o recurso a materiais locais e próprios, usualmente madeira de oliveira, pinheiro e eucalipto. A excepção era o balde. Apanágio de que “a necessidade aguça o engenho”, num tempo em que a dura realidade teria dado azo ao belo poema de Gedeão: “Os homens da minha aldeia/formigam raivosamente/com os pés colados ao chão./Nessa prisão permanente/cada qual é seu irmão…”. (do poema Minha Aldeia, de António Gedeão)

A picota não é mais que uma máquina simples para facilitar o trabalho do homem, sendo composta por um poste vertical (OT), enterrado no solo e encimado por uma forquilha, onde se situa o eixo (fulcro) da vara, funcionando esta como uma alavanca interfixa.

Numa das pontas desta vara é fixo o contrapeso (resistência); na outra, é pendurada a vara de mão, de formato fino e alongado, para poder ser manejada entre mãos.

Comparando a picota com a alavanca interfixa, é de referir:
O braço da resistência (OR) e da potência (OP) pouco diferem na sua dimensão, somando ambas um comprimento médio de cerca de 6 metros. As suas massas (pesos) são igualmente comparáveis, tendo o balde uma capacidade entre os 15 e 20 litros. Contudo, são notórias as vantagens funcionais deste engenho alavanca: maior comodidade de manuseamento, repartição do esforço nos sucessivos movimentos de vaivém, a possibilidade de obtenção da água.

Sendo a resistência R exercida pelo contrapeso, a potência P é a força necessária para a relação físico-matemática: R x OR = OP x P. O contrapeso tem ainda uma outra utilidade: a estabilização da vara, também conhecida por balança, quando a picota está inactiva.

O manuseamento da picota é um trabalho penoso e duro, situação comprovada pelo autor deste artigo em meados do século XX. Então, na minha aldeia, no concelho de Pedrógão Grande, homens e mulheres operavam com ela horas a fio, sem descanso, com o rosto e corpo humedecidos pelo suor. Um trabalho de força e experiência feita, não vá o balde cair ao poço, bem como o próprio manobrador, uma vez que o balde, ao tocar no plano da água, é objecto de um lanço para que se “deite” horizontalmente e se encha rapidamente, iniciando-se logo a sua elevação.

A água do balde é vertida numa pia ou cova no terreno, que, por sua vez, se liga à regueira condutora da água até às leiras da horticultura, cuja rega, denominada rega pelo pé, era assegurada por uma outra pessoa, normalmente descalça e operando com um sacho.

Hoje, com os motores movidos a energia, os tradicionais engenhos de elevar água, como a picota, a nora e outros, foram desaparecendo do imaginário bucólico dos campos. E nem se espera que retornem, apesar dos camponeses se confrontarem hoje com os elevados custos da energia e do efeito nefasto dos que minimizam, quando não ignoram, o esforço e valor dos que trabalham a terra.

Contudo, a verdade de vidas e tempos tão difíceis, as suas memórias, impõem que a picota, como os demais engenhos tradicionais de elevar a água, não sejam liminarmente esquecidos e integrem o nosso rico património popular, dado o papel insubstituível que tiveram durante séculos. Não apenas pela sua função, mas ainda por uma musicalidade tão singular: a incessante e doce chiadeira ecoando no silêncio dos campos, quando não interrompidos pelo cantarolar dos homens e mulheres que, ali, os tinham por solitários companheiros.

Serão hoje, porventura, corpos mortos, mas com vida justamente gravada na história, contrariando a mensagem da quadra popular: “Passei à história sem qualquer mágoa, / ninguém me poderá socorrer, / chegaram os motores de puxar agua / e acabei por morrer…” (do blogue: continuaravida.blogspot.com/2013/02/picotacegonha.html)

João Coelho

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