sábado, 24 de outubro de 2020

O livro como património

(...) a civilização que inventou o livro tal como até aqui o conhecemos, inventou também as condições requeridas para a sua leitura e que essas nos modelaram antropologicamente durante séculos e constituem um património cultural que precisamos de preservar. 

Pois quem inventou o livro inventou o silêncio da leitura; inventou essa forma íntima de temporalidade que torna o encontro com o livro indissociável do encontro connosco próprios; inventou a atenção e a curiosidade; inventou um regime social onde a atividade intelectual era admitida; inventou o direito universal à alfabetização; inventou o indivíduo e a vida privada; inventou a confiança na consistência da linguagem e as bibliotecas; inventou os sistemas críticos e hermenêuticos que garantem não só a legibilidade dos livros, mas a compreensão do mundo; inventou o humanismo e a liberdade de expressão, que é sempre inseparável da liberdade de ser. 

O livro acompanhou o nascimento e expansão das línguas modernas do Ocidente, e assistiu ao desenvolvimento das suas possibilidades expressivas. 

Quem inventou o livro inventou uma certa forma de produzir história e também a figura de leitor que ainda somos. 

Temo-nos de perguntar o que podemos fazer para valorizar este extraordinário património.

José Tolentino Mendonça, in "Expresso", 24/10/2020

sábado, 17 de outubro de 2020

Não destruam o nosso passado mouro!


 







Conforme assinalou o historiador Rui Tavares no "Público" de 28/9/2020, entre a entrada das primeiras tropas muçulmanas na Península Ibérica (ano 711) e a reconquista cristã do Algarve (1249) mediaram praticamente cinco séculos e meio.  "Momento único da história da civilização, quando centros de conhecimento como Córdova faziam ponte entre Oriente e Ocidente e preservavam boa parte da literatura legada pelos gregos antigos" traduzida para árabe e depois retraduzida para latim, comenta o mesmo R.Tavares. E prossegue esse autor: se em Portugal a riqueza da filosofia medieval e renascentista é principalmente judaica, "a poesia que os muçulmanos nos legaram é da mais bela que foi escrita e cantada neste território".

Apesar da importância que o referido período teve em Portugal, quase não há monumentos desse nosso passado (R.Tavares cita os poucos exemplos que restam no Castelo de Silves, no Palácio de Sintra, na Matriz de Mértola, e nuns arcos do Castelo de São Jorge).

É neste contexto que tanto chocou a recente notícia de que a Direção-Geral do Património Cultural se preparava para autorizar o desmantelamento de algumas importantes estruturas da Grande Mesquita de Lisboa (séc. XII) que foram descobertas em escavações arqueológicas em curso nos claustros da Sé de Lisboa. As intenções da DGPC foram denunciadas pelo Sindicato dos Trabalhadores de Arquitetura.

Duas arqueólogas da DGPC que trabalham nas escavações da Sé há mais de 20 anos, Alexandra Gaspar e Ana Gomes, manifestaram-se corajosamente contra tais propósitos, que assentavam em considerações sobre a "segurança estrutural da Sé", sem se cuidar de procurar soluções técnicas que contrariassem o problema.

Em paralelo, correu um documento público de protesto contra os intentos da DGPC, subscrito pelos mais destacados técnicos portugueses de arqueologia, em que se incluía o conceituado Santiago Macias, associado da Aldraba.

O diretor-geral da DGPC, Bernardo Alabaça, ainda veio pressurosamente anunciar a convocação, sobre esta matéria, da secção de património arquitetónico e arqueológico do Conselho Nacional de Cultura, para emitir um "parecer vinculativo". Mas a ministra da Cultura, em comunicado publicitado em 14/10/2020, veio pôr fim à controvérsia, anunciando que "face aos mais recentes achados arqueológicos, e tendo em conta o valor patrimonial das estruturas descobertas (...) decidiu, em diálogo com o Patriarcado de Lisboa, que os mesmos devem ser conservados, musealizados e integrados no projeto de recuperação e musealização da Sé Patriarcal de Lisboa".

Esta última decisão foi já aplaudida pelas vozes mais lúcidas do setor, a que a Aldraba se vem associar modestamente. E queremos sublinhar que vale sempre a pena resistir e combater as quotidianas iniciativas de atentado ao património, venham elas de onde vierem...

JAF



 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O acervo documental da Aldraba (19) - Madeira

 

Continua a publicitação dos textos que constam do nosso acervo documental, por temas.

Divulgamos desta vez os trabalhos que saíram na revista "Aldraba" relativos ao descritor MADEIRA, integrado no grupo temático “Regiões portuguesas e lusófonas”:


MADEIRA

Graça Alves, “De alguns ofícios do mar: O bombote e a mergulhança”, nº 26 (Out.2019), p.19

Graça Alves, “Entre a vida e a história”, nº 27 (Abr.2020), p.10

Sónia Frade, “Um olhar sobre o legado do açúcar na Madeira”, nº 4 (Dez.2007), p.14

Sónia Marques, “Os remates dos telhados madeirenses”, nº 19 (Abr.2016), p.2


Os amigos que pretendam aceder a alguns destes textos e que se manifestem por mensagem enviada para aldraba@gmail.com receberão uma cópia digitalizada dos artigos que indicarem.

JAF

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Os primórdios da indústria dos lanifícios em Portugal


Gerente e operários junto à fábrica de Pêro Mouro, durante a fase de construção da unidade, em Taliscas, Covilhã, finais do século XIX.

Como se vê na imagem, naquela época, uma boa parte da força laboral era constituída por crianças e jovens.


Hélder Carvalho Martins, in "Memória de Portugal - dois séculos de fotografia", Atlântico Press, Lisboa, 2020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Trás-os-Montes, de ontem, de hoje e de sempre





Trás-os-Montes é uma região do nosso país que se caracteriza pela dureza da sua orografia, a qual em muito tem contribuído para a resistência e rijeza das suas gentes, desde os tempos mais remotos da nacionalidade. 

Um relato muito belo sobre essas terras no século XIV, da parte do historiador António Borges Coelho, dá-nos uma imagem muito impressiva do contexto natural da região, em termos que poderiam ser escritos nos séculos posteriores e até na atualidade:


A terra esfiapa-se entre rochedos, avolumando aqui e além em vale macio e úbere, e as rochas, solitárias ou em grandes massas, erguem-se no silêncio, enquanto o castanheiro solene e altivo, de tronco cavado e velho, se recusa a morrer e oferece a ternura das castanhas nos ouriços agressivos.

Isolam Trás-os-Montes as muralhas do Gerez, da Cabreira, do Marão, a Oeste; Larouco, Padrela, Coroa e Montesinho vigiam os montes de Castela, embora os dois povos apertem as mãos como em Rio de Onor; e o Douro é um fosso de fortaleza medieval. Escorre, espuma, salta a Sul e a Leste, ameaça com a força das correntes e o barro das águas, para logo se apaziguar em ilhotas de terra e brincar com milhóes de pedras polidas que amontoa no seu leito.

António Borges Coelho, "A Revolução de 1383", Portugália Editora, Lisboa, 1965, p.32


sábado, 29 de agosto de 2020

D. Sebastião de volta ao Rossio











Noventa fragmentos e mil cuidados: D. Sebastião de volta ao Rossio

Estátua de 1891 foi destruída em 2016 e a colagem dos pedaços decorreu este Verão. Regressa esta quinta-feira à estação.

Agosto tem tido uma meteorologia atípica, mas as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para esta quinta-feira parecem estranhamente adequadas à ocasião: céu muito nublado e aguaceiros em quase todo o país. Os sebastianistas mais empedernidos não sonhariam melhor – o monarca regressa, já não em corpo e glória para conduzir o país ao Quinto Império, mas na forma de uma estátua que se julgava irrecuperável.

Está concluído o restauro da escultura de D. Sebastião que decorava a fachada da Estação do Rossio e que há quatro anos foi destruída por um homem que nela se empoleirou para tirar uma selfie.

A colagem dos fragmentos decorreu nos últimos dois meses. “Falta-nos o último desafio, que é o transporte”, diz Bruna Oliveira, revelando algum nervosismo com a operação marcada para esta quinta-feira. Um camião especificamente vocacionado para transportar obras de arte virá até ao rés-do-chão de Algés em que funciona a empresa de conservação e restauro Água de Cal, seguindo para o Rossio envolto em mil cuidados. “Esta peça, apesar de estar de pé, está muito frágil”, avisa a responsável pelo trabalho.

Quando aqui chegou no final de Junho, este D. Sebastião era uma amálgama de pedaços de diferentes dimensões a que os técnicos tiveram de dar sentido. Até para eles o resultado final foi uma surpresa. “Neste caso eu própria me surpreendi com faltarem tão poucas peças”, afirma Bruna Oliveira. No fim da intervenção, colados 90 fragmentos, reconhece-se novamente a figura do rei, quase à escala real, e há pedras que vão ser devolvidas à Infra-Estruturas de Portugal (IP) por não terem sido precisas.

A empresa pública que gere as estações de comboios guardou todos os pedaços numa sala desde 2016 e até entregou aos restauradores coisas que não pertenciam à estátua. Esse zelo, sublinha Bruna, permitiu o sucesso do trabalho. “Eles guardaram mesmo tudo!”

A IP decidiu que este D. Sebastião ficará a partir de agora no interior da estação, no átrio, “ficando em espelho com a réplica que futuramente será colocada no nicho da fachada”, explica fonte oficial. A construção da réplica ainda não está contratada.

“O restauro foi feito tendo em conta que a estátua vai para o interior, que não vai estar em contacto com a chuva nem com o vento forte”, diz Bruna Oliveira. Apesar de ser novamente uma figura una e de estar limpa de sujidade, um olhar atento facilmente reconhece as zonas degradadas. Esculpida num único bloco de calcário (e não lioz, como se chegou a pensar), a estátua “já tinha muitas reconstituições”, explica a conservadora-restauradora, apontando para os dedos do monarca, o medalhão ao peito, a espada, a fivela e os castelos do escudo como zonas em que a argamassa tinha já substituído a pedra.

“Este calcário é muito fácil de esculpir, mas tem pouca durabilidade no exterior porque tem uma absorção de água muito elevada”, diz, concordando que a peça “não tem condições” para ficar novamente exposta aos elementos. “Se fizerem a réplica no mesmo material, daqui a 50 anos não vai estar em bom estado.”

À semelhança das antigas intervenções que foram reparando os defeitos da escultura, também esta recorreu à argamassa para lhe dar a coerência devida. Isso aconteceu, por exemplo, na cabeça do rei, a parte mais danificada com a queda. Foi preciso reconstruir-lhe a nuca. “A intervenção não tenta dissimular o original, mas discernir de forma harmoniosa o que é a peça original e o que é a intervenção”, explica a responsável, sublinhando que o trabalho agora feito é reversível mais tarde, se assim se entender.

Mais invisível e mais permanente é o que foi feito para garantir a integridade da peça. Ao pô-la de pé tornou-se inevitável incluir pequenos varões de inox e fibra de vidro para que ela não desmoronasse. “Não dá para descolar”, garante Bruna Oliveira.

Habituada a trabalhar com pedra e cerâmica, a técnica diz que “não é habitual” passarem-lhe pelas mãos peças com tantas fracturas. Até a Direcção-Geral do Património Cultural, que analisou os fragmentos e ajudou a IP a preparar o caderno de encargos, chegou a dar a estátua como quase irrecuperável, apontando para um restauro de 70%. Olhando para a peça agora, esse objectivo parece ter sido largamente ultrapassado.

Nos últimos quatro anos, a destruição do D. Sebastião originou várias moções e recomendações na Câmara de Lisboa e na assembleia municipal e até foi motivo para uma manifestação. “É muito bom para o património haver estas discussões e as pessoas se interessarem”, afirma Bruna Oliveira. Pelo contrário, não vê com bons olhos que o homem que derrubou a estátua tenha saído do tribunal absolvido, como o PÚBLICO revelou. “Parece que podemos fazer tudo com o património e nada nos acontece”, lamenta.

João Pedro Pincha, in “Público”, 19/8/2020