A fisga foi um objeto familiar para muitos jovens rapazes
portugueses, há umas décadas atrás, em especial para os que viviam em áreas
não-urbanas do país.
Era confecionada com materiais simples e sem custos pelos
rapazes desembaraçados da nossa terra.
Como base um tronco de árvore bifurcado (escolhido com jeito
e cortado entre os ramos de uma qualquer árvore), duas tiras de borracha para
os elásticos laterais (obtidas, por exemplo, a partir de uma câmara de ar, já
furada, de uma roda de bicicleta), e um pequeno pedaço de cabedal para servir
de suporte às “munições” (pequenas pedras ou seixos).
Horas e dias animados para a rapaziada pobre, que se
divertia em provas de pontaria a objetos fixos, na caça às aves ligeiras, ou em
outras malandrices mais ou menos censuráveis…
Uma calorosa recordação que nos foi trazida nos anos 1990’s
por um grupo musical de duração efémera, que já evocámos aqui em agosto de 2025 num
post relativo aos bilhetes postais dos CTT.
Trata-se do grupo que adotou o nome de Rio Grande, que
reuniu seis notáveis artistas - o Rui Veloso, o Tim (dos Xutos e Pontapés), o
João Gil (dos Trovante), o Jorge Palma, o Vitorino e o João Monge. Editaram em
1996 um álbum com o mesmo nome do grupo, e um segundo em 1998 com o nome de
"Dia de Concerto".
Consta do primeiro desses álbuns uma bela peça, com letra do
João Monge e música do João Gil, que hoje aqui reproduzimos:
A fisga
Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes
O meu pai diz que o sol é que nos faz
Minha mãe manda-me ler a lição
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
Faz-me falta ouvir outra opinião
Eu até nem sequer sou mau rapaz
Com maneiras até sou bem mandado
Mestre escola diga lá se for capaz
P’ra que lado é que me viro, p’ra que lado
Eu até nem sequer sou mau rapaz
Com maneiras até sou bem mandado
Mestre escola diga lá se for capaz
Pra que lado é que me viro, pra que lado
Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes
“Rio Grande”, 1996
JAF
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