sexta-feira, 12 de junho de 2020

Beldroegas, poejo, orégãos, coentros e outras delícias
















A exposição "Memória de Cheiros Esquecidos" é uma plataforma de comunicação focada em questões relacionadas com a alimentação, agricultura, industrialização, monocultura, ecossistema, biodiversidade, saúde, sustentabilidade e etnografia.

Está patente na sala Olivença da Casa do Alentejo, desde o dia 10 de junho de 2020, aquando da comemoração dos 97 anos da criação desta notável casa regional.

Trata-se de uma exposição de etnobotânica, que resultou de um programa de interação com os habitantes de Vila Alva, uma aldeia do concelho de Cuba, no Baixo Alentejo.

12 meses, 12 espécies, 12 pessoas e 12 pratos foi a chave para o programa, que consistiu numa primeira fase, na identificação de 12 espécies botânicas, da flora local, e na sua relação com um dos 12 meses, de acordo com a sua sazonalidade.

As 12 espécies vegetais, relacionadas com os 12 meses de janeiro a dezembro, são as seguintes:

Poejo
Carrasquinha
Catracuz
Silarca
Alho comum
Beldroega
Hortelã da ribeira
Orégão
Hortelã comum
Acelga
Cardo do leite
Coentro

De seguida relacionaram-se 12 pessoas, ainda com uma memória presente da vida ligada à natureza, com as 12 plantas e os respetivos meses.

Por fim, foi pedido às pessoas que recordassem a receita de um prato, da dieta tradicional, a partir da planta que lhes foi atribuída.

Dos conteúdos gerados a partir desta interação foram criados os painéis, que reúnem ilustrações e informação científica das espécies, assim como fotografias, dados biográficos e as receitas partilhadas pelas pessoas que colaboraram no projeto. A exposição conta ainda com um herbário com amostras das espécies que foram possíveis tratar e reunir.

A Casa do Alentejo apresentou a exposição no âmbito das comemorações do seu 97º aniversário, neste dia 10 de junho, sendo que, pelas restrições impostas pelas autoridades de saúde, as visitas estiveram limitadas à lista de convidados da Casa do Alentejo, pelo que a exposição só passou a estar disponível ao público de 11 a 30 de junho, todos os dias, entre as 12.00 e as 21.00h.
O autor da exposição, que é o designer Fernando Estevens, na impossibilidade de estar presente todos os dias para receber quem tenha interesse em visitar a exposição, irá promover duas visitas guiadas, nos dias 18 e 25 de junho, pelas 18.00h.
A associação Aldraba teve o privilégio de conhecer a exposição e o seu autor no dia 10/6/2020, e estimula todos os nossos amigos e associados a comparecerem neste espaço de excelência relativo ao conhecimento e à valorização do património natural alentejano.
JAF

sexta-feira, 5 de junho de 2020

O povo das palavras










A sua forma essencial é de ar articulado. Mas também pode ser de letras ou de gestos.

Uma sociedade de palavras chama-se língua.

Há famílias de línguas, línguas maternas, línguas irmãs, línguas de origem, línguas de contacto. Nascem, crescem, decaem, ficam moribundas e morrem. Nelas há produção e reprodução. Há palavras masculinas, femininas e neutras. Até há algumas que são pares mínimos! Palavras de todos os tempos: imperfeitos, perfeitos e mais que perfeitos; do passado, do presente e do futuro. Há primeira pessoa, segunda pessoa... até à sexta que são os eles todos. Fazem flexões e conjugações. As palavras perduram mais que as pessoas de carne e osso.

A maioria são feitas da matéria de outras que viveram antes delas. Vão fermentando sentidos com que captam o colorido do mundo. Vão lançando pequenos tentáculos como prefixos e sufixos e com eles expressam o carinho, a pequenez, a grandeza, a futilidade, a abundância, a repetição, a ausência, o modo, o ofício, o acto e o abstracto.

As palavras conhecem o seu lugar na sociedade. Sabem que um sujeito só o é quando um verbo o espera. Que há acções que actuam sem qualquer sujeito visível, como “chover”, embora a chuva se veja muito bem. Viver tem sempre sujeito, mas o sujeito também existe mesmo se o seu verbo for morrer.

As palavras juntam-se com traços de união que são as alianças delas.

Muitas sobrevivem de embarcar em contentores de navios, outras, temerosas e tremendas, escondem-se em labirintos de sussurros, outras pipilam quiquiriquis em lábios de criança, outras são forjadas e polidas em salões de espelho a fim de matar outras que nascem nos montes aos molhos.

Grandioso e formigueiro é o povo das palavras.

Há palavras vítimas ou triunfantes ou heroínas. As vítimas ficam agarradas a tempos arrepiantes, multiplicando vítimas entre os seres vivos. “Apocalipse”, “Holocausto”, “Hiroshima”, “Miséria”. As triunfantes agarram-se com desespero ao momento que passa, famintas de eco. “Ganhar”. “Vencer”. “Conquistar”. “Ambição”. As heroínas são as que arrancam alguém à atrocidade do sofrimento. Ninguém diria, ao ouvi-las, que são heroínas. “Bisturi!” - e o moribundo revive. “Bombeiros” – e o perigo é debelado. “Coragem!” – e alguém consegue aguentar mais um pouco, “Segure-se!” – e a velhinha que não conseguia descer as escadas é levada pelo braço de um príncipe sonhado, como num feitiço de beladona.

Importantes, as palavras assassinas :“Fome”, “Sede”, “Morte”, “Dor”, “Ódio”, “Incompetente!” ,“Está despedido!”, “Corrupto!”, “Pedófilo!”, “Austeridade”, “Doença”... além de ditador, carrasco, tortura, todas com letra pequena por desalmadas que são.

Para as palavras assassinas e malfeitoras não existem prisões. Elas esvoaçam como as outras , mas por onde passam deixam um rasto de infelicidade. Enquanto as palavras boas... as que aparecem em todos os manuais da civilidade, essas fazem o mundo rodar melhor. “Amor”, “Paz”, “Felicidade”, “Saúde”...“Um copo”.

Podia falar também das maleitas que acometem as palavras, sobretudo quando existem sob a forma de letras. Mas adiante.

Resumindo, acontece com as palavras exactamente o mesmo que acontece connosco, pessoas de carne e osso. E de palavra.

As pessoas são o conjunto de todas as palavras que conseguem dizer e provocar, enquanto as palavras são escravas livres, ao serviço da gente. Que tolice. Livres? As palavras escravas? Que te parece, amig@, a ti que tanto sobre elas, com elas, meditas?

5/6/2020


Manuela Barros Ferreira






sexta-feira, 29 de maio de 2020

Feiras, a do livro, do Relógio, da Ladra ou das Galinheiras – a tradição que se mantém









































A Feira do Livro de Lisboa está de volta ao Parque Eduardo VI. A sua 90ª edição vai realizar-se de 27 de Agosto a 13 de Setembro, segundo notícia hoje divulgada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).

“A Feira do Livro de Lisboa será o mais próximo daquilo que sempre foi, as adaptações que fizermos serão aquelas que sejam necessárias para cumprir as exigências que a pandemia impuser e as normas que vierem a ser definidas pela Direcção-Geral de Saúde. Sendo que aquelas que se conhecem no momento são perfeitamente integráveis na dinâmica da feira”, acrescenta Bruno Pires Pacheco.

A Câmara Municipal de Lisboa está já a testar novas soluções nas feiras que já abriram, como a do Relógio, a da Ladra e a das Galinheiras, e essas soluções poderão vir a ser aplicadas também no espaço público do Parque Eduardo VI.

Vale a pena saber um pouco das suas histórias:

Feira da Ladra de Lisboa (1252)

Feira do Livro de Lisboa (1931)

Feira das Galinheiras (há mais de quatro décadas)

Feira do Relógio (há mais de três décadas)

MEG, fotografias da internet

quinta-feira, 28 de maio de 2020

COVID 19 - Definidas as regras para utilização de espaços culturais














Mesmo com regras de funcionamento apertadas e exigentes, depois de os museus teram aberto as suas portas em 18 de Maio, é agora a vez dos demais espaços culturais se prepararem para no dia 1 de Junho receberem de novo o seu público!

A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou hoje orientações destinadas à utilização dos equipamentos culturais, com o objetivo de prevenir a transmissão da covid-19 e identificar os procedimentos a adotar perante um caso suspeito.

O documento define um conjunto de medidas a adotar antes da abertura dos equipamentos culturais, nomeadamente, a necessidade de um Plano de Contingência com a definição de uma área de isolamento e dos circuitos para chegar e sair da mesma, bem como os procedimentos a adotar perante um caso suspeito.

Aos colaboradores é pedido que tenham conhecimento, formação e treino para reconhecer sinais e sintomas compatíveis com a covid-19 e adotar as medidas de prevenção e controlo da transmissão da doença.

Entre as medidas gerais, continuam a ser recomendadas normas de distanciamento físico de dois metros entre as pessoas, a criação de circuitos próprios e separados nas entradas e saídas e o uso de máscara em espaços fechados, com exceção dos membros dos corpos artísticos em atuação.

O documento que define as medidas específicas a adotar em salas de espetáculos, de exibição de filmes e similares; livrarias, arquivos e bibliotecas; museus, palácios e monumentos e na programação ao ar livre, pode ser consultado na íntegra em:

MEG, com fotografia da Executive Digest

domingo, 17 de maio de 2020

A leiteira























O blogue da Aldraba tem vindo a registar e a documentar muitos ofícios tradicionais, cuja memória é fundamental para a identidade de todos nós.

Hoje, mais do que um texto descritivo, recorremos a uma imagem (que fala mais do que mil palavras…).
Reproduzimos um belíssimo quadro, da autoria do pintor flamengo Johannes Vermeer, que o pintou à volta de 1658, e que se encontra atualmente no Rijksmuseum, em Amsterdão.
Neste quadro, Vermeer retrata um instante do quotidiano de trabalho de uma empregada de cozinha, absorta na sua tarefa. A intimidade da rotina é revelada pela tranquilidade com que a ação acontece.
A mulher é uma figura serena, segurando delicadamente uma jarra com leite. Encontra-se no seu mundo, num interior quase nu, com a presença de alguns objetos simples.
A cena é silenciosamente iluminada. A luz chega pela janela e banha todo o ambiente, estendendo um brilho ao conjunto. O tratamento de luz e sombra também revela a grande perícia de Vermeer. A luz que cai sobre a leiteira destaca os seus antebraços pálidos e dirige o nosso olhar para o leite que escorre.
No canto inferior da parede estão representados um escalda-pés e azulejos, um deles mostrando Cupido, deus do amor. De acordo com o historiador de arte Harry Rand, a pintura sugere que a mulher está a fazer pudim de pão, o que explicaria o leite e os pedaços de pão sobre a mesa. A mesa, os pães, os objetos em cerâmica e a mulher compõem um conjunto harmónico, nas cores e nas formas.

JAF (texto adaptado de http://estoriasdahistoria12.blogspot.com)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa


















Pela primeira vez na história, a UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, assinala no dia de hoje, 5 de maio de 2020, o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Há já 11 anos que esta data, 5 de maio, era considerada como o Dia da Língua e da Cultura Portuguesa pela CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Destaquemos ainda que a UNESCO decidiu esta honra, pela primeira vez, relativamente a uma língua que não é nenhuma das suas 6 línguas oficiais (o inglês, o mandarim, o espanhol, o francês, o russo e o árabe), ainda que o português seja a 5ª língua mais falada do mundo.

A nossa língua é hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, 3,7% da população mundial, sendo língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, e ainda de Macau e de Goa, bem como língua de trabalho ou oficial de organizações internacionais como a União Europeia, a União Africana e o Mercosul.

Como já aqui escrevemos por duas ocasiões, "a língua portuguesa é passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino"(reprodução de um manifesto de inteletuais portugueses em 2014).

Mas também dissémos, e hoje relembramos:
“Descaracterizamos os locais, desvalorizamos o que somos e abdicamos das nossas palavras. Esvaziamo-nos de nós e da nossa própria identidade. O reconhecimento do dia da língua portuguesa pela UNESCO é sem dúvida muito valioso, mas a afirmação da nossa língua depende, essencialmente, de nós. É preciso não termos medo das palavras. Devemos persistir, sempre, na recusa em deixar desmoronar a casa onde a gente mora” (editorial do nº 26 da revista ALDRABA, outubro de 2019).

JAF


sexta-feira, 1 de maio de 2020

As Maias













Tradição primaveril de celebração da natureza ou da fertilidade, cujas origens se perdem no tempo. Se para uns a tradição vem do nome do mês de Maio, que recebeu o nome do deus Maius, deus da Primavera e do crescimento, para outros teria sido em honra de Maia, deusa romana da fertilidade, ou até mesmo de Flora, a deusa das flores e da juventude, cujas festas iniciavam o novo ano agrícola e atingiam, na Roma antiga, o seu auge nos três primeiros dias de Maio.

Presente em várias regiões do país e um pouco por toda a Europa, a tradição revela aspetos diferentes em cada uma, mas um denominador comum: as Maias floridas.

O ritual das Maias acontece na noite de 30 de abril para 1 de maio quando a natureza acorda para a juventude e manda a tradição que se enfeitem portas, janelas e outros locais com flores e giestas amarelas ou com bonecas de palha enfeitadas de flores, sempre com o propósito de espantar o mal e convocar o bem, a saúde e a fartura. 

Em algumas terras, havia a tradição da “coroa das maias”, elaborada em papel com fitas de cores e que os rapazes colocavam à porta das suas pretendidas como manifestação do seu amor.

Para além das tradições e para muitos de nós, Maio é um mês de festa e de luta já que no seu primeiro dia se proclamou o Dia Internacional dos Trabalhadores que pudemos celebrar em plenitude a partir de 1974. 

Festa pelas muitas conquistas alcançadas e luta por cada vez mais dignidade para o mundo do trabalho e para todos os trabalhadores!

MEG