sábado, 16 de agosto de 2014

Carta de um soldado português na I Guerra Mundial à sua família no Alentejo

O diário "Público" tem vindo a editar uma série notável de suplementos dedicados à Guerra de 1914/1918, de cujo início estamos a comemorar o respetivo centenário.

O primeiro conflito armado à escala global foi uma tragédia mundial na competição entre grandes potências industriais, que se saldou num morticínio de cerca de 9 milhões de pessoas, com mais de 20 milhões de feridos.

Portugal, por iniciativa de um governo republicano pressuroso em demonstrar fidelidade à aliança secular com Inglaterra e para defesa das colónias africanas ameaçadas pela Alemanha, participou na guerra com o CEP (Corpo Expedicionário Português), que registou mais de 2000 mortos.

Na edição de hoje do "Público", Isabel Pestana Marques reproduz um significativo conjunto de mensagens escritas por soldados portugueses, colocados nas trincheiras na Flandres, e que se correspondiam com as suas famílias em Portugal.

Como diz a historiadora, "o pulsar e o rosto humano emergem, ainda hoje, das cartas portuguesas, amarelecidas pelo tempo, tintas de sangue, suor e pó e sobreviventes a uma guerra de características originais e de consequências absolutas na história de Portugal, da Europa e do mundo".

Publicamos aqui o texto comovente de uma dessas cartas, que o soldado raso Manuel Martinho, com toda a genuinidade de um homem do povo pouco letrado, endereça ao seu pai (José Bartolomeu da Silva), para Ourique:

"França, 15 de Agosto de 1918

Meus queridos paes do coração,

Os meus mais ardentes votos é que a receber desta minha carta estejam na posse duma perfeita e felis saúde assim como meus queridos manos eu bem felismente.
Ouve aqui grande bombardeamento o qual fez muitos estragos e algumas mortes mas pala minha parte não ouve novidade.
Eu já sabia que não me acontecia mal, porque tenho mandado ler a minha sina e dis-me o seguinte: muito tempo em guerra e morrer na pátria.
Meus queridos paes: em vista disto também devem ficar satisfeitos e nunca perderem a esperança de me ver, porque algum dia será; tenho ido felis e heide ser até ao fim.
O que tive mais à contra fôe a doença que me deixou muito atrapalhado, mas como adoeço em França, tão em bem adoeço em Portugal, assim o mal venha não á mais que aceitar-se, escapei porque estou guardado para maiores tormentos.
Vou contar a minha mãe porque não tenho ido de licença; não é porque eu não tenha direito, que já tenho direito a 3 licenças, porque já conto 18 meses de campanha, mas é outro caso. Em campanha fazem-se injustiças como se fazem em Portugal, as quais têem-se que gramar e calar a bôca. Aqui da minha formação foram muitos sargentos de licença, assim como de todas as outras e nem mais cá voltaram; nós aqui não básta termos muito trabalho porque somos poucos como também não podemos ir de licença por fazer falta ao serviço.
Isto agradese-se ao senhor ministro da guerra, porque nem só não rende a gente, como também não torna a mandar os que vão de licença: isto é próprio do governo Portuguez, que nunca o fez por menos; faz do direito torto, e do torto direito. É uma sussia de canalhas que só pençam em robar e não se lembram daqueles que vivem na amargura á 18 meses, separados de suas famílias e dando a última pinga de sangue pela sua pátria.
Tenham passiencia e conformem-se com a sorte que Deus me deu: convensan-se que o mais prejudicado sou eu e com tudo eu cá vou indo. As horas que mais sofro são aquelas em que me lembre minha família, minha mocidade e liberdade. Nessas horas até quido de estalar de paixão, vingo-me em chorar assim como muitos meus colegas, mas não temos outro remédio que é disfarçar-mos uns com os outros.
No dia em que recebi as voças fotografias, não calculam o abalo que me deu, ao ver aqueles que tantos beijos me deram e tantos tormentos passaram para me criar e encontrar-me longe e muito longe.
Muitos abraços aos meus manos, beijinhos ao José e ao Almiro; muitas recomendações a toudos os meus tios e tias, primos e preimas, a todos os rapazes e raparigas do meu tempo e a toda a nossa vesenhança.
Meus queridos paes recebam uma viva saudade e um grande abraço d'este seu querido filho que já mais os esquesse e lhe deseja pedir a bênção.
Manuel Martinho".
                                                                                                                                                                                                                          
JAF (texto)
Fotografia extraída do blogue "APC Gorgeios", relativa ao soldado raso José Pires Pinto, de Gorjães (aldeia a 14 km de Faro), vítima da I Guerra Mundial.

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