quinta-feira, 21 de novembro de 2013

ITINERANTE, projeto inovador na salvaguarda do património












A Itinerante, como a maioria dos projectos ligados à defesa do património, nasceu quase de geração espontânea. Foi o entusiasmo de um pequeno grupo de pessoas que transformou uma ideia inicial, difusa, num projecto que tem, hoje, alguma dimensão e notoriedade.

Tudo começou com umas caminhadas em que participavam os amigos e os amigos dos amigos. Preparava-se não só o trilho, mas também meia dúzia de notas para dar a conhecer a região, referenciando o património existente e algum acontecimento histórico marcante. E muitas vezes, para fechar em beleza um dia bem passado a caminhar, havia opípara refeição num restaurante da zona desfrutando da gastronomia local. Estas caminhadas foram ganhando regularidade e adeptos. Conversa puxa conversa – uma das grandes virtudes das caminhadas é que conversamos… e é tão estimulante conversar! –, começou a fermentar a ideia de passar para o papel o conceito que, casualmente, tinha aparecido, fruto dos interesses de alguns de nós: juntar as três valências – o Caminhar, o Conhecer e o Conviver. E assim nasceu a “Itinerante – Divulgação Histórica e Cultural, Crl”, uma cooperativa sem fins lucrativos cujo objecto principal é a divulgação da História, da Cultura, da Geografia e da Paisagem, para dinamização do Turismo.

Face mais visível do trabalho desenvolvido pela cooperativa é a Revista ITINERANTE, que, no Ponto 1 do seu Estatuto Editorial, define claramente a sua razão de ser: «A revista ITINERANTE defende, através do pedestrianismo, o Turismo Ético. É objectivo da ITINERANTE: (a) promover hábitos de vida saudável; (b) defender e valorizar o património natural, cultural e ambiental; (c) contribuir para o estabelecimento de relações reciprocamente benéficas entre os caminheiros e as comunidades locais.»

E pensamos que, nos números já publicados, temos conseguido dar resposta a este objectivo. Por decisão editorial, a Itinerante é uma revista temática, ou seja, cada número é dedicado a um assunto. Até hoje, foram publicados 8 números – Invasões Francesas, Faróis de Portugal, Caminho Português de Santiago, República, 7 Maravilhas Naturais de Portugal, Contrabando, Santuários de Portugal e Enoturismo – para além de um número especial dedicado às Linhas de Torres Vedras.

Talvez a forma mais simples de dar a conhecer a Itinerante seja referir alguns dados:

(a) Já foram apresentados 61 trilhos, em 53 concelhos do Continente e das Ilhas. Vão desde a Serra d’Arga até à Ria Formosa, passando pela subida ao Pico e pela Lagoa das Sete Cidades. No total, eles percorrem 960km. De acordo com os nossos padrões – todos os trilhos foram testados pela equipa Itinerante, o que garante, a quem os faz, uniformidade nos critérios considerados – quem fizer todos ocupará 269 horas.

(b) Demos a conhecer 31 restaurantes. O Abocanhado, em plena Serra do Gerês, o Lampião, no Turcifal, o Martinho da Arcada, em Lisboa, a D. Isilda, em Palmela, o Eira do Mel, em Vila do Bispo e as Vides, em Câmara de Lobos, foram alguns deles. Mas o “Conviver” não se fica pelos restaurantes; há também a preocupação em divulgar pratos tradicionais da gastronomia local. Por isso já escrevemos sobre, por exemplo, a açorda, os Ovos Moles de Aveiro, a Bôla de Lamego, os enchidos do Alto Minho, as Fatias do Freixo e o Pão e Queijo da Senhora da Lapa, em Sernancelhe. É de ficar com água na boca…

(c) No bloco “Conhecer” já se conta com a colaboração de 60 individualidades. Porque consideramos primordial garantir informação rigorosa e de qualidade, recorremos, na grande maioria dos números, a um Consultor Científico, alguém de reconhecido mérito no tema em causa, que nos auxilia na escolha dos assuntos e dos articulistas. Por exemplo, o Prof. Doutor António Ventura, director do Centro de História da Faculdade de Letras de Lisboa, ajudou-nos no número das Invasões Francesas e tivemos o precioso apoio do Prof. Doutor José António Falcão, director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, nos números que dedicámos ao Caminho de Santiago e aos Santuários. Tivemos já a honra e o prazer de entrevistar, por exemplo, Frei Bento Domingues, a propósito do Caminho de Santiago, o Dr. Joaquim Boiça, que foi também o Consultor Científico, sobre os Faróis de Portugal, o Eng. José Bento dos Santos, conceituado gastrónomo, a propósito do Enoturismo e o Pe. Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, no número dos Santuários. Muitos outros nomes ligados à História, à Cultura e à Defesa do Património têm escrito na Itinerante, mas há duas personalidades que destacamos, pelo simbolismo dos seus contributos: no número dedicado às Linhas de Torres tivemos a participação de Lord Douro, descendente do Duque de Wellington e a de D. Manuel Clemente, na altura Bispo do Porto, actual Patriarca de Lisboa, que deu o seu testemunho enquanto Comissário da Comissão Municipal de Torres Vedras para as Comemorações do Bicentenário das Invasões Francesas. São estas pequenas “vitórias” que nos dão alento para continuar!

Mas o projecto Itinerante não se esgota na revista. Há o site (www.itinerante.pt) onde é possível ler excertos dos artigos publicados e descarregar os trilhos para GPS – basta introduzir a password que vem na revista do respectivo trilho – e há a página de Facebook; neste momento já ultrapassámos os 1.800 amigos. Ser amigo da Itinerante, no Facebook, permite estar a par das iniciativas desenvolvidas por entidades, algumas delas nossas parceiras. De facto, no âmbito da procura do benefício recíproco, entre quem caminha/visita e quem vive/se preocupa com a região, desde a primeira hora temos procurado, e temos conseguido, criar parcerias com associações de desenvolvimento local e de defesa do património. Neste momento são já mais de 20 as parcerias assinadas. No caso da Aldraba, essa parceria não está (ainda) protocolada, mas não faltará oportunidade. A excelente relação existente entre a Aldraba e a Itinerante ficou bem patente na nossa participação no XXI Encontro da Aldraba “Da Mértola Islâmica à Raia do Contrabando”, onde tivemos o prazer de partilhar convosco o trilho do contrabando “De Santana de Cambas à Mina de São Domingos”.

Uma última palavra quanto ao futuro. Não estamos parados e é nossa intenção aprofundar o projecto. Há ideias… ainda em fase de maturação. Aguardemos pelo início de 2014.

Até lá, saudações caminheiras!

José Constantino Costa

(Reprodução do artigo publicado no nº 14 da revista ALDRABA, em distribuição)



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Feito o lançamento da revista nº14




























O Clube do Sargento da Armada acolheu-nos nesta realização do lançamento da revista Aldraba.

Encontro de amigos em que intervieram Ana Isabel Carvalho, José Constantino Costa, José do Carmo Francisco, Luís Maçarico e José Alberto Franco, autores de alguns dos textos inseridos na publicação.

Vítor Agostinho, director da Voz do Operário, abriu a sessão, sendo o associativismo e os "miúdos" da Voz o tema de que naturalmente falou com todo o entusiasmo e muita ternura

Mª Céu Ramos (texto e fotos)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O acervo documental da ALDRABA (12): Religiosidade












Abordamos hoje o descritor RELIGIOSIDADE, do grupo temático “Referências culturais”.

Reproduzem-se em seguida as indicações dos trabalhos, neste domínio, publicados até ao presente na revista “ALDRABA”:


José Alberto Franco, “Os santuários e a religiosidade popular”, in “ALDRABA”, nº 12 (Out.2012), p.22

José do Carmo Francisco, “A “Miraculosa””, in “ALDRABA”, nº 14 (Out.2013), p.24

José do Carmo Francisco, “Videntes e confidentes”, in “ALDRABA”, nº 7 (Jul.2009), p.21

José Manuel Prista, “Ai, minha rica Santa Bárbara”, in “ALDRABA”, nº 6 (Dez.2008), p.11

José Manuel Prista, “Das arremedas ao castigo dos santos”, in “ALDRABA”, nº 4 (Dez.2007), p.9

Luís Afonso, “Aparições”, in “ALDRABA”, nº 7 (Jul.2009), verso da capa

Luís Afonso, “Construam-me uma ermida”, in “ALDRABA”, nº14 (Out.2013), verso da capa

Luís Filipe Maçarico, “O imaginário popular em torno de Santo António”, in “ALDRABA”, nº 10 (Jul.2011), p.13

Marco Valente, “Andanças do diabo por terras portuguesas”, in “ALDRABA”, nº 9 (Out.2010), p.9


Os leitores e amigos que pretendam aceder a estes textos, e que se manifestem em comentário ao presente post, ou por e-mail para aldraba@gmail.com, receberão uma cópia digitalizada do ou dos artigos que assinalarem.

JAF (Gravura reproduzida de http://baloesportugal.blogspot.pt)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Revista ALDRABA nº14 é lançada no próximo sábado, 9.11, às 17h
















Todos são convidados para a sessão de lançamento do nº 14 (outubro 2013) da revista ALDRABA, que irá ter lugar no próximo sábado, dia 9 de novembro, pelas 17 horas, no Clube do Sargento da Armada, perto de Alfama e de São Vicente de Fora (Rua das Escolas Gerais, 96/2º, 1120-221 Lisboa).

O apresentador da revista será Vítor Agostinho, diretor da Sociedade "A Voz do Operário", que há longo período de tempo tem desempenhado funções associativas e autárquicas naquela zona da cidade de Lisboa e que, nomeadamente, é ensaiador da marcha infantil da Voz do Operário (à qual este número da revista dedica um artigo de fundo).

Depois da sessão, todos os presentes que o desejem poderão participar num animado magusto (castanhas, água-pé, geropiga, etc.), que o Clube do Sargento da Armada organiza no mesmo local, para os seus associados e familiares, mas que é aberto a outros amigos.

A Direção da ALDRABA

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O "Faz-Tudo"

As luzes, os artistas, a cor, a ilusão, os trajes grotescos, as trapalhadas dos palhaços, os risos cristalinos das crianças e de todos quantos têm alma de criança, os malabarismos, a fantasia, a música, a ternura, a imaginação... fazem do circo um espectáculo único e um local onde o riso é mais livre, um verdadeiro conto de fadas, onde a tristeza não tem lugar. E, quem não deseja recordar os contos de criança, o mundo do faz de conta, ser transportado ao mundo da fantasia; quem não deseja abrir a boca de espanto perante todo o espectáculo grandioso e recordar com nostalgia, os tempos de criança?

O circo significava também uma vida errante, com misérias e grandezas, com dureza e aventura, com pobreza e alegria.

Os «faz-tudo» são artistas em que poucos reparam, mas que são os alicerces do espectáculo, pois preenchem os espaços em branco, que não permitem monotonia ou quebra de continuidade e que, ao mesmo tempo, provocam o riso. São eles, que entre actuações, intervêm para “obrigar” o público a rir, arquitectando pantominas, dando piruetas e saltos mortais. “Os «faz-tudo» não têm obrigações iguais ou parecidas às dos vários números do elenco da Companhia. Flutuam, conforme as necessidades do espectáculo, tapando «buracos», amenizando o tempo de colocação da rede para os voadores ou da desmontagem das jaulas das feras. São necessários, são imprescindíveis...” (Luís Ferreira, “A arte de fazer rir o público”, in República, 25/2/1955)

Quando entravam no palco, eram recebidos com a exclamação: “Olha! Lá vêm os trapalhões!”. E, nesse preciso momento, surgia a figura do «faz-tudo». Vestiam-se muitas vezes de casaco até aos joelhos, lenço tabaqueiro pendurado do bolso das calças, excessivamente compridas e largas, chapéu de coco, amarrotado, umas botas de «sete-léguas», e assim faziam rir o público, e sobretudo as crianças.

Conforme descreve Júlio Castilho, no segundo tomo da obra Lisboa Antiga, as raízes do circo remontam a maio de 1596 quando “estiveram em Lisboa uns arlequins, acrobatas, funâmbulos ou volatins, como lhe chamavam. E sabe o leitor onde representavam, e onde o público foi admirá-los e aplaudi-los, pagando as entradas a vintém por cabeça? Foi no pátio da casa do conde de Monsanto D. António de Castro. Por sinal o espectáculo rendia 30 a 40 mil réis em cada tarde" (Lisboa Antiga). Data de 1782 o primeiro circo instalado num teatro em Lisboa e desde então a sucessão de espectáculos por companhias portuguesas ou estrangeiras, ao ar livre ou em salas de espectáculo, na capital, no Porto e em outros locais deste pequeno país. O Coliseu dos Recreios foi parte relevante desse processo: "Lisboa precisava de uma grande sala de espectáculos. Com esta convicção fundou-se em 1887, a Sociedade dos Recreios Lisbonenses, em plena maré de exaltação nacionalista, na sequência das comemorações centenárias de Camões e Marquês de Pombal".

Muitos dos circos que atuaram, e atuam, em Portugal estão associados a famílias que preservam a tradição (Cardinali e Chen, por exemplo).

Hoje em dia a arte circense vive com dificuldades. Existe a necessidade de reinventar novas tradições e criar novos números.

Senhores e Senhoras! Meninos e Meninas! Exmo. Público! Saudemos o circo que vem aí! O REI DO RISO! O REI DOS PALHAÇOS!

Manuel Mamede Pereira

(mais outro artigo que sairá no nº 14 da revista ALDRABA)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A marcha infantil da Voz do Operário

É do lugar cimeiro de cada arco que Santo António, adoptado pelo coração dos lisboetas como padroeiro, testemunha o movimento, a luz e o colorido que vestem a Avenida em noite de marchas.
De contornos controversos quanto à sua forma de afirmação e ao seu modelo, esta festa alfacinha faz parte da vida da cidade e é uma experiência de associativismo, trazendo os bairros à rua num incessante e animado desfile. A concurso, os marchantes, percorrem, entusiasticamente, usando coreografias mais ou menos complexas, aquela “passerelle”. Erguendo os arcos e balões, seguem as figuras, mais ou menos mediáticas, que assumem o papel de padrinhos.
O desfile dos bairros não se inicia, contudo, sem antes entrarem em campo “os miúdos” da Voz do Operário - A marcha infantil que, em 1988, se apresentou pela primeira vez abrindo o desfile, regista, desde aí, a sua presença no início de todas as edições.
É uma marcha diferente – e marca a diferença na sua constituição, nos seus objectivos, na sua organização mas também na sua coreografia e, especialmente, no seu reportório.
A “mascote” das marchas, como é considerada a marcha infantil, faz a abertura da exibição no Pavilhão Atlântico mas é no desfile, sob as mil luzes da Liberdade, que os “miúdos da Voz”, mais brilham.
Em representação de todos os bairros e de todas as crianças da cidade, são os primeiros a enfrentar o público, desdobrando-se em sorrisos, entusiasmo e movimento. A marcha integra variados jogos, corridas, exercícios, brincadeiras ou a composição de quadros adicionais, incluídos na própria marcha, que permitem a integração do elevado número de elementos que a compõem.
São muitos, os miúdos da Voz – muito para além dos 48 permitidos pelo regulamento das marchas – crianças cuja idade oscila entre os 6 e os 12 anos, tendo por mascotes um menino e uma menina, de 3 ou 4 anos. Em 2005, já Vitor Agostinho, coordenador e ensaiador da marcha infantil e director geral da Voz do Operário, explicava o facto ao jornal A Capital: “não há selecção para não desiludir as crianças – este ano são 60 – serem mais ou menos depende das desistências ao longo dos ensaios – os marchantes não oficiais andam «por fora» como apoios a fazer marcações complementares.”
Os pequenos marchantes recebem os aplausos inaugurais de todas as claques, coleccionando manifestações bastante elogiosas com referências à ingenuidade, à ternura, ao carinho, mas também à tenacidade, à coragem e ao exemplo que é dado.
No final não há prémios, nem classificação, nem menções honrosas, vitória ou derrota – há a satisfação de se organizarem, participarem e representarem toda a cidade. Mas, principalmente, como recorrentemente é referido pela organização, há a preocupação de cumprir os objectivos a que a marcha infantil se propôs: ensinar e reviver a tradição e as realidades da cidade recriando profissões e modos de vida; incentivar as crianças à participação; tentar incutir, aproveitando o consenso que a marcha infantil gera, outra mentalidade nos bairros; veicular um projecto pedagógico através dela e identificá-la com a Voz do Operário enquanto instituição ligada ao conhecimento e à aprendizagem; intensificar a relação de pertença no reforço da identidade alfacinha.
O desfile na Avenida, culminar de um trabalho exaustivo, passa pela persistência e empenho, pela motivação e entusiasmo dos miúdos, mas também dos graúdos. O processo de organização é desenvolvido, desde a primeira realização, por uma Comissão organizadora constituída por um conjunto alargado de pessoas que, sendo de diferentes áreas de actividade, contribuem de forma voluntária para este trabalho colectivo de assinalável valor. São elementos da direcção, associados, trabalhadores, encarregados de educação, professores e amigos da instituição que tomam, a cargo as inscrições das crianças, a marcação e desenvolvimento dos ensaios, as reuniões, os contactos, a confecção dos figurinos, a construção dos arcos, os adereços, a coreografia e a concepção das letras e das músicas.
É um trabalho feito “em casa”, com muito da “prata da casa” para, posteriormente, se projectar a partir daí para toda a cidade, na certeza de que no ano seguinte, com o mesmo empenho e dedicação, cumprindo os mesmos objectivos se repetirão os ensaios diários, de Abril a Junho, no recinto desportivo da Voz do Operário e o grande desfile na Avenida.
Os ensaiadores – Vitor Agostinho e Sofia Cruz custam a fazer-se ouvir. O entusiasmo nos ensaios é grande, mas a dispersão e a brincadeira também o são. As estruturas em madeira usadas nos ensaios (simulações dos arcos que são confeccionados na oficina improvisada na Voz e que hão-de suportar os símbolos de Lisboa e o da própria Voz do Operário), servem muitas vezes para dar corpo a pequenas disputas e “braços de ferro” entre os marchantes. A algazarra e a movimentação constantes fazem duvidar que o barco seja levado a bom porto. Mas os timoneiros nunca desistem: “Não quero ouvir ninguém a falar. Quero ouvi-los a cantar” – Vitor Agostinho. “Vamos lá marchar. Está tudo na conversa” – Sofia Cruz
E lá vão ensaiando as marcações e aprendendo a coreografia.
O tema escolhido, anualmente, é indissociável das figuras a representar e da coreografia. As figuras devem potenciar o interesse das crianças e a coreografia deve ser criativa e dinâmica tendo, também, que comportar momentos em que todos participem e isso, como refere Vitor Agostinho, consegue-se introduzindo jogos ou brincadeiras em conjunto. Em 2003, a marcha infantil recriou um quadro de recreio da escola que até tinha o jogo da macaca.
A criatividade das coreografias também pode ser expressa pelos elementos surpresa introduzidos. Foi o caso de 2009, em que as crianças surpreenderam o público distribuindo sopa de fava-rica nas bancadas.
Talvez por tudo isto se verifique que, amiudadas vezes, se recorre às representações de vendedeiras dos mais diversos produtos que davam colorido às ruas de Lisboa. A figura da vendedeira é, genuinamente, uma figura de agitação e comporta uma certa cor, se não pelos trajes que eram usados, pelo menos pelos pregões cantados e pela constante interacção com os clientes.
Todo este movimento é envolvido num invólucro musical composto por três temas, além da Grande Marcha de Lisboa (obrigatória para todas as marchas). Interpretam-se, anualmente, uma ou duas marchas inéditas, recuperando-se mais uma ou duas, dependendo dos anos, do significativo reportório, tendo em consideração que a marcha canta há já 26 anos.
Os criadores das letras e músicas são uma referência no panorama musical português. Os temas musicais, também de acordo com os figurinos, são variados e repletos de imagens festivas e pueris. Os exemplos são ricos pelos vocábulos utilizados para falar das varinas, peixeiros, leiteiras, aguadeiros, ferro-velho, cauteleiros ou para falar da escola e da felicidade.
“Queremos um dia que não vem no calendário/e ser felizes na Voz do Operário” – Esta marcha, da autoria de José Jorge Letria (letra) e Carlos Alberto Moniz e Braga Santos (música), assume mais do que uma designação podendo ser referida como “Queremos um sol” ou “Queremos um dia” ou, ainda, “Calendário”, no entanto, ela é repetida todos os anos, desde 1988, e é considerada como o Hino da Voz do Operário.
O que importa relevar é que, mais de meio século (64 anos) após o início das Marchas de Lisboa enquanto cartaz cultural e turístico das Festas da Cidade, se alargou o fenómeno das marchas ao universo infantil. O evento não mais deixou de se realizar e ao longo dos 26 anos da sua existência (1988-2013). Enalteceram-se as figuras do povo que deram razão e vida à Sociedade que ainda hoje, com 130 anos de existência, se recusa a esquecer as origens. A prova da vontade em retomar a memória, valorizando a actividade que originou a Sociedade surgida a partir de um jornal, é o recurso à representação do ardina com alguma recorrência.
Em tempos que muitos consideram ser de esmorecimento do associativismo popular, a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário – instituição centenária de referência no panorama do associativismo lisboeta - parece ter sabido revitalizar o seu projecto associativo – a emergência e continuidade da marcha infantil faz parte do processo de redefinição da instituição.
Nas diversas actividades que a Voz do Operário organiza e promove, a marcha infantil é, talvez, a par da escola, a que mais visibilidade dá à instituição. Veicula um propósito pedagógico que pretende reforçar a identidade local e o interesse pelo património imaterial ligado ao imaginário urbano.
A sua criação é um sinal de futuro. Sensibilizar a comunidade para o significado de um corpo de baile, efémero e paradoxalmente duradouro pela repetição, que desfila em primeiro lugar na Avenida, promovendo a história dos bairros, da cidade antiga e das profissões populares, parece ser receita de sucesso para a continuidade do projecto da Voz.
Santo António continuará a testemunhar, do alto de todos os arcos, a tenacidade, o empenho e a dedicação dos miúdos da marcha da Voz do Operário

Ana Isabel Carvalho
(pré-publicação de artigo que sairá no nº 14 da revista ALDRABA, actualmente no prelo)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O acervo documental da Aldraba (11): Algarve














Continuando as referências documentais do nosso acervo, abordamos desta vez o descritor ALGARVE, do grupo temático “Regiões portuguesas e lusófonas”.

Reproduzem-se as indicações dos artigos publicados até ao presente na revista “ALDRABA”, relativos aos 16 concelhos (Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Castro Marim, Faro, Lagoa, Lagos, Loulé, Monchique, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel, Silves, Tavira, Vila do Bispo e Vila Real de Santo António) que integram esta região:

ALGARVE

Ana Ramos, “Antigos saberes, novos fazeres”, in “ALDRABA”, nº 13 (Abr.2013), p.21

Glória Montes, “A lota de Lagos”, in “ALDRABA”, nº 9 (Out.2010), p.5

Helena Catarino, Fernando Dias e Manuela Teixeira, “Jogos intemporais - tabuleiros e pedras de jogo do Castelo Velho de Alcoutim”, in “ALDRABA”, nº 6 (Dez.2008), p.2

Leonel Costa, “Acerca do “Guia do construtor” para a aldeia de Alte”, in “ALDRABA”, nº 9 (Out.2010), p.16

Luís Filipe Maçarico, “As fontes de Querença”, in “ALDRABA”, nº 3 (Jun.2007), p.4

Marco Valente, “Lendas de mouros e mouras da Serra do Caldeirão”, in “ALDRABA”, nº 6 (Dez.2008), p.16

Sónia Tomé, “A água dá, a água tira”, in “ALDRABA”, nº 12 (Out.2012), p.9

Susana Calado Martins, “A produção de cal artesanal no barrocal algarvio: Monte Brito e Esteval dos Mouros”, in “ALDRABA”, nº 11 (Abr.2012), p.7


Quem pretenda aceder a estes textos, e se manifeste em comentário ao presente post, ou por e-mail para aldraba@gmail.com, receberá uma cópia digitalizada do ou dos artigos que assinalar.

JAF

(Gravura reproduzida de cafeportugal.net)