quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O "Faz-Tudo"

As luzes, os artistas, a cor, a ilusão, os trajes grotescos, as trapalhadas dos palhaços, os risos cristalinos das crianças e de todos quantos têm alma de criança, os malabarismos, a fantasia, a música, a ternura, a imaginação... fazem do circo um espectáculo único e um local onde o riso é mais livre, um verdadeiro conto de fadas, onde a tristeza não tem lugar. E, quem não deseja recordar os contos de criança, o mundo do faz de conta, ser transportado ao mundo da fantasia; quem não deseja abrir a boca de espanto perante todo o espectáculo grandioso e recordar com nostalgia, os tempos de criança?

O circo significava também uma vida errante, com misérias e grandezas, com dureza e aventura, com pobreza e alegria.

Os «faz-tudo» são artistas em que poucos reparam, mas que são os alicerces do espectáculo, pois preenchem os espaços em branco, que não permitem monotonia ou quebra de continuidade e que, ao mesmo tempo, provocam o riso. São eles, que entre actuações, intervêm para “obrigar” o público a rir, arquitectando pantominas, dando piruetas e saltos mortais. “Os «faz-tudo» não têm obrigações iguais ou parecidas às dos vários números do elenco da Companhia. Flutuam, conforme as necessidades do espectáculo, tapando «buracos», amenizando o tempo de colocação da rede para os voadores ou da desmontagem das jaulas das feras. São necessários, são imprescindíveis...” (Luís Ferreira, “A arte de fazer rir o público”, in República, 25/2/1955)

Quando entravam no palco, eram recebidos com a exclamação: “Olha! Lá vêm os trapalhões!”. E, nesse preciso momento, surgia a figura do «faz-tudo». Vestiam-se muitas vezes de casaco até aos joelhos, lenço tabaqueiro pendurado do bolso das calças, excessivamente compridas e largas, chapéu de coco, amarrotado, umas botas de «sete-léguas», e assim faziam rir o público, e sobretudo as crianças.

Conforme descreve Júlio Castilho, no segundo tomo da obra Lisboa Antiga, as raízes do circo remontam a maio de 1596 quando “estiveram em Lisboa uns arlequins, acrobatas, funâmbulos ou volatins, como lhe chamavam. E sabe o leitor onde representavam, e onde o público foi admirá-los e aplaudi-los, pagando as entradas a vintém por cabeça? Foi no pátio da casa do conde de Monsanto D. António de Castro. Por sinal o espectáculo rendia 30 a 40 mil réis em cada tarde" (Lisboa Antiga). Data de 1782 o primeiro circo instalado num teatro em Lisboa e desde então a sucessão de espectáculos por companhias portuguesas ou estrangeiras, ao ar livre ou em salas de espectáculo, na capital, no Porto e em outros locais deste pequeno país. O Coliseu dos Recreios foi parte relevante desse processo: "Lisboa precisava de uma grande sala de espectáculos. Com esta convicção fundou-se em 1887, a Sociedade dos Recreios Lisbonenses, em plena maré de exaltação nacionalista, na sequência das comemorações centenárias de Camões e Marquês de Pombal".

Muitos dos circos que atuaram, e atuam, em Portugal estão associados a famílias que preservam a tradição (Cardinali e Chen, por exemplo).

Hoje em dia a arte circense vive com dificuldades. Existe a necessidade de reinventar novas tradições e criar novos números.

Senhores e Senhoras! Meninos e Meninas! Exmo. Público! Saudemos o circo que vem aí! O REI DO RISO! O REI DOS PALHAÇOS!

Manuel Mamede Pereira

(mais outro artigo que sairá no nº 14 da revista ALDRABA)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A marcha infantil da Voz do Operário

É do lugar cimeiro de cada arco que Santo António, adoptado pelo coração dos lisboetas como padroeiro, testemunha o movimento, a luz e o colorido que vestem a Avenida em noite de marchas.
De contornos controversos quanto à sua forma de afirmação e ao seu modelo, esta festa alfacinha faz parte da vida da cidade e é uma experiência de associativismo, trazendo os bairros à rua num incessante e animado desfile. A concurso, os marchantes, percorrem, entusiasticamente, usando coreografias mais ou menos complexas, aquela “passerelle”. Erguendo os arcos e balões, seguem as figuras, mais ou menos mediáticas, que assumem o papel de padrinhos.
O desfile dos bairros não se inicia, contudo, sem antes entrarem em campo “os miúdos” da Voz do Operário - A marcha infantil que, em 1988, se apresentou pela primeira vez abrindo o desfile, regista, desde aí, a sua presença no início de todas as edições.
É uma marcha diferente – e marca a diferença na sua constituição, nos seus objectivos, na sua organização mas também na sua coreografia e, especialmente, no seu reportório.
A “mascote” das marchas, como é considerada a marcha infantil, faz a abertura da exibição no Pavilhão Atlântico mas é no desfile, sob as mil luzes da Liberdade, que os “miúdos da Voz”, mais brilham.
Em representação de todos os bairros e de todas as crianças da cidade, são os primeiros a enfrentar o público, desdobrando-se em sorrisos, entusiasmo e movimento. A marcha integra variados jogos, corridas, exercícios, brincadeiras ou a composição de quadros adicionais, incluídos na própria marcha, que permitem a integração do elevado número de elementos que a compõem.
São muitos, os miúdos da Voz – muito para além dos 48 permitidos pelo regulamento das marchas – crianças cuja idade oscila entre os 6 e os 12 anos, tendo por mascotes um menino e uma menina, de 3 ou 4 anos. Em 2005, já Vitor Agostinho, coordenador e ensaiador da marcha infantil e director geral da Voz do Operário, explicava o facto ao jornal A Capital: “não há selecção para não desiludir as crianças – este ano são 60 – serem mais ou menos depende das desistências ao longo dos ensaios – os marchantes não oficiais andam «por fora» como apoios a fazer marcações complementares.”
Os pequenos marchantes recebem os aplausos inaugurais de todas as claques, coleccionando manifestações bastante elogiosas com referências à ingenuidade, à ternura, ao carinho, mas também à tenacidade, à coragem e ao exemplo que é dado.
No final não há prémios, nem classificação, nem menções honrosas, vitória ou derrota – há a satisfação de se organizarem, participarem e representarem toda a cidade. Mas, principalmente, como recorrentemente é referido pela organização, há a preocupação de cumprir os objectivos a que a marcha infantil se propôs: ensinar e reviver a tradição e as realidades da cidade recriando profissões e modos de vida; incentivar as crianças à participação; tentar incutir, aproveitando o consenso que a marcha infantil gera, outra mentalidade nos bairros; veicular um projecto pedagógico através dela e identificá-la com a Voz do Operário enquanto instituição ligada ao conhecimento e à aprendizagem; intensificar a relação de pertença no reforço da identidade alfacinha.
O desfile na Avenida, culminar de um trabalho exaustivo, passa pela persistência e empenho, pela motivação e entusiasmo dos miúdos, mas também dos graúdos. O processo de organização é desenvolvido, desde a primeira realização, por uma Comissão organizadora constituída por um conjunto alargado de pessoas que, sendo de diferentes áreas de actividade, contribuem de forma voluntária para este trabalho colectivo de assinalável valor. São elementos da direcção, associados, trabalhadores, encarregados de educação, professores e amigos da instituição que tomam, a cargo as inscrições das crianças, a marcação e desenvolvimento dos ensaios, as reuniões, os contactos, a confecção dos figurinos, a construção dos arcos, os adereços, a coreografia e a concepção das letras e das músicas.
É um trabalho feito “em casa”, com muito da “prata da casa” para, posteriormente, se projectar a partir daí para toda a cidade, na certeza de que no ano seguinte, com o mesmo empenho e dedicação, cumprindo os mesmos objectivos se repetirão os ensaios diários, de Abril a Junho, no recinto desportivo da Voz do Operário e o grande desfile na Avenida.
Os ensaiadores – Vitor Agostinho e Sofia Cruz custam a fazer-se ouvir. O entusiasmo nos ensaios é grande, mas a dispersão e a brincadeira também o são. As estruturas em madeira usadas nos ensaios (simulações dos arcos que são confeccionados na oficina improvisada na Voz e que hão-de suportar os símbolos de Lisboa e o da própria Voz do Operário), servem muitas vezes para dar corpo a pequenas disputas e “braços de ferro” entre os marchantes. A algazarra e a movimentação constantes fazem duvidar que o barco seja levado a bom porto. Mas os timoneiros nunca desistem: “Não quero ouvir ninguém a falar. Quero ouvi-los a cantar” – Vitor Agostinho. “Vamos lá marchar. Está tudo na conversa” – Sofia Cruz
E lá vão ensaiando as marcações e aprendendo a coreografia.
O tema escolhido, anualmente, é indissociável das figuras a representar e da coreografia. As figuras devem potenciar o interesse das crianças e a coreografia deve ser criativa e dinâmica tendo, também, que comportar momentos em que todos participem e isso, como refere Vitor Agostinho, consegue-se introduzindo jogos ou brincadeiras em conjunto. Em 2003, a marcha infantil recriou um quadro de recreio da escola que até tinha o jogo da macaca.
A criatividade das coreografias também pode ser expressa pelos elementos surpresa introduzidos. Foi o caso de 2009, em que as crianças surpreenderam o público distribuindo sopa de fava-rica nas bancadas.
Talvez por tudo isto se verifique que, amiudadas vezes, se recorre às representações de vendedeiras dos mais diversos produtos que davam colorido às ruas de Lisboa. A figura da vendedeira é, genuinamente, uma figura de agitação e comporta uma certa cor, se não pelos trajes que eram usados, pelo menos pelos pregões cantados e pela constante interacção com os clientes.
Todo este movimento é envolvido num invólucro musical composto por três temas, além da Grande Marcha de Lisboa (obrigatória para todas as marchas). Interpretam-se, anualmente, uma ou duas marchas inéditas, recuperando-se mais uma ou duas, dependendo dos anos, do significativo reportório, tendo em consideração que a marcha canta há já 26 anos.
Os criadores das letras e músicas são uma referência no panorama musical português. Os temas musicais, também de acordo com os figurinos, são variados e repletos de imagens festivas e pueris. Os exemplos são ricos pelos vocábulos utilizados para falar das varinas, peixeiros, leiteiras, aguadeiros, ferro-velho, cauteleiros ou para falar da escola e da felicidade.
“Queremos um dia que não vem no calendário/e ser felizes na Voz do Operário” – Esta marcha, da autoria de José Jorge Letria (letra) e Carlos Alberto Moniz e Braga Santos (música), assume mais do que uma designação podendo ser referida como “Queremos um sol” ou “Queremos um dia” ou, ainda, “Calendário”, no entanto, ela é repetida todos os anos, desde 1988, e é considerada como o Hino da Voz do Operário.
O que importa relevar é que, mais de meio século (64 anos) após o início das Marchas de Lisboa enquanto cartaz cultural e turístico das Festas da Cidade, se alargou o fenómeno das marchas ao universo infantil. O evento não mais deixou de se realizar e ao longo dos 26 anos da sua existência (1988-2013). Enalteceram-se as figuras do povo que deram razão e vida à Sociedade que ainda hoje, com 130 anos de existência, se recusa a esquecer as origens. A prova da vontade em retomar a memória, valorizando a actividade que originou a Sociedade surgida a partir de um jornal, é o recurso à representação do ardina com alguma recorrência.
Em tempos que muitos consideram ser de esmorecimento do associativismo popular, a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário – instituição centenária de referência no panorama do associativismo lisboeta - parece ter sabido revitalizar o seu projecto associativo – a emergência e continuidade da marcha infantil faz parte do processo de redefinição da instituição.
Nas diversas actividades que a Voz do Operário organiza e promove, a marcha infantil é, talvez, a par da escola, a que mais visibilidade dá à instituição. Veicula um propósito pedagógico que pretende reforçar a identidade local e o interesse pelo património imaterial ligado ao imaginário urbano.
A sua criação é um sinal de futuro. Sensibilizar a comunidade para o significado de um corpo de baile, efémero e paradoxalmente duradouro pela repetição, que desfila em primeiro lugar na Avenida, promovendo a história dos bairros, da cidade antiga e das profissões populares, parece ser receita de sucesso para a continuidade do projecto da Voz.
Santo António continuará a testemunhar, do alto de todos os arcos, a tenacidade, o empenho e a dedicação dos miúdos da marcha da Voz do Operário

Ana Isabel Carvalho
(pré-publicação de artigo que sairá no nº 14 da revista ALDRABA, actualmente no prelo)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O acervo documental da Aldraba (11): Algarve














Continuando as referências documentais do nosso acervo, abordamos desta vez o descritor ALGARVE, do grupo temático “Regiões portuguesas e lusófonas”.

Reproduzem-se as indicações dos artigos publicados até ao presente na revista “ALDRABA”, relativos aos 16 concelhos (Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Castro Marim, Faro, Lagoa, Lagos, Loulé, Monchique, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel, Silves, Tavira, Vila do Bispo e Vila Real de Santo António) que integram esta região:

ALGARVE

Ana Ramos, “Antigos saberes, novos fazeres”, in “ALDRABA”, nº 13 (Abr.2013), p.21

Glória Montes, “A lota de Lagos”, in “ALDRABA”, nº 9 (Out.2010), p.5

Helena Catarino, Fernando Dias e Manuela Teixeira, “Jogos intemporais - tabuleiros e pedras de jogo do Castelo Velho de Alcoutim”, in “ALDRABA”, nº 6 (Dez.2008), p.2

Leonel Costa, “Acerca do “Guia do construtor” para a aldeia de Alte”, in “ALDRABA”, nº 9 (Out.2010), p.16

Luís Filipe Maçarico, “As fontes de Querença”, in “ALDRABA”, nº 3 (Jun.2007), p.4

Marco Valente, “Lendas de mouros e mouras da Serra do Caldeirão”, in “ALDRABA”, nº 6 (Dez.2008), p.16

Sónia Tomé, “A água dá, a água tira”, in “ALDRABA”, nº 12 (Out.2012), p.9

Susana Calado Martins, “A produção de cal artesanal no barrocal algarvio: Monte Brito e Esteval dos Mouros”, in “ALDRABA”, nº 11 (Abr.2012), p.7


Quem pretenda aceder a estes textos, e se manifeste em comentário ao presente post, ou por e-mail para aldraba@gmail.com, receberá uma cópia digitalizada do ou dos artigos que assinalar.

JAF

(Gravura reproduzida de cafeportugal.net)

domingo, 29 de setembro de 2013

Os nossos parabéns ao almanaque “Borda d’Água” que faz 85 anos!



                               
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O “Borda d’Água” para 2014 já anda a ser apregoado e vendido há algumas semanas. Tira 100.000 exemplares, o que, ao nível das publicações periódicas, só é ultrapassado pelo “Correio da Manhã”, pelos diários desportivos, e pouco mais…

Como “previsão” para 2014, o “Juízo do ano” do “Borda d’Água” estabelece que “o Homem será muito influenciado”…

E recomenda: “Não perca tempo nem energias com quem não merece. (…) Esteja atento ao consumo de frutos vermelhos, pois podem trazer benefícios mas também malefícios”.

Na meteorologia, prevê que “2014 será de um inverno áspero mas pouco frio, a primavera será húmida, o verão quente e o outono temperado”.

Ou seja, sugestões e previsões em que impera o “bom senso”, e em que o risco de erro não será muito grande.

Ao longo das 12 páginas dedicadas a cada um dos meses de janeiro a dezembro, um muito útil conjunto de informações sobre as horas do nascer e do pôr do sol, sobre as fases da lua, sobre o calendário civil, sobre os procedimentos convenientes no domínio da agricultura, da jardinagem e da pecuária. Entrando no domínio do imaginário e do religioso, informa-se para cada mês sobre as efemérides que fundamentam o calendário católico, e sobre os comportamentos individuais que podem decorrer da astrologia e dos signos do Zodíaco.

No resto do almanaque, encontramos ainda informações sobre as enchentes e vazantes das marés, sobre eclipses do sol e da lua, sobre as canículas de agosto, sobre ao dias da espiga e de S. Valentim, e, finalmente, sobre o calendário de festas, feiras e mercados de norte a sul de todo o país.

O “Borda d’Água” é indiscutivelmente - como se pode imaginar a partir deste resumo da edição de 2014 - uma instituição popular que tem garantido um grande impacto. Tal como o folclore, o artesanato, a religiosidade, o desporto, os ditados, os pregões, etc., tudo são formas práticas pelas quais as populações manifestam o seu inconformismo com as dificuldades da vida, e exprimem o desejo de um futuro melhor.

No verão do corrente ano de 2013, foi travado um estimulante debate nas páginas do diário “Público” acerca da astrologia, e se a mesma será uma fraude ou uma ciência.

Em 6 de agosto último, os astrónomos João Fernandes e Pedro Russo escreveram que “a astronomia e a astrologia estiveram ligadas durante muitos séculos. Houve até figuras que são hoje nomes maiores da astronomia que fizeram horóscopos. Johannes Kepler (astrónomo alemão que viveu nos séc. XVI e XVII) é talvez um dos mais paradigmáticos. Porém, na mesma época em que Kepler viveu, a astronomia e a astrologia separaram-se definitivamente, com o desenvolvimento do método científico: o conjunto de regras básicas de como se deve proceder a fim de produzir conhecimento. Assim a astronomia (ciência) e a astrologia (crença) seguiram caminhos diferentes. (…). Hoje, astronomia e astrologia não têm qualquer relação entre si, quanto aos objetivos ou metodologias de trabalho. Podemos até dizer que a astrologia está para a astronomia como a alquimia está para a química ou para a medicina. Mas porque é que a astrologia não é uma ciência? Não é porque nunca, até hoje, a suposta relação causa-efeito entre a posição dos astros e a vida de cada um de nós foi validada pelo método científico após o escrutínio por equipas de investigadores independentes. (…) E o contrário, foi? Ou seja, há algum estudo que mostre que a astrologia não tem fundamento científico? Há. Podíamos citar trabalhos como o publicado por Shawn Carlson (Univ. da Califórnia), na prestigiada revista Nature, em 1985. Mas deixamos aos leitores um argumento mais simples para reflexão. Com exceção de Úrano, Neptuno e Plutão, a astrologia não incorporou descobertas científicas dos últimos 500 anos tais como: mais de 900 planetas extrassolares, nebulosas, enxames de estrelas, buracos negros, galáxias, entre outros. E nisto se inclui o facto da Terra se mover em torno do Sol. Sim, porque os horóscopos, na realidade, são ainda construídos supondo que a Terra está no centro do Universo e que tudo (incluindo o Sol) roda em torno dela. Pode a astrologia ser considerada ciência e, para além de muitos outros erros técnicos, ao mesmo tempo não se ter atualizado? Assim, a astrologia não é, definitivamente, uma ciência e está ao mesmo nível da cartomância, da leitura nos búzios ou nas borras de café”.

A este artigo, reagiu o “estudante de astrologia” Luís Resina, opinando que “a astrologia que os senhores chamaram de crença, e muito bem, refere-se à divulgação da horoscopia que começou em França nos inícios do século XX. Esta é sem dúvida, uma criação sem fundamentos dos media desejosos de angariar mais público e rentabilidade, já faz algum tempo que vivemos no reino do lucro e da quantidade e facilmente esquecemos a qualidade inerente a certos saberes tradicionais. Quero também elucidar que os “astrólogos esotéricos” são raros, e tal como Fernando Pessoa, aliam o conhecimento à pesquisa e à prática, sabem aplicar o método científico nas suas pesquisas e não precisam que a ciência prove coisa alguma, pois sabem pelas suas verificações e pelos resultados obtidos que a arte régia é operativa. Ela tem um pouco de ciência aliada a uma técnica apurada, alguma psicologia e arte interpretativa, e muita sincronicidade nos seus fundamentos. Como tal, nunca gostaria que esta arte milenar fosse reduzida à nossa mera ciência, que tendo os seus méritos, nunca irá chegar, pelos atuais meios em que se encontra, a explicar o sentido da vida ou as profundezas da psique”.

Finalmente, o médico Nuno Lobo Antunes fez publicar em 15 de agosto uma carta em que se congratula com o artigo inicial “por ver desmascarada, em linguagem talvez demasiado cordata, a impostura que se serve da ignorância”, e se insurge contra a “iniquidade que representa colocar no mesmo plano a busca da verdade e a traficância da mentira”.

Sem nos envolvermos diretamente na polémica, não devemos ignorar os problemas que as práticas astrológicas poderão causar à abordagem objetiva que as pessoas têm de fazer dos seus problemas.

Mas também não será por isso que deixaremos de, aqui, exprimir o nosso apreço à publicação do “Borda d’Água” e ao 85º aniversário que vai completar em 2014!

JAF

terça-feira, 24 de setembro de 2013

30 caminhantes da ALDRABA fizeram a rota da colina da Pena até ao Rossio














Num sábado radioso, pelas 10 horas da manhã, começaram a juntar-se os 30 participantes nesta 4ª Rota da Aldraba, ali no Largo do Mitelo, ao Campo de Santana.

Encontro de amigos já de longa data, e também de conhecimento de vários novos, trazidos pelos primeiros.

Satisfação da direção da Associação, e reconhecimento de todos ao associado José do Carmo Francisco, orientador e animador principal do percurso, coadjuvado pelos dirigentes Maria do Céu Ramos e António Brito.

Começámos pelo contacto com o palácio do desembargador Alexandre Metelo, onde Fialho de Almeida foi praticante de farmacêutico, passámos ao Posto Geodésico e à Academia Militar (evocação da rainha de Inglaterra Catarina de Bragança), e visitámos o Pátio do Costa, “simpático, pequenino e sossegado”.

A partir do jardim do Campo de Santana, avistámos o que começou por ser o Campo do Curral, por efeito da «carniçaria» (matadouro), criada no Largo do Mastro em 1461, e avistámos também a Rua de Gomes Freire, antes chamada Carreira dos Cavalos, pois por aí vinham para Lisboa cavalos, touros e carroças. A Feira da Ladra, antes de ir para Santa Clara, esteve no jardim do Campo de Santana entre 1835 e 1882. As touradas, numa praça de madeira desmontável, eram animadas pelo Conde Vimioso, por D. João de Meneses e pela preta Cartuxa, que anunciava as festas taurinas em tipóia no meio de barulho e escárnio.

No local do Arco de Santana, onde está hoje a Faculdade de Ciências Médicas, evocámos Vasco Santana, que ali passou com distinção (esternoclenomastoideu…), mas em que tudo começou com a célebre frase dita por um preto «Vou para este exame completamente em branco!», e detivémo-nos na estátua ao «santo» Dr. Sousa Martins (1843-1897) que, tendo sido um ateu em vida, «transitou, contra a vontade, da heresia para a santidade.».

Passámos ainda pela placa de homenagem aos Mártires da Pátria, que dão desde 1880 nome oficial ao Campo de Santana, e que foram os heróis da conjura de 1817, 13 dos quais aqui foram enforcados e o mais famoso foi Gomes Freire de Andrade.

Seguimos depois para o Torel, espaço que deve o nome ao desembargador Cunha Thorel. Torel é o jardim/miradouro tal como Torel era o nome dos Serviços de Investigação Criminal em 1927. Por lá passaram os «vadios, mendigos e equiparados». O José do Carmo pormenorizou-nos dois casos: Mário Cesariny e Pepe.

A seguir ao Torel, descemos para a casa onde viveu Venceslau de Moraes (1854-1929), grande escritor português apaixonado pelo Japão e suas gentes, subimos ao Elevador do Lavra inaugurado em 1884 a ligar o Largo da Anunciada à Travessa do Forno do Torel. Ao lado do Instituto Câmara Pestana surge uma casa apalaçada adquirida em 1928 pelo Governo da Ditadura Nacional, junto à qual ficou a Ermida de Santana e sobejam hoje as placas camarárias de 1935 sobre os ossos de Camões, poeta desditoso até na posteridade. «No país onde Camões morreu à fome muitos enchem a barriga à custa de Camões» - Almada Negreiros disse.

Na Travessa da Pena, vimos onde viveu Ramiro Leão (1857-1934), com a sua casa e a sua fábrica, que dá acesso à Vila Serra Fernandes onde surge um magnífico miradouro semi-particular.

Na Calçada de Santana, no nº 177, surgiu a interessante Livraria «Pessoa & Cia», misto de alfarrabista e novidades, e no nº 139 vimos onde terá vivido Camões. No pátio nº 2 da Rua Martim Vaz nº 84, fomos ver onde nasceu Amália Rodrigues em 1920. Seguiu-se o Convento da Encarnação e o respetivo Recolhimento da Encarnação, entregue à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Continuando a descer, chegámos finalmente ao Pátio do Salema, com uma bela vista para as chaminés do Palácio da Independência, e daí ao largo de São Domingos.

A maioria dos participantes nesta 4ª Rota da Aldraba aceitaram depois conviver num animado almoço, no mesmo restaurante junto ao Coliseu dos Recreios (Bonjardim) onde há 8 anos a nossa Associação assinalava os seus momentos fundadores.

Texto JAF (adaptado do guião de José do Carmo Francisco)
Fotografias de Mário de Sousa (reportagem completa no facebook da Aldraba, no álbum "4ª Rota da Aldraba - Do Campo de Santana ao Rossio")

terça-feira, 17 de setembro de 2013

"O sacrifício das raízes", segundo Adriano Moreira













O professor universitário, pensador e antigo dirigente político Adriano Moreira, com uma matriz doutrinária de direita e, portanto, insuspeito de ser mais uma das “forças de bloqueio” que tanto afligem o atual governo português, acaba de publicar – em artigo de opinião no “Diário de Notícias” de hoje, 17.9.2013 – uma lúcida análise dos riscos que a “ideologia orçamental” e a “superintendência de funcionários internacionais no exercício de um protetorado” podem trazer à identidade de um país e de um povo.

Partilhando inteiramente estas preocupações, não resisto a reproduzir-vos as partes mais significativas do alerta do velho professor:


Nesta perturbada entrada no século XXI, com uma transição articulada designadamente pelos conflitos militares de inquietantes custos humanos e materiais, envolvendo o presente e o futuro das pessoas e das comunidades, a atenção às raízes das comunidades em crise precisa de ser preservada de debilidades favoráveis a perdas irrecuperáveis, designadamente, se possível, dos erros de avaliação, mas sempre contra o método de impedir que os povos vejam a realidade, porque o Estado espetáculo a cobre de nevoeiro suficientemente opaco.

Os analistas que não subscrevem os testemunhos dogmáticos da Escola de Chicago e da cruzada de Milton Friedman, morto dias antes da derrota dos republicanos nas eleições a meio do mandato para o Senado em 2006, põem em evidência, como suportes do seu desamor pela doutrina do famoso economista, o facto de ter sido seguida, alegadamente, por regimes como o de Pinochet, que não deixou boa memória.

Esta linha crítica, que também deve ser prudente com o cuidado que é sempre exigível aos contraditores académicos, não obstante a sua reconhecida idoneidade, neste caso também a ponderação terá que não diminuir a presença ativa dos princípios defensores do Estado mínimo, uma orientação que já levou à legitimação em alguns lugares, da privatização da segurança e dos que foram chamados os "cães de guerra".

Independentemente de os regimes serem democráticos, e por isso não exibirem o perigo e o método da violenta submissão das sociedades civis, o perigo do Estado mínimo parece ter reflexos na onda de privatizações à luz da crise financeira, europeia, ocidental, mundial e, por isso, portuguesa, que alarmam visões arreigadas da identidade das sociedades submetidas a essa terapia de choque.

Não parece indicado ignorar que patrimónios, instituições e funções, - que uma longa tradição considera não apenas vitórias, de uma longa evolução mas indispensáveis à confiança no Estado e à própria identidade dos países - não podem ver anulada a sua natureza pública por imperativo de uma ideologia orçamental, pela superintendência de funcionários internacionais no exercício de um protetorado.

Grande parte das alienações que se vulgarizam tocam nas raízes das comunidades e, portanto, na sua identidade. Nas crises brutais por que Portugal passou nestes já longos séculos, foi a segurança da identidade da sociedade civil que permitiu reconstruir um novo futuro. Não é possível consentir que se afetem as raízes para obedecer ao credo do mercado.

(Texto condensado de artigo do DN, 17.9.2013)

JAF

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

4ª Rota da Aldraba - Do Campo de Santana ao Rossio



















Vamos realizar a 4ª Rota da Aldraba “Do Campo de Santana ao Rossio”, dando continuidade aos percursos pela cidade de Lisboa, em busca de referências que sobressaem seja pelo seu significado histórico, seja pelo exemplo que são da preservação (ou não) do património da cidade.

Fica feito o convite a todos os associados e amigos para aparecerem no próximo dia 21 de Setembro (sábado), às 10.00 horas no Largo do Mitelo, ao Campo de Santana.

Após chegada ao Rossio, para todos os que desejarem, poderemos almoçar em conjunto em local próximo e a combinar na altura.

Em apoio ao percurso, contamos com o acompanhamento e a intervenção do nosso associado José do Carmo Francisco, jornalista e homem de cultura.

Para aguçar o apetite aos participantes nesta Rota da Aldraba, recomenda-se a leitura do texto relativo ao seu percurso, elaborado pelo José do Carmo Francisco e já publicado no seu blogue “Transporte Sentimental” em: