quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Os primórdios da indústria dos lanifícios em Portugal


Gerente e operários junto à fábrica de Pêro Mouro, durante a fase de construção da unidade, em Taliscas, Covilhã, finais do século XIX.

Como se vê na imagem, naquela época, uma boa parte da força laboral era constituída por crianças e jovens.


Hélder Carvalho Martins, in "Memória de Portugal - dois séculos de fotografia", Atlântico Press, Lisboa, 2020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Trás-os-Montes, de ontem, de hoje e de sempre





Trás-os-Montes é uma região do nosso país que se caracteriza pela dureza da sua orografia, a qual em muito tem contribuído para a resistência e rijeza das suas gentes, desde os tempos mais remotos da nacionalidade. 

Um relato muito belo sobre essas terras no século XIV, da parte do historiador António Borges Coelho, dá-nos uma imagem muito impressiva do contexto natural da região, em termos que poderiam ser escritos nos séculos posteriores e até na atualidade:


A terra esfiapa-se entre rochedos, avolumando aqui e além em vale macio e úbere, e as rochas, solitárias ou em grandes massas, erguem-se no silêncio, enquanto o castanheiro solene e altivo, de tronco cavado e velho, se recusa a morrer e oferece a ternura das castanhas nos ouriços agressivos.

Isolam Trás-os-Montes as muralhas do Gerez, da Cabreira, do Marão, a Oeste; Larouco, Padrela, Coroa e Montesinho vigiam os montes de Castela, embora os dois povos apertem as mãos como em Rio de Onor; e o Douro é um fosso de fortaleza medieval. Escorre, espuma, salta a Sul e a Leste, ameaça com a força das correntes e o barro das águas, para logo se apaziguar em ilhotas de terra e brincar com milhóes de pedras polidas que amontoa no seu leito.

António Borges Coelho, "A Revolução de 1383", Portugália Editora, Lisboa, 1965, p.32


sábado, 29 de agosto de 2020

D. Sebastião de volta ao Rossio











Noventa fragmentos e mil cuidados: D. Sebastião de volta ao Rossio

Estátua de 1891 foi destruída em 2016 e a colagem dos pedaços decorreu este Verão. Regressa esta quinta-feira à estação.

Agosto tem tido uma meteorologia atípica, mas as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para esta quinta-feira parecem estranhamente adequadas à ocasião: céu muito nublado e aguaceiros em quase todo o país. Os sebastianistas mais empedernidos não sonhariam melhor – o monarca regressa, já não em corpo e glória para conduzir o país ao Quinto Império, mas na forma de uma estátua que se julgava irrecuperável.

Está concluído o restauro da escultura de D. Sebastião que decorava a fachada da Estação do Rossio e que há quatro anos foi destruída por um homem que nela se empoleirou para tirar uma selfie.

A colagem dos fragmentos decorreu nos últimos dois meses. “Falta-nos o último desafio, que é o transporte”, diz Bruna Oliveira, revelando algum nervosismo com a operação marcada para esta quinta-feira. Um camião especificamente vocacionado para transportar obras de arte virá até ao rés-do-chão de Algés em que funciona a empresa de conservação e restauro Água de Cal, seguindo para o Rossio envolto em mil cuidados. “Esta peça, apesar de estar de pé, está muito frágil”, avisa a responsável pelo trabalho.

Quando aqui chegou no final de Junho, este D. Sebastião era uma amálgama de pedaços de diferentes dimensões a que os técnicos tiveram de dar sentido. Até para eles o resultado final foi uma surpresa. “Neste caso eu própria me surpreendi com faltarem tão poucas peças”, afirma Bruna Oliveira. No fim da intervenção, colados 90 fragmentos, reconhece-se novamente a figura do rei, quase à escala real, e há pedras que vão ser devolvidas à Infra-Estruturas de Portugal (IP) por não terem sido precisas.

A empresa pública que gere as estações de comboios guardou todos os pedaços numa sala desde 2016 e até entregou aos restauradores coisas que não pertenciam à estátua. Esse zelo, sublinha Bruna, permitiu o sucesso do trabalho. “Eles guardaram mesmo tudo!”

A IP decidiu que este D. Sebastião ficará a partir de agora no interior da estação, no átrio, “ficando em espelho com a réplica que futuramente será colocada no nicho da fachada”, explica fonte oficial. A construção da réplica ainda não está contratada.

“O restauro foi feito tendo em conta que a estátua vai para o interior, que não vai estar em contacto com a chuva nem com o vento forte”, diz Bruna Oliveira. Apesar de ser novamente uma figura una e de estar limpa de sujidade, um olhar atento facilmente reconhece as zonas degradadas. Esculpida num único bloco de calcário (e não lioz, como se chegou a pensar), a estátua “já tinha muitas reconstituições”, explica a conservadora-restauradora, apontando para os dedos do monarca, o medalhão ao peito, a espada, a fivela e os castelos do escudo como zonas em que a argamassa tinha já substituído a pedra.

“Este calcário é muito fácil de esculpir, mas tem pouca durabilidade no exterior porque tem uma absorção de água muito elevada”, diz, concordando que a peça “não tem condições” para ficar novamente exposta aos elementos. “Se fizerem a réplica no mesmo material, daqui a 50 anos não vai estar em bom estado.”

À semelhança das antigas intervenções que foram reparando os defeitos da escultura, também esta recorreu à argamassa para lhe dar a coerência devida. Isso aconteceu, por exemplo, na cabeça do rei, a parte mais danificada com a queda. Foi preciso reconstruir-lhe a nuca. “A intervenção não tenta dissimular o original, mas discernir de forma harmoniosa o que é a peça original e o que é a intervenção”, explica a responsável, sublinhando que o trabalho agora feito é reversível mais tarde, se assim se entender.

Mais invisível e mais permanente é o que foi feito para garantir a integridade da peça. Ao pô-la de pé tornou-se inevitável incluir pequenos varões de inox e fibra de vidro para que ela não desmoronasse. “Não dá para descolar”, garante Bruna Oliveira.

Habituada a trabalhar com pedra e cerâmica, a técnica diz que “não é habitual” passarem-lhe pelas mãos peças com tantas fracturas. Até a Direcção-Geral do Património Cultural, que analisou os fragmentos e ajudou a IP a preparar o caderno de encargos, chegou a dar a estátua como quase irrecuperável, apontando para um restauro de 70%. Olhando para a peça agora, esse objectivo parece ter sido largamente ultrapassado.

Nos últimos quatro anos, a destruição do D. Sebastião originou várias moções e recomendações na Câmara de Lisboa e na assembleia municipal e até foi motivo para uma manifestação. “É muito bom para o património haver estas discussões e as pessoas se interessarem”, afirma Bruna Oliveira. Pelo contrário, não vê com bons olhos que o homem que derrubou a estátua tenha saído do tribunal absolvido, como o PÚBLICO revelou. “Parece que podemos fazer tudo com o património e nada nos acontece”, lamenta.

João Pedro Pincha, in “Público”, 19/8/2020




sexta-feira, 31 de julho de 2020

Mário Castrim, um homem de fé



De seu nome verdadeiro Manuel Nunes da Fonseca, nascido em Ílhavo em 31/7/1920 e falecido em Lisboa em 15/10/2002, Mário Castrim foi um brilhante professor, escritor, poeta e jornalista, que nos cumpre aqui evocar.

Mas a faceta principal do trabalho de Mário Castrim, pela qual foi mais justamente apreciado, foi a de crítico de televisão, profissão que ele praticamente criou, e que desempenhou no "Diário de Lisboa" desde 1965, com as suas crónicas diárias mordazes e acutilantes, e mais tarde com crónicas semanais no "Tal & Qual".

O amigo da Aldraba e também jornalista Viriato Teles, escreveu no "Público" de ontem, 30/7/2020, um sentido comentário acerca do percurso pessoal do Mário Castrim, colega ao qual muito deve, designadamente a decisão de ele próprio se ter profissionalizado como jornalista. 

E é Viriato Teles que afirma de Castrim ser um exemplo vivo de como é possível ser-se crente e marxista, em que acreditar em Deus só o poderia levar ao Partido onde entendia estarem os melhores dos melhores e de onde "acreditava poder nascer uma sociedade mais justa, menos desigual - e consequentemente mais divina, porque mais humana".

Na atividade de crítico de televisão, conta Viriato que Mário Castrim passava noites e noites frente ao aparelho, a analisar e escrever sobre o que se passava na RTP, e as crónicas datilografadas eram depois deixadas depois num saco do pão pendurado do lado de fora da porta de casa, onde um estafeta do "Diário de Lisboa" se encarregava de as levantar pela madrugada...

Conta ainda Viriato Teles que Mário Castrim, no princípio dos anos 1990, respondeu a um pedido de opinião do cardeal-patriarca D. António Ribeiro sobre a intenção da Igreja Católica de avançar com o canal TVI, tendo-o desaconselhado vivamente: "Cuidado, vai-se meter com um demónio que não consegue dominar...". O cardeal não ouviu o conselho, e agora vê-se no que deu a TVI!

Hoje, 31/7/2020, numa sessão de homenagem ao centenário de Mário Castrim realizada no Hotel Vitória, Jerónimo de Sousa contou que, também nos anos 1990, lhe foi pedida ajuda para preparar uma entrevista que no dia seguinte o candidato Jerónimo à Presidência da República iria dar à RTP. Castrim compareceu na sede do Partido, mas ripostou liminarmente: "Tu, camarada, com a experiência que tens das lutas nas fábricas, vens-me pedir ajuda? Desculpa, mas não estou à altura para isso". E foi-se embora...

Era assim Mário Castrim: lúcido, frontal, incisivo! 

Pessoalmente, deixem-me apenas recordá-lo na sua modéstia, no princípio dos anos 1960, quando ia nas tardes das 4ªs feiras ao meu liceu Pedro Nunes, nas "atividades circum-escolares", dar umas aulas de datilografia, onde aprendi com ele a escrever no teclado HCESAR...

JAF



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Profissões perdidas (O ferrador)






















A Câmara Municipal de Moura está a dinamizar o projecto "Valorização do Património Imaterial do Concelho de Moura", desenvolvido pelo Sector Museus e Património Histórico.

O projecto conta com a colaboração da comunidade local para o seu enriquecimento e tem como objectivos:

1. A preservação do património intangível, expresso entre outros, nas tradições, no saber fazer, na linguagem, nas técnicas;
2. A divulgação do projecto e dos depoimentos e objectos e demais materiais encontrados.

O segundo eixo temático do projecto, dedicado às artes e ofícios tradicionais, tem vindo a decorrer e está prestes a ser concluído. No âmbito deste tema, foi desenvolvido trabalho de campo que envolveu a recolha de testemunhos em registo fotográfico e vídeo, compilação de fotografias antigas e instrumentos de trabalho.

Assim, foi entrevistada a dirigente da Aldraba Maria Eugénia Gomes, cuja família, na freguesia do Sobral da Adiça, há várias gerações que esteve associada ao ofício de ferrador.

Da entrevista, que mereceu muitas manifestações de apreço, podem ser vistos os extractos divulgados pela Câmara Municipal de Moura em:


JAF








segunda-feira, 6 de julho de 2020

Memorial da escravatura em Lisboa



Foi aprovada na passada sessão da Assembleia Municipal de Lisboa, que teve lugar no dia 30 de junho de 2020, a recomendação "Concretizar o projeto de um memorial da escravatura na cidade de Lisboa" apresentada pelos Deputados Municipais do Movimento Cidadãos por Lisboa.

Esta recomendação, cujo texto aqui se reproduz, foi votada favoravelmente por todos os Partidos e Deputados Municipais, com exceção de um voto contra e uma abstenção de dois deputados independentes.

Concretizar o projeto de um memorial da escravatura na cidade de Lisboa

Em 2017, enquadrado no Orçamento Participativo da cidade de Lisboa, entre os projetos então escolhidos constou a edificação de um memorial que evoque a escravatura, com o objetivo de homenagear as vítimas da escravatura e do tráfico de escravos. A proposta foi apresentada pela Djass-Associação de Afrodescendentes, que desde então desenvolveu algumas medidas que permitissem a concretização do monumento evocativo, a que se associaria, numa segunda fase, um Centro Interpretativo.

Em 2018, decorreram reuniões entre a CML e a referida Associação, tendo então sido aumentada a participação da CML no projeto para 150.000 euros. Foi aberto concurso de ideias para o efeito, tendo sido selecionado o projeto apresentado pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda. Foi proposto que o monumento se localizasse no Campo das Cebolas, estando a sua concretização apontada para o segundo semestre de 2020.

A justa revolta que eclodiu um pouco por todo o mundo, incluindo na cidade de Lisboa, contra o assassinato do cidadão afroamericano George Floyd pela polícia norte-americana, numa inqualificável postura racista, conferiu particular centralidade à questão do racismo de que a questão da escravatura não é separável.

Homenagear as vítimas da escravatura numa cidade como Lisboa, que foi um centro importante deste repugnante negócio, é um momento de Portugal se reconciliar consigo mesmo. Não se trata de reescrever a História, mas sim de a escrever de forma completa, nas suas luzes e nas suas sombras. Erigir um memorial da escravatura é denunciá-la, nas suas diversas formas e momentos, como uma violência a que Portugal e muitos outros países recorreram para o seu desenvolvimento económico, com total desrespeito pela dignidade devida a todo o ser humano. O projetado monumento ajudará os portugueses a reanalisar muitos dos mitos ainda prevalecentes quanto à pretensa bondade do colonialismo português, contribuindo para uma maior aproximação à verdade histórica e contribuirá para um maior respeito para com as comunidades afrodescendentes que habitam entre nós.

Os Deputados Municipais do Movimento Cidadãos por Lisboa vêm propor à Assembleia Municipal de Lisboa, reunida em 30 de junho de 2020, que delibere aprovar e recomendar à Câmara Municipal de Lisboa que concretize a intenção de fazer erigir, no Campo das Cebolas ou em outro lugar nobre da cidade, o já selecionado Memorial de homenagem às vítimas da escravatura, bem como o projetado Centro Interpretativo associado.

(aa) Ana Gaspar, António Avelãs, Joana Alegre, José Alberto Franco, Maria Teresa Craveiro e Miguel Graça