terça-feira, 20 de outubro de 2009

A minha rua do bairro da Musgueira


No antigo bairro da Musgueira, que era um enorme abarracado pobre, lá para os lados da actual Alta de Lisboa, viveu parte da sua infância o Mané (Manuel Graça da Silva), que é agora associado da Aldraba e de quem publicámos uma parte das suas memórias no nº 7 do nosso boletim.
É extraordinário que um rapaz desta Lisboa desaparecida tenha escrito sobre o bairro da Musgueira por dentro, com um colorido, uma riqueza de pormenores e uma ternura que vale a pena reproduzir aqui:
"A minha rua dividia-se em 2, não era o lado esquerdo e direito, era o de cima e o de baixo. Todos se conheciam nessa rua e nas outras, mas as casas mais perto da minha eram mais fáceis para pedir um ramo de hortelã, alface ou para um desenrasque de ultima hora, não havia vergonha nem preconceitos para estes pormenores.
O ti Cândido, homem sem barba e bigode na maior parte do tempo e sempre bem penteado, com modos respeitosos, saia um pouco da vulgaridade, era contra tudo e contra todos, talvez mesmo contra ele, cumprimentava todas as pessoas com a mesma facilidade dizia mal delas. Gostava imenso de ajudar os outros, observando todos os gestos, esperando um passo em falso para maldizer, mostrando o arrependimento da ajuda dada, mas sentia-se feliz por ajudar e falar mesmo que para dizer mal.
Com os seus cabelos brancos e óculos remendados com fita-cola, sempre resmungão e fiel às expressões de taberneiro, estabelecimento para o qual nunca teve vocação muito menos formação especifica, talvez o desejo de beber à borla. Enfim! Lá fazia a sua venda, vendia tudo avulso:
- Lixívia, módulos, latas de atum, velas, bilhas de gás, batatas, cebolas etc.
Alguma clientela transformava-lhe os dias, criando motivos de acender uma fogueira para um churrasco, sardinhada ou cara colada enquanto houvesse raios de sol. O cheiro e o fumo convidava sorrateiro os vizinhos, mesmo quando passavam, diziam:
- Ó ti Cândido, posso trazer uns carapaus para assar?
- Assim aproveita-se o carvão!
- Anda lá rapaz, se não sou eu...
Havia freguesia até ás 17h para os almoços, para o jantar teria de ser o Sr. do apito, porque o ti Cândido tinha costumes muito pontuais, levantar e deitar com as galinhas, de Inverno e Verão, com festa ou sem ela, era sempre assim. Eram estas e outras, que tornavam o ti Cândido especial ou diferente dos outros, já não era nada mau, dividia o carvão com os vizinhos. "

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

90 anos de percurso



O nosso associado e grande amigo Jorge Rua de Carvalho acaba de ser homenageado pela Junta de Freguesia de Prazeres a que se juntaram outras entidades, entre as quais a Aldraba através do Presidente do Conselho Fiscal João Coelho que, num depoimento de grande dimensão humana, exaltou o percurso deste homem artista, antifascista e cidadão solidário.

Reproduzimos, a propósito, um artigo publicado no N.º 7 do Boletim "Aldraba":

"Jorge Rua de Carvalho acaba de completar 90 anos de idade neste mês de Julho de 2009.

A Aldraba assinala com todo o afecto e camaradagem este marco na vida do nosso associado, que aprendemos a conhecer e respeitar como um exemplo vivo de trabalhador, de cidadão, de criador artístico, de militante associativo.

O Jorge foi um dos 80 fundadores da Aldraba, presente e interveniente na Assembleia Geral constituinte, em 25 de Abril de 2005, no Ateneu Comercial de Lisboa.

Nestes 4 anos, a Aldraba teve já a sua exposição de bonecos populares em duas mostras de grande impacto, no Museu República e Resistência, em Lisboa, e no Festival do Chícharo, em Alvaiázere.

Apesar das dificuldades inerentes à idade, o Jorge participa sempre que pode nos actos da vida da Aldraba, em encontros, assembleias gerais e eleições, encorajando os mais novos com as suas opiniões e preocupando-se sempre com a situação das finanças da associação.

Antes da nossa experiência em comum, sabemos que o Jorge Rua de Carvalho desenvolveu sempre intensa actividade associativa, em particular no Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”, onde desempenhou durante várias décadas quase todos os cargos sociais, e onde tem sido um dos impulsionadores e praticantes do teatro amador.

Marceneiro de profissão, o Jorge decidiu esculpir em madeira o fruto da sua vasta e rica vivência da Lisboa dos bairros populares, dos pregões, dos ofícios, dos jogos infantis. Os seus cerca de 200 bonecos contam a história da cidade dos humildes e laboriosos, da criatividade dos simples, falam a linguagem da verdade, são património e identidade.

Nos últimos 15 anos, o Jorge também passou à escrita (poemas e prosa) a sua visão da vida e conhecimentos acumulados, tendo publicado "Desabafos", em 1994, "Lisboa saudade : Pregões e figuras típicas de Lisboa (anos 20-40)", em 1999, "Gente da Minha Rua", em 2003, e "Retalhos da Vida Saloia", em 2006.

Um grande abraço de gratidão ao Jorge Rua, e votos calorosos de saúde e vida!"

domingo, 27 de setembro de 2009

Alpedrinha 2009







Tal como anunciado, decorreram nos passados dias 18, 19 e 20 as festas que em Alpedrinha celebram os caminhos e as tradições da Transumância.
Foi um tempo de rever pessoas e sítios, gozar da hospitalidade daquelas gentes e relembrar a beleza dos lugares revisitados.

De mistura com os cheiros, os paladares e os abraços de conhecidos e amigos, sobressaem os sons dos grupos que percorrem as ruas do princípio ao fim da Festa. São os chocalhos que, à roda do petisco e por brincadeira, meia dúzia de confrades lá para as bandas de Vila Verde de Ficalho começaram a tocar e que todos os anos demandam as terras altas da Gardunha, os bombos e os tambores, as gaitas de foles e as flautas, numa mistura prenhe de alegria e animação que a todos invade.
Salientamos, pela beleza e grande qualidade, o concerto da Teresa Salgueiro e do Lusitânia Ensemble. Num ambiente quase irreal criado pelos jogos de luz sobre o largo do Chafariz, as empenas do Palácio do Picadeiro e as arvores circundantes, pela voz única da artista e pela música com que se fez acompanhar nesta versão da Matriz – a nossa matriz musical, ouvimos desde D. Dinis a Lopes Graça, do fado ao folclore, de Carlos Paredes até Fausto, num percurso rico e variado de sons e emoções.

A Aldraba, presente mais uma vez na Festa, contribuiu este ano com a apresentação dos Cadernos Temáticos e, indirectamente, com o lançamento dos Cadernos de Areia – livro de poemas da autoria do Luís Filipe Maçarico.


Desejamos longa vida ao Festival dos Chocalhos e da Transumância, sempre com a mesma qualidade e a mesma hospitalidade a que já nos habituou.

MEG
Fotos de Luís Filipe Maçarico, Luís Franco e MEG

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Em defesa do Zé Povinho



A figura do Zé Povinho é uma, entre tantas outras, das figuras relevantes do imaginário português dos séculos XIX e XX – que, convém lembrar, foram os séculos em que nasceram, cresceram e se tornaram adultos TODOS os portugueses que têm agora mais de nove anos, e em que nasceram os seus pais e avós, ou seja, as gerações cujas experiências e cujas memórias marcam o nosso presente e o nosso futuro próximo.

Segundo a Wikipédia, o Zé Povinho é uma personagem de crítica social, criada por Rafael Bordalo Pinheiro, que apareceu pela primeira vez em “A Lanterna Mágica”, a 12 de Junho de 1875, num desenho alusivo aos impostos (onde se representava Fontes Pereira de Melo, vestido de Stº António com o "menino" D. Luís I ao colo, enquanto Serpa Pimentel, Ministro da Fazenda, sacava o dinheiro do Zé, que permanecia boquiaberto a coçar a cabeça, vestido com um fato rural gasto e roto).
Nos números seguintes da “Lanterna Mágica”, o Zé Povinho continuou a surgir de boca aberta e a não intervir, resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos e ignorante das grandes questões. O próprio Rafael Bordalo Pinheiro diz que “o Zé Povinho olha para um lado e para o outro e... fica como sempre... na mesma".
Como refere João Medina, o Zé Povinho é uma figura cheia de contradições: "Se ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer (…) simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente...".
Tem como característica principal o gesto do manguito como expressão de revolta e insolência, criticando de forma humorística os problemas sociais e políticos da sociedade portuguesa, e caricaturando o povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.
Para Miguel Sousa Tavares, na crónica de 19.9.2009 que publicou no semanário Expresso, “o Zé Povinho representa o pior de Portugal, pelos manguitos que faz aos poderosos, não por serem poderosos mas por os invejar… E que só o faz pelas costas. Porque, pela frente, come e cala, não arrisca nada de nada, etc.”
Associamo-nos a quem, na internet, vem recordar que foram muitos os Zés Povinhos que durante os anos de escuridão foram lutando por direitos sociais e pelo direito de livre expressão de que ele abusa.
Segundo o blogue “Zé Povinho”
“o Zé é um bom português, dos verdadeiros, sem casas na Lapa nem montes no Alentejo, só porque isso dá algum status e dá uma imagem de sucesso que todos deviam invejar, mesmo aqueles por quem o Miguel nutre um ódio doentio – todos os Zés Povinhos...”
JAF

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Um beijo de saudade para a Ana Maria Sobral



Transmitida pelos seus amigos e ex-colegas da Direcção-Geral da Aquicultura e Pescas, chegou esta manhã, brutal e inexorável, a notícia.
Tinha sido encontrada sem vida, na sua casa em Lisboa, a nossa amiga Ana Maria de Abreu Nunes Sobral, associada da Aldraba nº 106.
A Ana Sobral, aposentada recente da função pública, teve uma vida inteira de percurso profissional impecável, técnica superior admirada e respeitada por todos os seus colegas do Ministério da Agricultura.
Pouco depois da constituição da associação Aldraba, contactada por alguns dos seus colegas de trabalho fundadores, a Ana aderiu e inscreveu-se com todo o interesse neste projecto.
Participou em vários dos Encontros realizados, designadamente no Fundão, em Vila Franca de Xira e em Carnaxide, e em jantares-tertúlia.
Simples, cordial, amiga, é como todos registamos este tempo de convívio da Ana connosco.
Enquanto outras pessoas vêm com a auréola da comunicação fácil e das suas realizações, pessoas como a Ana destacam-se pela camaradagem e pela discrição, e pelo empenho que demonstram nas causas comuns.
Registamos aqui com muita tristeza a sua partida, e deixamos para ela um beijo de saudade, e a nossa gratidão pelo exemplo de dedicação à luta pelo património.
A assinalar a memória da Ana Sobral, reproduzimos uma fotografia do XIV Encontro da Aldraba, em Carnaxide, em que a Ana figura à esquerda do vice-presidente da Sociedade Filarmónica Fraternidade de Carnaxide, na singela recepção com que essa colectividade nos brindou.
José Alberto Franco
Presidente da Direcção da Aldraba

Os Cadernos Temáticos da Aldraba no Festival dos Chocalhos em Alpedrinha





Segundo a apresentação oficial, a transumância uniu desde sempre geografias e paisagens, costumes e gentes. Hoje, essa pluralidade, mais do que relembrar as sociedades passadas, assume um valor patrimonial de excelência. Património colectivo que o Festival dos Chocalhos em Alpedrinha (Fundão) pretende revivificar, com um alargado conjunto de iniciativas, cruzando a música pastoril, os produtos locais com as paisagens, a realidade com os sonhos.

A associação Aldraba, que tem acompanhado e participado em anteriores edições, vai estar no 8º Festival dos Chocalhos, apresentando os seus Cadernos Temáticos nº 1.

Aqui fica uma síntese do animado e rico programa do Festival, para o qual todos os nossos associados são desafiados:

18 de Setembro, 6ª feira
19h00 Abertura Oficial Ruas de Alpedrinha
Desfile dos Zabumbas de Alpedrinha, de Pifaradas de Álvaro, do Grupo de Gaitas de Foles "Transumância", do Grupo de Gaitas de Foles "Os Carriços", do Grupo "Tok'avacalhar", do Grupo de Bombos do Alcaide, do Grupo "Foles da Beira", e dos “Ovelha Negra”
20H00 Inauguração do Palácio do Picadeiro
21H00 Animação de rua pelos grupos participantes no desfile Ruas de Alpedrinha
Actuação da Tuna Académica Largo Padre Santiago
21H30 Foles da Beira Largo da Igreja
Grupo de Musica Popular da Casa do Povo Largo da Fontainha
F. Beira Capela do Leão
22H00 Concerto - Gnawa Al-Baraka Largo do Chafariz
Grupo de Música Tradicional de Marrocos
Grupo de Fados Largo do Salão Paroquial
Acordeonista "Sertório" Capela do Leão
Cottas Club Externato Santiago F. Beira Rua dos Valadares
22H30 Foles da Beira Largo da Fontainha
Grupo de Musica Popular da Escola Secundária do Fundão Largo da Igreja
23H30 Concerto – Dazkarieh Largo do Chafariz
Acordeonista "Sertório" Largo do Pelourinho
24H00 Grupo de Fados Rua dos Valadares

19 de Setembro, sábado
11H00 Arruada pelos chocalheiros de Vila Verde de Ficalho Ruas de Alpedrinha
15h00 Festa da Lã Alpedrinha
16H30 Lançamento do livro "Monte da Touca" de Francisco Belo Nogueira Capela do Leão
18H00 Animação de Rua Ruas de Alpedrinha
Desfile dos Zabumbas de Alpedrinha, do Rancho Folclórico da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, de Pifaradas de Álvaro, do Grupo de Gaitas de Foles "Transumância", do Grupo de Bombos de São Sebastião do Barco, do Grupo de Gaitas de Foles "Os Carriços", do Grupo "Tok'avakalhar", do Grupo de Bombos do Alcaide, da Tuna Académica, da Fanfarra Sácabuxa, e dos “Ovelha Negra”
18H30 Lançamento do livro de poesia "Cadernos de Areia" de Luis Maçarico
Divulgação dos Cadernos Temáticos nº 1 da Aldraba Capela do Leão
21H00 Animação de rua pelos grupos participantes no desfile Ruas de Alpedrinha
Concerto – Danae Largo do Chafariz
Actuação do Rancho Folclórico da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra Largo da Igreja
Tuna Académica Largo do Externato
Acordeonista "Sertório" Largo do Salão Paroquial
21H30 Grupo de Fados do Fundão Largo da Fontainha
22H00 Grupo de Bombos de São Sebastião do Barco Largo da Igreja
22H30 Concerto ”Matriz” - Tereza Salgueiro com Lusitânia Ensemble Largo do Chafariz
Acordeonista "Sertório" Largo da Fontainha
23H30 Acordeonista "Sertório" Rua dos Valadares
24H00 Grupo de Fados do Fundão Largo do Salão Paroquial
00H30 Concerto – Olivetree Largo da Fontainha

20 de Setembro, domingo
08H00 Caminhada com rebanho Fundão (Praça do Município)
10H30 Arruada pelos Chocalheiros de Vila Verde de Ficalho Ruas de Alpedrinha
15h00 Lançamento do livro " Histórias de um Tapete" Alpedrinha
16h00 Histórias de Chão – Hora do conto Alpedrinha
17H00 Desfile dos Chocalheiros de Vila Verde de Ficalho, dos Zabumbas de Alpedrinha, do Grupo de Bombos da Junta de Freguesia do Fundão, do Grupo de Bombos de Vale de Prazeres, do Grupo de Bombos das Donas, do Grupo de Bombos do Souto da Casa, do Grupo de Bombos Toca a Bombar, do Grupo de Gaitas de Foles "Os Carriços", do Grupo de Chocalhos da Bouça, do Rancho da Alegria dos Enxames, e do Grupo "Foles da Beira" Ruas de Alpedrinha
18H00 Animação de rua pelos grupos participantes no desfile Ruas de Alpedrinha
21H00 Ruas de Alpedrinha Animação de rua pelos grupos participantes no desfile
Actuação do Rancho da Alegria dos Enxames Largo da Igreja
Actuação do Grupo "Foles da Beira" Largo da Fontainha
21H30 Actuação do Grupo "Foles da Beira" Largo do Salão Paroquial
22H00 Actuação do Rancho da Alegria dos Enxames Largo da Fontainha
Actuação do Grupo "Foles da Beira" Rua dos Valadares
Concerto Clássico Igreja Matriz

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Acerca das invocações de Nossa Senhora



Miguel Esteves Cardoso, cronista urbano cujo sarcasmo e cujo sentido de humor são (mesmo) impagáveis, escrevia a 16.8.2009 no “Público”:

“Começa o meio de Agosto e são as festas em toda a parte. De Senhoras nossas. Da Agonia, da Assunção, do Desespero, da Angústia, da Depressão, das Dores, de todos os castigos imagináveis que possam ajudar a disfarçar o prazer que dão. (…) Agosto é um mês de partilhas indesejadas, são as pessoas perto de mais. (…) É o bacanal das moscas, esquecidas até do açúcar, tal é a febre pela marmelada. (…) Ouço a filarmónica a deglutir a melodia, já de si escassa, do Malhão, Malhão, e, atrás da nuvem de moscas, ainda consigo vislumbrar o coreto onde tudo se vai passar. (…) E chego a esta chocante conclusão: afinal gosto!”

Com o seu snobismo bem disposto, MEC refere-se a certas realidades da cultura popular que devem merecer a nossa atenção.

Neste mesmo blogue, num post de 24.8.2009, a Maria Eugénia Gomes referiu-se à comemoração da Senhora do Ó, realizada no Sobral da Adiça (concelho de Moura), que, como diz justamente, é um culto espalhado um pouco por todo o país e em todos os locais está associado à gravidez e à boa hora de parto. No tempo em que a maior parte das crianças nasciam em casa, era costume que a sua primeira saída fosse visitar a Nossa Senhora do Ó, na intenção de que ela lhe garantisse protecção, saúde e sorte…

Em Portugal, o culto à Senhora do Ó ter-se-á iniciado em Torres Novas a partir de 1212, e é a padroeira de dezasseis freguesias portuguesas, Águas Santas (Porto), Aguim (Aveiro), Alcanadas (Leiria), Ançã, Barcouço, Cadima, Paião e Reveles (Coimbra), Carvoeira e Vilar (Lisboa), Covelo, Duas Igrejas, Gulpilhares e Vilar (Porto), Lordelo (Viana do Castelo), e Olaia (Santarém).

A configuração das imagens com que o nosso povo representa a Senhora do Ó dá à imagem uma incontornável forma rotunda de mulher grávida, daí o “Ó”…

Os teólogos católicos, pressurosos em menorizar estas concretizações, supostamente menos “dignas”, dão outras explicações para o “Ó”, ligadas a um ritual, as “antífonas”, sete orações em que a mãe de Jesus Cristo, na oração da tarde, contempla em cada dia um aspecto do Senhor que vem, nas suas prefigurações no Antigo Testamento, como um longo e profundo caminho para a chegada do profeta. As antífonas do Magníficat são um grito que começa sempre com um “Ó”, que será respondido pelo Senhor. Estas antífonas teriam dado origem à “devoção à Nossa Senhora do Ó, ou a Virgem da expectação, Maria grávida que prepara o nascimento do Verbo, seu filho”.

Em minha opinião, são secundárias estas especulações doutrinárias.

O que interessa, do ponto de vista cultural, são as atitudes com que o povo enfrenta as adversidades, os sofrimentos, e procura exorcizá-los com a evocação, e a representação gráfica ou plástica, de uma “Senhora” que chamaria a si todos esses elementos negativos, para os eliminar ou, pelo menos, para os suavizar…

Sabedoria secular para protestar – embora de forma impotente…– contra a opressão!

JAF


Em anexo, uma pequena lista, necessariamente incompleta, de invocações de Nossa Senhora, veneradas em alguns pontos do mundo de expressão portuguesa:

Nossa Senhora da Abundância; Nossa Senhora das Angústias; Nossa Senhora dos Anjos; Nossa Senhora Aparecida; Nossa Senhora da Apresentação; Nossa Senhora da Assunção; Nossa Senhora Auxiliadora; Nossa Senhora da Boa Morte; Nossa Senhora da Boa Viagem; Nossa Senhora do Bom Conselho; Nossa Senhora de Brotas; Nossa Senhora do Carmo; Nossa Senhora da Conceição; Nossa Senhora Desatadora dos Nós; Nossa Senhora Divina Pastora; Nossa Senhora das Dores; Nossa Senhora da Encarnação; Nossa Senhora de Fátima; Nossa Senhora de Guadalupe; Nossa Senhora da Guia; Imaculado Coração de Maria; Nossa Senhora das Lágrimas; Nossa Senhora da Lapa; Nossa Senhora da Luz; Nossa Senhora da Medalha Milagrosa; Nossa Senhora Medianeira; Nossa Senhora dos Navegantes; Nossa Senhora de Nazaré; Nossa Senhora das Necessidades; Nossa Senhora das Neves; Nossa Senhora do Ó; Nossa Senhora da Oliveira; Nossa Senhora da Pena; Nossa Senhora da Penha de França; Nossa Senhora do Perpétuo Socorro; Nossa Senhora da Piedade; Nossa Senhora do Pranto; Nossa Senhora da Purificação; Nossa Senhora Rainha; Nossa Senhora do Rosário; Nossa Senhora da Saúde; Nossa Senhora das Sete Dores; Nossa Senhora da Soledade; Nossa Senhora da Vitória.